UMA CAIXINHA DE BOM PARECER
Antes do celular, da televisão, antes do rádio de válvula, as famílias também se divertiam em casa. Algumas casas tinham mesa de bilhar, outras, mesas de pingue-pongue, havia os jogos de cartas, os jogos de tabuleiro e muita conversa. E também havia as brincadeiras coletivas, com todos reunidos: as adivinhas e charadas.
– O que é, o que é? Tem cabeça e tem dente, não é bicho nem gente.
– Ah, não sei!
– É o alho.
– O que é, o que é? Tem coroa, mas não é rei; tem espinho, mas não é peixe.
– Diz logo!
– O abacaxi.
– O que é, o que é? Cai em pé e corre deitado.
– O que é?
– É a chuva.
Eram milhares e muito populares. Algumas ficaram tão conhecidas que ganharam novas versões.
– O que é, o que é? Cai em pé e corre deitado.
– É a chuva.
– Não. É o português descendo do bonde andando.
Quando as crianças saíam da sala, começavam as adivinhas maliciosas.
– O que é, o que é? Entra duro e sai mole, pingando.
Silêncio geral.
– Gente! É o macarrão!
– O que é, o que é? Começa com B, tem C no meio, termina com “ta” e fica entre as pernas?
– Eu odeio esta palavra!
– É bicicleta!
Olha essa.
– O que é, o que é? Lambido, lambido, no buraco metido.
Aí as moças coravam.
– Por favor! É a linha na agulha.
Havia as adivinhas fáceis e conhecidas e as difíceis. Mas eu me lembro de uma, que fazia glória da minha tia Meninha, irmã de minha mãe, e que, mesmo nos meus cinco aninhos, achava a maior idiotice.
“Uma caixinha de bom parecer
Não há carpinteiro que possa fazer.”
É claro que ninguém sabia. Depois de um tempo, minha tia, vitoriosa:
– É a noz.
Ora, noz não é caixinha, e nenhum carpinteiro vai se meter a fazer. Muita bobeira! Ela ria a não poder mais, achando que tinha pegado todo o mundo.
__________
Mas tudo isso até aqui é nariz-de-cera. Vou ficar somente com a “caixinha de bom parecer”, que me pareceu um bom título para a minha historinha.
Antes de tudo, eu devo dizer que acredito em milagre. Ainda não encontrei ninguém que me convencesse de que milagres não existem. Eles existem e eu mesmo já vivi situações miraculosas. Não do tipo “levanta-te e anda”. Coisas menores, do dia a dia, mas que nem por isso deixam de ser provas da existência de forças sobrenaturais que interferem na vida humana. É lógico que muitas práticas como curandeirismo, charlatanismo, faquirismo, prestidigitação, ilusionismo dão argumentos aos céticos para contestarem a existência de milagres. Esses contestadores, talvez Nelson Rodrigues os chamasse de “idiotas da objetividade”. Também não falo aqui desses milagres atribuídos aos novos santos, que a Santa Sé proclama. Me permito duvidar. Ora, o Brasil passou 500 anos sem ter nenhum santo, de uma hora para outra, tem dois. Enquanto isso, Itália, Alemanha, França, Portugal têm milhares. Não acredito que a providência divina seja tão seletiva e eurocêntrica.
Os mais céticos têm muitos argumentos preparados para contestar da existência de milagres. A mais ridícula é a tese do “cientificamente provado”.
Existe o Alto Pontificado Científico e o Baixo Clero Científico. Ao Alto Pontificado devemos muito do conforto de nossas vidas, da diminuição do nosso sofrimento, dos avanços da medicina e da farmacologia, da velocidade com que circulam as informações. Em contrapartida, devemos creditar-lhes também muito sofrimento, milhões de mortes e crueldades. Afinal, a este Pontificado devem-se as armas de destruição em massa, os mísseis de longo alcance, os drones para fins bélicos. A ciência do Baixo Clero é como o nosso Supremo Tribunal Federal. Precisa ser provocada. Esta provocação vem de encomendas de empresas. E as respostas às vezes se assemelham às do nosso STF: já estão prontas antes da provocação. E, da mesma forma, não são confiáveis ou justas. Minha geração viu ser satanizada, pela ciência do Baixo Clero, a manteiga, em substituição pela milagrosa margarina, até a entrada em cena da tal gordura trans. Cientificamente provado. Os adoçantes causavam câncer, e hoje não causam mais. O café era ruim para a saúde, e agora diminui os riscos do câncer. Tudo cientificamente provado, segundo os protocolos positivistas.
Nesta minha opinião sobre milagres, estou bem acompanhado. Ninguém menos do que Arthur C. Clarke, que afirmou:
“Quando um cientista distinto e experiente diz que algo é possível, é quase certo que tem razão. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado.”
Pois é de um milagre que eu vou falar. Se eu hoje acredito em milagre, imaginem quando eu tinha cinco ou dez anos.
Eu era fascinado por cinema. Via os filmes e ficava maravilhado com as cenas. Como aquela da linda e ruivíssima Maureen O’Hara, fingindo que matava o Errol Flynn para na verdade libertá-lo. Donald O’Connor subindo pelas paredes e, no mesmo filme, as pernas da Cyd Charisse. As lutas de esgrima acrobáticas do D’Artagnan de Gene Kelly. Ivanhoé matando com uma machadada o campeão do rei para salvar da fogueira a linda Rebecca. Imaginem a Elizabeth Taylor com 19 anos, magrinha. Lili dançando com os bonecos. As lágrimas da Ingrid Bergman recebendo um pé na bunda do Humphrey Bogart. O close do carão da Grace Kelly enchendo a tela. E o púbis nu da Yvonne de Carlo, refletido em um lago. O primeiro nu frontal que eu vi na telona. Durava menos de três segundos, mas frequentou muitas noites de meu furtivo “vício solitário”, antes de dormir.
Não me bastava ver estas cenas. Eu queria revê-las. Muitas vezes. Eu queria ter para mim. Mas isto era impossível. Os filmes eram gravados em películas de celuloide, enroladas em rolos de 35 milímetros de largura, acondicionados em latas. Daí por que os seriados antigos serem chamados “enlatados”. Eram muito volumosos e não podiam ser vendidos. Alguns eram reduzidos para 16 milímetros, para uso doméstico, mas, mesmo assim, exigiam um equipamento caro e sofisticado. E os filmes eram apenas alugado pelas distribuidoras. Impossível comprar todos.
Mas eu estava tendo uma formação católica. E aprendi no catecismo que a fé remove montanhas. Li também que tudo o que pedirmos em oração, com fé, o receberemos. Então eu decidi pedir em oração, com bastante fé, uma caixinha em que eu pudesse guardar todas estas cenas de filmes, para revê-las quando quisesse.
Era um grande pedido. E eu mesmo pensei que era preciso ter mérito para recebê-lo. Então fui ver como estavam minhas contas com relação ao cumprimento dos mandamentos.
Amar a Deus sobre todas as coisas. Eu fazia. Só esperava que Ele não me pedisse para degolar meu filho. Não tomar seu Santo Nome em vão. Jamais o faria. Guardar domingos e festas. Moleza. Honrar pai e mãe. Mesmo que eu não quisesse, eles me obrigariam. Não matar. Quem sou eu? Não roubar. Somente roubei um chocolate na bonbonnière, mas confessei e fui perdoado. Não levantar falsos testemunhos. Juro que não fiz ou farei jamais. Não desejar a mulher do próximo. Nem desejar? Tudo bem. Aceito. Mesmo que seja a mulher do Maurício Leite, meu professor de português, que era gostosona. Mas o que a mulher do próximo ia querer com uma criança. Só se fosse pedófila. Isto era para mais tarde. Não cobiçar as coisas alheias. Também não acho correto.
Pelas minhas contas, dava 8,5. Se acrescentar o meio ponto do bombom, que eu fui perdoado em confissão e o dono da loja não sentiu falta, dá 9. Isto porque tinha o sexto mandamento: Não pecar contra a castidade. Nisso eu era fraco. Tinha as punhetas, as revistinhas de sacanagem – os “catecismos” do Carlos Zéfiro, e as revistas de naturismo, nus muito sem graça, mas peitos e pentelhos à vontade, que passavam de mão em mão na escola, os quadros clássicos de mulher pelada, estes sim, muito sensuais, do Lello Universal, a bundinha da minha prima que eu ficava olhando quando dividimos o quarto. As tentações eram muitas. Tudo isso me fazia indigno de pedir um milagre de tal porte à Fonte da Força Universal, que tudo pode.
Então eu fiz uma promessa para limpar a minha barra e ser perfeito. Em troca da minha caixinha, eu iria passar um ano sem pecar contra a castidade. Estávamos perto do Ano Novo. No primeiro dia do ano começaria a contar. No dia 6 de janeiro, tive que iniciar nova contagem. Reiniciei três vezes. Na quarta, nem passado um mês, desisti. Definitivamente, eu não era capaz de cumprir minha parte na promessa. Eu não era puro o suficiente, não era digno de receber dos céus um presente de tal magnitude. E esqueci de minha caixinha.
Eu me esqueci, mas os Senhores da Forja Astral não esqueceram. Quando você pede uma coisa, não pode simplesmente desfazer o pedido. E continuaram trabalhando. Não foi uma tarefa fácil. A primeira coisa que tiveram que fazer era mudar o tipo de veículo da imagem. A imagem ótica necessitava da base de celuloide. Mas aí descobriram um modo de gravar a imagem em uma fita de plástico muito fina impregnada de partículas magnéticas. Como a língua falada no plano superior já não era mais nem o aramaico, nem o hebraico, nem o grego, mas o inglês, deram-lhe o nome de vídeotape (fita de vídeo).
Nos anos 1970 apareceu então um estojo de plástico lacrado contendo uma fita plástica que podia registrar sons ou imagens. Perto de 1980 surgiu então o sistema doméstico de vídeo, que, com a mania de siglas, recebeu o nome de VHS. Era a minha “caixinha de bom parecer”. Foi assim que eu tinha pensado inicialmente. Uns 40 cm, 10 cm de altura, preta, onde eu colocaria o filme. Eu não tinha pensado era em ligar a caixinha em um aparelho de TV. A TV ainda não era popular na época da minha promessa. Mas foi assim que ficou. Eu não ganhei de graça. Tive que comprar. Mas eu podia ter os filmes que queria. Não custavam tão caro. Pouco mais do que o preço de uma entrada de cinema.
Mas tinha um problema. A imagem não era tão nítida, as cores eram borradas, e diversos outros problemas. Tudo isso foi melhorado quando passaram da imagem magnética analógica para a linguagem digital. Foi em meados dos anos 1990. Um filme inteiro poderia ser gravado em um pequeno disco, o DVD, do tamanho daqueles discos de vinil pequenos dos anos 1960, de música, que chamavam de single nos Estados Unidos ou “compacto simples”, por aqui. Uma nova caixinha, mais aprimorada, exigindo menos espaço para guardar os filmes. Aí eu pude ter em casa as minhas cenas prediletas. Até mesmo púbis da Yvonne de Carlo. Este foi difícil! Mas só por curiosidade, pois nos anos 1990, o nu frontal já fora banalizado, e eu já estava mais crescidinho.
Hoje, em uma pequena caixinha de bom parecer, do tamanho de uma noz, podemos ter mais de cinquenta filmes. Todos da Maureen O’Hara, se eu quisesse. Ou todos do Hitchcock.
Enfim, eu pedi com fé, em oração. E recebi.
Até relevaram a questão do pecado contra a castidade. Aliás, isto nunca foi mesmo pecado. Não sei de onde tiraram isto. Se estava na pedra que Moisés recebeu no Monte Sinai, foi erro do litografista. Devia ser “Não pecar contra a caridade” e passou pelo copy-desk celestial. Pecado é causar sofrimento a outra pessoa: violência, traição, mentira, intriga, derramamento de sangue, intolerância, prepotência. Ter prazer, dar prazer, nunca foi pecado. É um dom de Deus.
Os idiotas da objetividade dirão que isto não foi milagre. Que não foi feito para mim. Ora eu não pedi que fosse somente para mim. Se uma pessoa pede aos céus para fazer chover em sua lavoura, e é atendida, não chove somente para ela, mas para todos que têm lavouras por perto. Podem dizer que foi uma questão de marketing. Para estes, tudo é marketing. Mas o cinema também é marketing.
Para mim foi milagre. O fato é que eu tenho a minha caixinha de bom parecer. Tenho a Maureen O’Hara, a Grace Kelly, a Lili, o Gene Kelly, o Ivanhoé e, de quebra, o Tarantino, o Scorsese, o Woody Allen, a Scarlett Johansson, a Charlize Theron, a Margot Robbie, o Polanski, a Léa Seydoux, a Frances McDormand e tudo que vem com eles.
Quem disser que não é um milagre é um sem noção. Vão querer um acordo. É um milagre da tecnologia. Grande tolice. É um engano pensar que a tecnologia constitua um fator capaz de solucionar questões sem que o desejo humano entre em ação. Assim como podemos dizer que tudo é marketing, podemos dizer que tudo é tecnologia. A tecnologia nada mais é do que o modo correto fazer as coisas.
E novamente, tenho a meu lado o Arthur C. Clarke.
Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.
Milagre da tecnologia! Palavras... palavras. Foi um milagre. E pronto.
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