RUTE
"Ide, voltai para a casa de vossa mãe, disse ela às suas noras.O Senhor use convosco de misericórdia,como vós usastes com os que morreram e comigo!Que ele vos conceda paz em vossos lares,cada uma em casa de seu marido!"Não, minhas filhas, minha dor é muito maior do que a vossa,porque a mão do Senhor pesou sobre mim."
Biblia Sagrada. Livro de Rute. I:8-9-13
Rute era uma pessoa que precisava ser amada. Todos nós precisamos, é fato. Mas Rute não tinha nenhum atributo que facilitasse o despertar desse sentimento nos outros. Era muito magra, não tinha expressão. Ninguém poderia saber se era feliz ou infeliz. Vivia sua vida, que não achava boa nem ruim. Era o que tinha. Não teve pais presentes na infância. Era muito pobre, o que talvez explique que não era muito afeita às higienes. Não tomava banho sempre e, quando o fazia, encarava como um fardo. Não lavava direito as caixinhas. Não escovava sempre os dentes, não usava pasta de dente. Quem sabe esta não era a causa de uma dor de dentes constante. Tinha um cheiro morrinhento.
Era desastrada. Quebrava coisas. Tinha dificuldade de articular as mãos e as palavras. Às vezes, precisava das duas mãos, uma ajudando a outra, para realizar tarefas simples. Tudo isso irritava muito as pessoas do seu convívio. Falava pouco. Tinha medo de dizer besteira. Mas pensava muito.
Com dificuldade, completou o ensino primário. Mas escrevia com caligrafia redondinha e inteligível. Queria ter mais conhecimento das coisas do mundo, mas não sabia como. Quando conseguia escutar o radinho de pilha da sogra, gostava de ouvir a Rádio Relógio . Se escutasse uma mensagem que julgava importante, escrevia em pedaços de papel e guardava numa caixa de bombom.
Foi assim que ficou sabendo que a mosca é um dos insetos mais ligeiros e que, se voasse direto, levaria 28 dias para dar a volta ao mundo. Que, 300 anos antes de Cristo, as mulheres já enfeitavam o rosto com batom e pó. Que o colibri come mais que os homens. Que muito tempo antes do Judas que traiu Jesus, houve um outro Judas, muito mau, que era rei de um povo chamado de macabeus. Gostou da palavra, mas não entendeu direito. Como os “Você sabia?...” da Rádio Relógio às vezes se repetiam, da segunda vez que ouviu, certificou-se de que a palavra era mesmo “macabeus”. Lembra de macaco mais beus. Muitas palavras ela não entendia, mas não sabia a quem perguntar. Isto irritava os de seu convívio. Efeméride. Cultura. Renda per capita. Preta portê. Eletrônico.
É possível que a causa fosse que os indagados também não soubessem. Como é que aquela insignificante pessoa, um nada, os colocava de face com sua ignorância?
Morava com o marido Marlon, a sogra viúva, Noêmia, o cunhado, Quincas, e a mulher deste, Glória.
Inacreditável como uma pessoa tão sem atrativos como Rute conseguiu se casar. Talvez porque o marido, Marlon, não quisesse ficar solteiro depois do casamento de Quincas, e as mulheres disponíveis não eram para casar. Ameaça de chifre. Somente uma vez Rute conheceu homem. Na noite de núpcias. Foi ruim. Um procedimento paraginecológico, com lubrificante e sangue. Mas era fêmea, e as fêmeas um dia tinham que passar por isso. O marido nunca mais a procurou. Diziam que “conseguia na rua o que não tinha em casa”. Chegava tarde, bêbado, e ouvia as reprimendas da mãe. Não de Rute, que não ousaria tanto. Mas não maltratava a esposa porque Noêmia não deixava. Apenas uma vez lhe deu um tapa na cara. Rute levava muitos. Todas as pessoas lhe davam tapas na cara. Às vezes no braço. Quando isso acontecia, não reagia. Apenas olhava surpresa para o agressor e sua expressão era tal que sempre lhe pediam desculpas. Tinha um modo particular de aceitar as desculpas. Balançava a cabeça em movimentos curtos e rápidos, como dizendo “não”. “Não foi nada!”, ”Não se preocupe!”. Era o que queria dizer. Talvez ela achasse que fez por merecer. O motivo do tapa de Marlon foi que, ao passar sua camisa, distraiu-se e deixou queimar, com a marca do ferro. Glória, a cunhada, também lhe deu um tapa quando deixou cair e quebrar um prato.
Viviam os cinco na mesma casa. Noêmia, a matriarca, mantinha ordem no recinto. Suas tarefas domésticas não incluíam mais nada além ver televisão o dia inteiro. Rute ficava com o trabalho pesado: lavar roupa, chão, privada, louça das refeições. Glória fazia compras e cozinhava. Os homens “trabalhavam” para Digaí, o Grande Chefe da comunidade.
Engraçado o nome: Digaí. Era apelido, mas pegou. O nome certo era Maurício, do qual não gostava. Lembrava Mauricinho e Patricinha. Queria ser chamado de Mauro. Lembrava mau. Antes de ser o chefão, era guarda-costas do chefão e transmitia as ordens a seus comandados. Quando estes vinham reportar as atividades, ele estava sempre sentado no degrau da varanda, olhando para ontem, segurando um rifle. Não se mexia. Apenas balbuciava:
– Diga aí!
No início era um substantivo abstrato.
“Eu vou fazer um “digaí”, isto é, uma tarefa ordenada pelo chefão. Com o tempo passou a designar também o próprio. Ele gostou. Era diferente.
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Glória era o oposto de Rute. Mais alta, espalhafatosa, cheia de carnes, loura oxigenada, altas gargalhadas. Fazia sexo constantemente com o marido. E era barulhenta. Quando gozava, parecia que estava apanhando ou sendo asfixiada. Começava com “Ai!”, repetidas vezes, num crescendo e ritardando. Depois vinham os “Uhh”, até o longo grito final. Era frequente a intervenção de Noêmia, que batia na porta.
– Olha o respeito!
Noêmia, com o passado de cafetina no currículo, não tinha dificuldade de manter a ordem.
Glória procurava orientar Rute. Na verdade, achava que ela escondia uma certa sensualidade, que não queria que fosse percebida.
– Você precisa saber se impor. Tomar um bom banho. Ajeitar esse cabelo. Precisa descobrir o luxo de viver!
Rute sabia que viver era bom, mas vivia para dentro, observando, pensando, tentando entender.
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Foi tudo muito rápido e preciso. Domingo ao anoitecer. Estavam os cinco na casa. Glória se aprontava para sair com Quincas para o funk. Rute terminando suas tarefas. Noêmia vendo o Silvio Santos, Marlon sentado com o irmão, ao lado da mãe. A porta abriu violentamente, dois homens de preto, com o rosto amassado, coberto por meia de mulher. Quatro tiros de pistola. Dois no coração de Marlon. Dois no coração de Quincas. Precisão absoluta. Coisa de profissional. Saíram rapidamente, montaram numa moto e sumiram.
Com o barulho dos tiros e os gritos de desespero de Noêmia e Glória, começou a chegar gente. Rute ficou parada, olhando o corpo do marido, com duas manchas de sangue na camisa limpinha e bem passada. Ficou estática. Lembrou do tapa que levara, mas tirou logo da cabeça. “Deus me perdoe! Isto não é hora!”. Os vizinhos entraram. Abraçavam Noêmia, tentando conter seus gritos de sofrimento. Fez-se um ajuntamento na porta. O pessoal da Boca chegou logo. Digaí em pessoa foi falar com a mãe.
– Foi gente de fora! Não vai ficar assim!
Tinha a preocupação de não envolver a polícia. O funeral seria por sua conta. Daria todo o apoio. Agora e depois. Não se preocupasse com nada.
No dia seguinte aconteceu o velório e a cremação, no Cemitério do Caju. Muita gente da comunidade. Um funeral digno. Noêmia, sentada, sem forças, já não mais chorava. Apenas um lenço na mão que, de vez em quando, levava ao nariz. Os choros e gritos de dor ficaram por conta de Glória, que não se afastava do caixão do marido. Rute estava como sempre. Parada, sem reação. De vez em quando, ia até o caixão do marido, imitando Glória. “É assim que as viúvas devem fazer”, pensava.
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Os dias seguintes, na casa, foram de silêncio e tristeza. O caso nunca foi nem será esclarecido. As versões que circularam eram divergentes. Eram caguetas e foram sentenciados. Foi engano de endereço. Foi gente de fora. Nunca se saberá. O certo é que eles não voltarão para contar.
Digaí deu todo o apoio à família. Promessa de pensão vitalícia e proteção.
Depois de longos dias de pranto e silêncio, Noêmia chamou as noras e lhes falou.
– A minha vida acabou. Perdi tudo que mais amava. Deus pegou pesado comigo. Vou voltar para minha terra. Que vocês fiquem bem e arranjem um bom homem.
Glória retrucou.
– A senhora não pode ficar sozinha. Precisa de alguém que lhe acompanhe em sua velhice. Fique conosco.
– Eu encontrarei alguém. Não posso mais ficar aqui.
Ante a perplexidade das noras, Noêmia começou a arrumar as suas coisas.
Rute perguntou a Glória:
– O que vamos fazer?
– Você, não sei. Eu vou curtir a minha tristeza por uns tempos e vou para a vida.
Rute foi falar com Noêmia. Gaguejando e quase inaudível:
– Me leve com a senhora. O que eu vou fazer aqui?
– Eu estou cansada. Você tem a vida pela frente, sem ter que cuidar de uma velha.
– Para onde a senhora for, eu vou. Eu vou! – disse com toda a firmeza que conseguiu expressar.
Relutante, Noêmia aceitou. Mas do que companhia, era um fardo a mais. Que fazer?
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Sua cidade era São Damásio do Mato Grosso. Mais de dois dias de viagem. Em Campo Grande mudavam de ônibus até Corumbá, e mais uma hora de táxi até o vilarejo de São Damásio. Noêmia tinha uma casa lá, da qual não tinha nenhuma notícia.
Na hora da partida, Digaí lhe deu 50 mil reais e providenciou condução até a rodoviária.
– Me escreva dizendo onde está e eu mandarei a pensão todo mês.
“Santo homem!” – poderia alguém pensar. Talvez nem tanto. A morte dos seus soldados lhe pesava nas costas. Para Rute deu cinco mil.
– É para você comprar alguma coisa. Ou guardar. Vai precisar.
Rute guardou na caixa de bombons, embaixo das anotações da Rádio Relógio.
A viagem foi cansativa. O ônibus para Corumbá era antigo, desconfortável e em péssimo estado. As estradas, muitas vezes malconservadas, ou sem pavimentação. Mesmo assim, para Rute foi um deslumbramento. Procuraram um hotel barato para descansar.
Dia seguinte, depois do café da manhã, um táxi as levou a São Damásio. O tempo não havia apagado de sua memória a casa dos pais, de onde saíra há cinquenta anos para a dura vida que viveu até encontrar Eli, em um cabaré de Campo Grande. Casaram-se e foram para São Paulo. Lá nasceram Quincas, Maria da Luz, que morreu de pólio com dois anos de idade, e Marlon. Dois anos depois vieram para o Rio de Janeiro, morar na comunidade que acabara de deixar.
Aquela paisagem era contemplada com muita dor. Toda sua vida se desvelava na memória. A casa ainda estava lá. Abandonada. Inabitável. O capim alto em toda a volta, telhado quase destruído, poeira e entulho cobrindo tudo. Ficaram na cidade, no hotel, e empreenderam uma reforma, com um pedreiro, um servente e um carpinteiro.
Rute podia ser ruim em tudo, mas era boa de trabalho. Incansável. Ninguém podia imaginar a força e energia que tinha aquele corpo franzino. Às oito horas da noite, ainda estava fazendo faxina. Graças a ela, puderam instalar-se em um mês.
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Noêmia tinha um primo, Boanerges. Era criança quando ela deixou São Damásio. Os pais dele tinham um sítio em que cultivavam uma lavoura de subsistência. Hoje, o primo era o maior produtor de milho da região e suas fazendas somavam 40 000 hectares. A casa de Noêmia ficava em um casario vizinho a uma de suas fazendas, e a maioria dos habitantes trabalhava para ele, no plantio, na colheita ou nas diversas fábricas de beneficiamento.
Assim que soube da chegada da prima e da sua nora, Boanerges foi pessoalmente conhecê-las. Era simpático, de bom trato e ofereceu todo o apoio para sua instalação na nova moradia. Mensalmente enviava para ela uma cesta farta de mantimentos e a visitava com certa frequência, para tomar um lanche.
Arranjou para Rute um emprego em uma manufatura de cerâmica de um amigo. Foi alocada na seção de empacotamento. Nada mais inadequado para uma pessoa desastrada como Rute trabalhar em um serviço que exigia destreza e atenção. Era comum ela deixar cair e quebrar uma peça, exasperando a supervisora, dona Olenka, uma polaca de um metro e oitenta e cem quilos. O valor era devidamente descontado de seu pequeno salário. Uma vez, recebeu apenas metade do soldo, com tudo anotado no contracheque, as deduções um pouco amplificadas maliciosamente pela supervisora, para servir de argumento para livrar-se dela. Rute, como sempre, não reclamava nem conferia nada. Pedia desculpas a dona Olenka e à sogra, para quem entregava todo o dinheiro.
Eram frequentes as repreensões e ameaças aos gritos por parte da supervisora. Nunca lhe deu tapa, mas aplicava-lhe uns sacodes, segurando-lhe os braços, que beiravam a agressão física.
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Estes sacodes despertavam a compaixão de Dídimo, um funcionário dos Serviços Gerais. Faxineiro. Sempre com seu carrinho de limpeza, macacão zuarte desbotado e puído, percorria todas as dependências da fábrica. Sempre que podia, passava pela linha de empacotamento, onde podia observar Rute à distância. Tinha-lhe simpatia e afinidade.
Estatura pouco acima da média, muito magro, pele e osso, branco de cera. Rosto oval e comprido, cabelos castanhos, lisos e ralos, que ressaltavam a testa. Óculos de grau com aros escuros e grossos, que não combinavam com o seu rosto. Nariz adunco. Tudo isso lhe dava uma aparência estranha. Se Deus tivesse feito um rascunho para o rosto de Woody Allen e descartado, alguém da equipe de produção do Céu o teria aproveitado para Dídimo.
Sofria, como Rute, de dispraxia. Inabilidade para empunhar coisas com seus dedos finos e compridos. Falava muito e enrolado, com dificuldade de modular o tom e o volume. Era muito inteligente, estudioso, e surpreendia constantemente as pessoas, dando explicações sobre física e química, sem ser solicitado. As pessoas achavam-no divertido, e um alvo constante de trotes.
No trabalho sério, era disponível e atento. Morava com dois colegas de trabalho, em um quarto de pensão. Isto o fazia alvo de chacotas 24 horas por dia. Nunca o convidavam para nada, mas o solicitavam sempre se se tratasse de uma tarefa desagradável.
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Certo dia, viu dona Olenka se exceder nos gritos e sacodes, tomou coragem e foi esperar Rute na saída. Quem sabe compensá-la pela grosseria da supervisora. Convidou-a para tomar uma Coca-Cola. Rute aceitou com um discreto movimento de cabeça. Aquilo significava muito para ela, e a custo não deixou transparecer. Nunca ninguém lhe oferecera nada. O dinheiro que Digaí lhe deu não contava, pois, no fundo, desconfiava dele como responsável pelo assassinato do marido.
Lado a lado, fizeram o caminho de Rute para casa. No bar de um posto de gasolina, entraram e ele pediu a Coca. Somente uma, e um copo. Ela bebeu devagar. Enquanto bebia, Dide falava sem parar. Sua voz era estranha. Na mesma sentença, ia do grave ao agudo, às vezes estendendo desnecessariamente uma sílaba, tudo por conta de sua disfunção. Fez um discurso longo, explicando as propriedades da Coca-Cola. É quase tão ácida quanto o suco gástrico. Isto intensifica o sabor, porém faz mal ao estômago. Tem muita cafeína.
“Suco gástrico? ”, “Cafeína? ” – pensava Rute, mas estava tão feliz com a sua Coca, que não lhe ocorreu perguntar por que ele não a convidou para tomar uma laranjada. Ao terminar, segurou a garrafa plástica com as duas mãos e levou consigo pelo resto da caminhada.
“Suco gástrico? ”, “Cafeína? ” Pensava Rute, mas estava tão feliz com a sua Coca, que não lhe ocorreu perguntar porque ele não a convidou para tomar uma laranjada. Ao terminar, segurou a garrafa plástica com as duas mãos, e levou consigo pelo resto da caminhada.
Rute não queria que a sogra o visse, e pediu para se despedir. Caminhou sozinha por bom pedaço. No caminho, colheu umas flores silvestres. Quando chegou, colocou as flores na garrafa de Coca, encheu-a de água e pôs na sua mesinha de cabeceira.
Noêmia não estranhou. Era comum, nos tempos de cabaré, as suas meninas ostentarem esta reserva de romantismo. Geralmente acompanhada de um retrato, do pai, da mãe, do namorado perdido.
Caminhou sozinha por um bom pedaço. No caminho, colheu umas flores silvestres. Quando chegou, colocou as flores na garrafa de Coca, encheu-a de água e pôs na sua mesinha de cabeceira.
Noêmia não estranhou. Era comum, nos tempos de cabaré, as suas meninas ostentarem esta reserva de romantismo. Geralmente acompanhada de um retrato: do pai, da mãe, do namorado perdido.
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Essa caminhada passou a ser rotina depois do trabalho. Rute finalmente ficou sabendo o que significava “efeméride”, “cultura” (muito complicado), “renda per capita”, “eletrônico”. “Preta portê” se escrevia “prêt-à-porter” e queria dizer “pronto para vestir”. Muito do que Dide falava ela não entendia, mas agora podia perguntar. Também não entendia a explicação. Mas gostava de ouvir.
Certo dia, quando iam se despedir, Dide encostou seus lábios nos dela. Não foi um beijo daqueles de cinema. Apenas um toque prolongado dos lábios. Mas como era macio! Como era gostoso! O coração de Rute começou a bater forte, não somente no peito, mas também lá embaixo. Por um instinto que não pde conter, encostou suas pernas na dele, para que ele sentisse também o coração de baixo. Mas logo se afastou. Afastaram-se, andando de costas, por uns instantes.
“Meu Deus! O que tinha acontecido? ” Rute acabara de viver o momento mais feliz de sua vida. Algo que não pensava existir. Chegou em casa mais desorientada do que nunca. Foi correndo para o quarto. Noêmia não podia perceber. Noêmia?! Puta velha?! Deixou a menina em paz.
Dias depois, Dide perguntou a Rute, falando enrolado e gaguejando, se queria ser sua namorada.
– Nós já somos namorados. Desde o beijo.
Um longo silêncio. Dide perguntou:
– Além de beijo, como se namora?
– Eu não sei. Nunca namorei.
– Mas você não foi casada?
– Fui. Mas nunca namorei.
– Você pode me contar a sua história. – sugeriu ele.
– Não! Não quero lembrar a minha história.
Silêncio.
– Conte a sua.
– Também não quero lembrar.
Silêncio.
– Podemos fazer planos. – disse Dide.
– Não. Tenho medo de fazer planos.
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Boanerges foi visitar Noêmia. Desta vez era mais do que uma visita social. Queria a sua ajuda.
– Como eu posso ajudar?
– Eu quero me casar com Rute.
A mulher ficou confusa e espantada. Por que um homem como Boanerges, rico, próspero, poderoso, ia querer se casar com a sua norinha tão...?
– É uma boa moça. Séria, trabalhadora. Pode me dar muitos herdeiros.
– Compreendo! – disse Noêmia
“Para cima de mim, raposão! ”– pensou Noêmia.
Bom. Havia outro motivo, que uma longa conversa entre duas raposas velhas não deixaria de esclarecer. Boanerges era conhecido por ter uma vida descomedida desde a juventude. Grandes farras, muita bebida, beirando a libertinagem, que era desculpada por todos, até, quem sabe, exaltada, devido ao seu poder. Seu avô de consideração, não de sangue, ainda vivo, ainda lúcido, grande proprietário de terras vizinhas às suas, era um incansável crítico de sua vida desregrada. Não tinha herdeiros próximos, mas somente o incluiria no testamento caso se tornasse um homem sério, casado. Era promessa. Agora, que os cabelos começavam a cair e a barriga a crescer, que tal Boanerges ouvir os conselhos do avô postiço?
Era isso! Queria de sua nora a mesma coisa que o querido, desregrado e falecido filho quis. Uma mulher que lhe desse o status de casado e não atrapalhasse a sua vida. Quem sabe lhe desse um herdeiro.
Noêmia pensou em Rute. Merecia melhor destino, mas será que o conseguiria? Não era mau tornar-se mulher de um grande proprietário.
– Eu farei o que puder para ajudá-lo. – prometeu Noêmia, cruzando os dedos da mão esquerda enquanto cumprimentava o primo com a direita.
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Domingo seguinte, Boanerges foi almoçar com a prima e sua nora. Carne assada com batatas coradas. Arroz, feijão, deliciosos legumes salteados à moda, preparados com perícia por Noêmia. De sobremesa, goiabada feita em casa, com queijo. O convidado trouxe um buquê de flores do campo para a senhora e uma linda rosa vermelha para Rute. Não passou despercebido a Noêmia que a rosa foi parar no mesmo vaso em que ela arrumou com delicadeza as suas flores do campo. No aparador da sala. Na mesa de cabeceira de Rute continuava a garrafa de Coca-Cola, com flores silvestres.
Pouco adiantaram os esforços para dialogar com Rute, tensa e desconfiada. Noêmia, sábia anfitriã, procurava preencher os vazios de conversa como podia. Na despedida, um caloroso abraço na prima e um beijo na mão de Rute.
No almoço seguinte, um presente para Rute. Um delicado cordão de ouro com uma medalha de São Damásio.
“Vá com calma. Não assuste a presa.” –Pensou Noêmia.
Rute agradeceu o presente e o deixou de lado.
– Deixa eu colocar no seu pescoço. – disse a sogra, para contemporizar.
O almoço transcorreu como o outro, com Rute tensa e desconfiada.
“Não vai ser fácil com essa aí!” – pensou a anfitriã.
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Com muito tato, tentava falar sobre casamento com a nora. Rute tinha muitas limitações, mas uma coisa de que não lhe poderiam acusar é de ser idiota. Há muito havia percebido a trama da sogra e seu primo, e sentia medo. Medo de ter que afastar-se de Dide, a melhor coisa que acontecera na sua vida. O medo gerava mais estresse, mais vasos quebrados, mais descontos. Não disse nada para o namorado. Uma colega sua, notando que estava cada vez pior no trabalho, foi falar com ela.
– Você está com algum problema?
Não. Balançando a cabeça.
– Olha, por que você não vai procurar uma cartomante. Eu conheço uma muito boa. Pode ler a sua vida. Pode ajudar. Deu-lhe um papel com um endereço e o nome da cartomante: Madame Katalin.
Contou para Dide, um racionalista cartesiano de raiz, que tentou dissuadi-la. Quando percebeu que não conseguiria, disse:
– Eu vou com você!
– Não! Eu tenho que ir sozinha.
– Eu fico do lado de fora.
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– Meu guia já tinha me avisado que você vinha me ver, queridinha. – disse madame Katalin, uma senhora, mais velha que a sogra. Lenço vermelho bordado de dourado cobrindo a cabeça, preso do lado esquerdo. Do lado direito, longos cabelos castanhos, ondulados, com mechas brancas. Um vestido vermelho com um amplo decote bordado, também dourado. O rosto coberto de pó, que mais ressaltava que escondia as muitas rugas, e duas rodelas de ruge brilhoso nas bochechas. Lábios pintados bem vermelhos. Olhos e sobrancelhas desenhados forte, com lápis. E, sobretudo, olhar direto e profundo. Rute ficou assustada.
– Não tenha medo de mim, querida. Jesus está do meu lado e também do seu.
Madame Katalin pegou um baralho e pôs sobre a mesa.
– Corte com a mão esquerda. – ordenou.
Ao espalhar as cartas, falou.
– Mas que vida horrível a sua! Que horror!
Rute estava pálida e trêmula de medo.
– Preste atenção no que vou lhe dizer. Você está num caminho e este se divide em dois. Há um perigo que está prestes a acontecer. Para você ser feliz, você tem que superar o perigo e escolher o caminho certo.
– Mas qual é o caminho certo? – perguntou Rute. Pela primeira vez, o olhar penetrante de Rute ousou encarar com firmeza o olhar penetrante e autoritário de Madame Katalin.
Neste momento, ela sentiu uma transformação na cartomante. Pareceu-lhe que a sala se esvaziou de tudo o que a assustava em Madame Katalin. “Esta menina não precisa de uma cartomante, mas de uma amiga. ” – pensou a senhora. Aquele olhar duro e profético se tornou compassivo. Olhou para a moça com carinho, fechou o maço de cartas, pegou-lhe as duas mãos e lhe disse, não com a autoridade dos sábios consultores remunerados, mas como uma pessoa comum:
– Querida, escute o seu coração!
Rute colocou o valor da consulta na mesa. Madame Katalin recusou.
– Guarde, querida. Boa sorte!
Ao sair da sala, estava confusa. “Um perigo? ” Como se proteger? Quando cruzou a porta, estava meio tonta. A luz do entardecer e o vento no rosto só fizeram aumentar seu desconforto. Viu a figura embaçada de Dide e se dirigiu para ele, atravessando a rua. Não viu o Mercedes amarelo, enorme como um transatlântico, se aproximar em velocidade. Ouviu a ensurdecedora buzina a poucos metros. Sentiu um braço forte agarrar sua cintura e puxá-la para trás, derrubando-a ao chão. Depois de um desmaio de alguns segundos, viu o rosto de Dide e de um desconhecido. Parecia um homem estrangeiro. Um gringo. Era alourado, tinha olhos azuis, ou verdes.
– Você está bem? – perguntavam.
– O que aconteceu?
– Você quase foi atropelada. Está sentindo alguma coisa? Está bem?
– Acho que sim!
Ajudaram-na a levantar-se. Levou algum tempo para se recuperar e poder fazer o caminho de volta, amparada por Dide.
De volta para o mundo e para a vida, ouviu o namorado perguntar:
– O que a cartomante disse?
– Para eu escutar o meu coração?
– Precisava pagar uma cartomante para ouvir isso? – zombou.
– Eu precisava! E ela não aceitou o pagamento.
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Dia seguinte, no encontro de costume.
– Vamos embora daqui, Dide.
– Por que ir embora daqui?
– Eu quero ficar com você. Não posso ficar com você aqui.
– Se você quiser ficar comigo, ninguém pode impedir.
– Pode sim!
Rute não queria contar que o homem mais poderoso da cidade queria se casar com ela.
Depois de algum tempo de reflexão.
– Ir para onde?
– Para qualquer lugar.
– E nossos empregos?
– Chão e privada para lavar, pacotes e embrulhos para fazer, tem em qualquer lugar.
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Antes das cinco da manhã, Rute já estava de saída, com sua mochila. Não sabia o que escrever no bilhete para a sogra. Escreveu:
“Desculpa. Tive que ir. Amo a senhora! ”
Deixou em cima da mesa, junto com a caixa e o cordão de ouro com a medalha de São Damásio.
Dide a esperava na rodoviária. Tomaram café com pão e manteiga. Embarcaram em um ônibus semelhante àquele que havia trazido Rute. Sujo e malconservado.
Já na estrada, Rute falou:
– Agora eu posso contar a minha vida. Quer escutar?
– Quero.
Rute começou.
– Mal conheci meu pai e minha mãe. Fui criada por uma tia. Eu sempre pensei que, quando me batia na cara, era para me educar e me tornar uma moça mais fina. Mas hoje eu acho que era muito madrasta má.
De repente, calou-se. Estava admirando a paisagem. O céu estava vermelho, e o sol em breve apareceria por trás de uma montanha. Chamou a atenção de Dide, que estava cochilando.
– Olha! Ainda está amanhecendo!
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