Contos

AINDA UMA VEZ, ADEUS

do livro "Contos Avulsos"

Por Silvio Colin 22 de setembro, 2026
<p>AINDA UMA VEZ, ADEUS</p>

AINDA UMA VEZ, ADEUS


Mas que tens? Não me conheces? 
De mim afastas teu rosto? 
Pois tanto pôde o desgosto 
Transformar o rosto meu? 
Sei a aflição quanto pode, 
Sei quanto ela desfigura, 
E eu não vivi na ventura... 
Olha-me bem, que sou eu! 
Gonçalves Dias



Esta é uma história de ficção, e, como em toda história de ficção, qualquer semelhança com acontecimentos ou com pessoas vivas ou mortas não é mera coincidência. É intencional. Mas aconteceu exatamente como eu vou contar, porque esta história é minha, e eu serei o narrador onisciente.

A história se passou no século XIX e seus personagens principais são Antônio e Ana Amélia. Antônio nasceu em 1823, em Caxias, no Maranhão. Era mestiço, filho de Vicência Ferreira, filha de escravos, e João Manuel Gonçalves Dias, branco, português, comerciante. Um ano depois do seu nascimento, o pai casou-se em São Luís e levou o filho consigo. Deu-lhe todos os estudos e, com a ajuda de parentes, enviou-o para estudar em Coimbra. Aos 23 anos, Antônio retornou a São Luís, bacharel em Direito e já um nome de destaque na literatura e poesia, tanto em Portugal quanto no Brasil. Foi visitar a mãe. Passou alguns dias com ela. A mãe levava uma vida humilde e trabalhava como criada em uma casa de família. De vez em quando recebia ajuda de João Manuel. A mãe dava orgulho ao filho, que a amava mais do que tudo. 

Quando voltou a São Luís, Antônio foi muito festejado e, provavelmente por seu crescente reconhecimento nos meios culturais, era convidado assíduo de solenidades e saraus, nos quais lia os seus poemas e dos poetas de sua preferência, quando solicitado. Pesava também a grande amizade de seu colega de estudos em Portugal, José Joaquim Ferreira do Vale.

Foi por intermédio deste, nas frequentes visitas e jantares a ele oferecidos, que passou a frequentar a casa do patriarca Domingos José Ferreira do Valle, de sua mulher Lourença Francisca e de seus filhos. Quem mais despertava admiração a Antônio e o divertia era a irmã de José Joaquim, a jovem Ana Amélia, então com quinze anos. Alegre, inteligente, sabia alguns dos poemas de Antônio de cor e os recitava, juntamente com sonetos de Camões e de outros poetas portugueses. Mas não foram somente a inteligência e alegria de Ana Amélia que tocaram fundo em Antônio. Também a sua beleza. E os seus olhos. Tão negros, tão belos, tão puros, inquietos e travessos.  Quando as formalidades permitiam, Antônio gostava de brincar com Ana Amélia. Riam, propunham-se charadas e adivinhas.

Antônio viajou para o Rio de Janeiro, e prosseguiu sua carreira brilhante. Foi contratado professor de português e latim do colégio Pedro II, e era constantemente requisitado para missões oficiais. Publicou dois livros de poesia, que o consagraram nos meios literários definitivamente.

A convite do governador, retornou ao Maranhão para estudar o problema da instrução pública naquele estado. Depois de visitar a mãe, em Caxias, instalou-se provisoriamente em São Luiz, em um sobrado cedido pelo governo. Desenvolveu trabalho significativo para os órgãos de educação do estado.

Poucos dias depois de sua chegada, encontrou o ex-colega e amigo José Joaquim, que o chamou para um jantar em sua casa. Naquela noite pode rever a jovem Ana Amélia, então uma moça de dezoito anos, mais bela do que antes. Se já existia entre os dois fortes laços de admiração e afeto, no primeiro momento em que seus olhos se encontraram, explodiu uma paixão capaz de dominá-los completamente. Durante alguns segundos ficaram paralisados, magnetizados. Tiveram um jantar divertido, com récitas de poemas por Antônio e Ana Amélia, o piano desta e de Dona Lourença, e a admiração de Dom Domingos e José Joaquim.

Antônio e Ana Amélia passaram a se encontrar. Passeavam pelos jardins e praças, onde podiam namorar, conhecer-se e intensificar o seu amor recíproco. Em um outro jantar a ele oferecido pela família, em determinado momento, ao final do encontro, Antônio levantou-se da cadeira e pediu a mão de Ana Amélia em casamento. 

Foi constrangedor. Seguiu-se um embaraçoso silêncio, que foi interrompido por dona Lourença.

– Não podemos aceitar o seu pedido. 

Foi José Joaquim quem primeiro fez a cobrança.

– Porque, mamãe?

Um outro segmento de silêncio, no qual dona Lourença pensava nas palavras que iria dizer.

– O senhor Antônio, que desfruta da nossa estima e admiração, em que pesem suas qualificações, seu brilhantismo e inteligência, é um negro. Neto de escravos. – disse impiedosamente. –Nós não podemos ceder a mão de nossa filha a um negro, neto de escravos.

– Eu não posso acreditar no que estou ouvindo. – disse Ana Amélia.

Antônio baixou a cabeça, ferido e humilhado como jamais se sentira. E foi assim que ficou durante o resto da conversa. José Joaquim ficou perplexo, sem entender nada. Dom Domingos José ficou imóvel, mãos sobre a mesa, com a cara de cera dos patriarcas, sem dizer nada. Ana Amélia, também perplexa, deixou lágrimas se formarem nos seus olhos, revoltada, humilhada como o seu amado, sentindo o ódio nascer-lhe do eu profundo. A mãe retornou, impiedosa.

– Pois acredite. É assim que vai ser. Jamais permitiremos esta infâmia. Jamais os nossos princípios serão assim desacatados. Não haverá este casamento. Você se casará com um homem bom e nobre da corte. Branco, bom e nobre.

Dom Domingos José falou, solene, sem mudar de posição, encerrando a conversa.

– O seu pedido não será aceito.

Antônio, sério, sem dizer palavra, levantou-se da mesa e encaminhou-se para a porta e saiu. O amigo José Joaquim levantou-se, por deferência. Ana Amélia o seguiu até o portão. Olharam-se. Ela segurou as suas mãos e ficaram assim algum tempo. Depois Antônio seguiu o seu caminho.

Ao votar para a sala, encontrou o pai, a mãe e o irmão sentados à mesa, calados. Ela estava perturbada, e em lágrimas. Falou:

– A partir de hoje, no que depender de mim, não haverá mais harmonia nesta casa. Não me dirijam a palavra, a não ser quando for absolutamente necessário. Eu farei o mesmo.

A mãe levantou-se e fez menção de abraçá-la. Ana Amélia a empurrou com firmeza e subiu para o seu quarto.

No dia seguinte, à tardinha, depois que Antônio voltou do trabalho, Ana Amélia foi à sua casa. Ficaram parados à porta. Antônio baixou a cabeça, ainda envergonhado com o dia anterior.

– Posso entrar? – falou Ana Amélia.

Antônio afastou-se da porta e ela entrou.

– Me leve com você. Eu vou com você para onde você for. 

Antônio ficou surpreso com a proposta.

– Eu não posso fazer isto. Você não sabe o que será a sua vida comigo. Eu sou um funcionário público. Ganho pouco. Você está acostumada a uma outra vida. Junto da nobreza.

– Para o diabo, a nobreza. Eu amo você. Eu quero estar com você. Viver minha vida com você. Quando se ama de verdade, como eu amo você, é impossível viver separado.

– Isto não será possível. Você viu a reação de sua família.

– Não é mais minha família. É um grupo de pessoas estranhas para mim, com quem habito.

– Você está sendo impulsiva. Esta se deixando levar pela emoção.

– Para mim não existe outra maneira. Eu não posso matar o meu amor por você. Ele ficará para sempre comigo.

Ficaram em silêncio. Sentados, um em frente ao outro.

Ana Amélia levantou-se, tomou Antônio pela mão. Ele se deixou conduzir. Subiram as escadas e ela o levou para o quarto. Antônio ficou paralisado, sem saber o que fazer. Ela começou a desabotoar-se, do colarinho para baixo. Retirou a parte frontal das vestes, deixando o torso nu à mostra. Pegou a mão dele e colocou sobre o seu seio, encarando-o fixamente. Depois fez a sua mão deslizar pelo seu corpo, por baixo das vestimentas, passou-a pelo púbis até seus dedos tocarem o sexo. Neste momento ela fechou os olhos e pressionou a mão dele. Em êxtase, Ana Amélia falou.

– Prometa-me que não deixará nenhum outro homem tocar aí. 

Os dois estavam então tomados pelo desejo. 

–Beije-me. Beije-me muito, como se fosse a última vez.

Beijaram-se longamente, despiram-se, trocaram carícias e deitaram-se. Seus corpos se entenderam, como as suas almas já se entendiam. Ela então floriu nos seus braços. E o mundo parou. E eles foram felizes para sempre, naquele momento eterno. Mas o Tempo é sábio. E em sua compreensão tinha o saber de que os seres aguentam pouco tanta plenitude. E continuou o seu curso. E aquele momento teve o seu fim.

––––––––––

– Vamos fugir. Leve-me com você. –voltou a falar Ana Amélia.

– Não posso. Não podemos fugir de nossa vida. Não tenho fortuna, não terei nunca. Não tenho nem jeito, nem cabeça. Longe de ser fidalgo de sangue azul, como os que você tem à sua volta, sou mestiço, nem ao menos sou filho legítimo. O que lhe posso assegurar é que sempre vou amar você. Nenhuma outra mulher terá o meu coração. Talvez isto vá fazer com que você me odeie. Mas não posso fazer o que você me pede. Não posso fugir. 

Em um momento delirante acabou pedindo a Ana Amélia que o esquecesse.

Ana Amélia olhou fundo nos seus olhos. Dos seus próprios olhos começaram a brotar lágrimas. Naquele momento sentiu que jamais teria Antônio. Jamais poderia continuar aquele amor. Não por ser filha rica e ele ser pobre. Não por ser ele mestiço. Mas porque ele não queria. Falou então:

– Que seja assim. E encaminhou-se para a porta e saiu.

––––––––––

A questão da hora, para os pais de Ana Amélia, era arranjar-lhe um casamento. Um pretendente branco, bom e nobre. Foi um alento para o sofrimento que lhe corroía as entranhas, o divertido jogo que lhe propuseram. Para uma moça tão inteligente e prendada, que aprendera tudo sobre como as moças deveriam se comportar para arranjar um marido, fazer o contrário. Fazer tudo para afastar um pretendente, para desencorajá-lo. 

Nos jantares oferecidos para o pretendente, vestia-se inadequadamente, com decotes exagerados. Falava de assuntos inadequados, sobre os baixios da política, nos quais seu pai possivelmente estava envolvido. Se soubesse de alguma intriga envolvendo o pretendente, pedia esclarecimentos. Falava de doenças, sem poupar detalhes escatológicos. Quando notava o desagrado do pai, dirigia-se a ele;

– Senhor meu pai. Há alguma coisa que queira me dizer?

O pai, que entendia o seu jogo, ficava calado. Mesmo a mãe ficava embaraçada. Quem se divertia secretamente com aquilo, era o irmão, que, a custo conseguia conter o riso. Nos saraus, quando abordada por um pretendente, testava-lhe a cultura, e, impiedosamente o humilhava, falando diretamente que não lhe agradava. O certo é que qualquer intensão de namoro ou corte era refutada e não durava uma semana. A mãe tentava conversar com ela, e recebia apenas o silêncio, quando não uma porta na cara. Estava cumprindo a sua promessa de tirar a paz daquela casa.

Foi quando, certo dia, pediu aos pais que preparassem um jantar para apresentar-lhes o noivo. Os pais ficaram felizes. Finalmente ela mudara de ideia e de comportamento. Tudo foi feito com capricho. A mesa posta, a família reunida e soou a campainha. Ana Amélia apressou-se em abrir a porta, e voltou de braços com o noivo.

Apresentou-o a família. 

– Senhor meu pai, senhora minha mãe, senhor meu irmão. Quero lhes apresentar meu pretendente, Senhor Domingos Porto, próspero comerciante, sócio da Companhia Caxiense de Navegação, único licenciado do Governo da Província, irmão do notório juiz de paz, Gonçalo da Silva Porto. É conterrâneo de nosso amigo Antônio Gonçalves Dias. Não é uma coincidência? È também mestiço como Antônio, outra coincidência. Filho do sol, neto da lua. – Disse Ana Amélia, gargalhando. Conhecemo-nos em um batizado, na Santa Casa.

O jantar foi um embaraço. Pouco se falou. Apenas Ana Amélia, afetando entusiasmo, e Domingos, a seu pedido, contando fatos da sua vida. 

Em dado momento, Dona Lourença falou.

– Que brincadeira é esta, Ana Amélia. 

– Como assim, minha mãe?

– Nós recusamos o pedido de nosso querido amigo Antônio, por sua condição de mestiço. E agora você vem com essa.

Domingos Porto não era tímido e nem pobre como Antônio. Respondeu, mostrando-se ofendido.

– Senhora. Isto não é brincadeira. Eu não estou aqui para brincadeira. Estou aqui para pedir a mão de sua filha em casamento.

Dom Domingos José falou.

– Eu não dou autorização para este casamento.

– Senhor. – respondeu Domingos Porto. – O pedido é uma formalidade social e respeitosa. Ana Amélia não precisa de sua autorização. Ela é maior de idade. Lembro-lhe que, se for preciso, irei à Justiça para conseguir o meu intento. Eu vou me casar com sua filha. – Levantou-se, fez uma vênia e pegou Ana Amélia pelo braço, e saíram.

Quando Ana Amélia voltou, encontrou o pai e a mãe, furiosos, em pé, no meio da sala. O pai falou:

– Se você insistir com isto, eu vou deserdá-la.

– Senhor meu pai. Senhora minha mãe.  Como vocês são cruéis e mesquinhos. Acaso pensam que podem me tirar mais do que já tiraram – a possibilidade de ser feliz e viver o meu grande amor. Perto disso, sua herança de nada vale. Nada vindo de vocês pode fazer-me o bem. Peguem a minha parte da sua herança, assem um leitão com batatas, e empanturrem-se com ela. Com sua licença, vou me retirar.

––––––––––

Domingos Porto e Ana Amélia casaram-se. Mas ele teve que fazer manobras na justiça para sustar a proibição do pai de sua noiva. Dom Domingos José resolveu, com papel assinado em cartório, deserdar Ana Amélia. 

A família do patriarca, seu avô, o tio – visconde, os cunhados, tinham forte influência nos meios sociais, comerciais e políticos e acabaram influenciando na queda de Domingos Porto. Pressionaram para que fosse expulso da sociedade da companhia de navegação, foi demitido de seu cargo público. Sem crédito e sem dinheiro, a firma de sua propriedade fracassou e chegou a ser acusado de fraude, nos jornais. 

Completamente falido, viajou para Portugal com Ana Amélia, para recomeçarem a vida. Ele trabalhou como caixeiro e cobrador da empresa das águas servidas. Depois entrou no ramo comercial exportando produtos alimentícios de Portugal. Viveram, por certo, momentos de penúria.

––––––––––

Antônio voltou para o Rio de Janeiro, e reassumiu seu cargo de professor. Fez importantes estudos de etnografia e foi nomeado para a Secretaria de Negócios Estrangeiros e teve uma vida pública notória. Em sua vida afetiva, nunca mais se recuperou do fracasso de seu grande amor. Vivia uma vida boêmia. Ao saber do casamento de sua grande amada, casou-se também com Olímpia da Costa, sabendo que envolveria outra pessoa em seu triste destino. Não apenas uma, mas duas, pois deles nasceu uma filha, Joana, que morreu antes de completar dois anos. Dedicou-se então à sua obra literária, crítica de artes, pesquisas etnográficas e tornou-se uma referência na cultura brasileira. Erudito investigador dos usos, costumes, religião e línguas indígenas, que alimentavam também a sua poesia. 

Anos depois, com a saúde abalada, vítima do mal do século XIX, estava enfraquecido, mas forçou-se a uma nova viagem a Portugal. Tinha notícia, pelo seu amigo José Joaquim, das dificuldades que a irmã deste passava em Lisboa e queria vê-la outra vez. Tinha seu endereço em Lisboa.

Ela morava no segundo pavimento de um sobrado que circulava uma praça, em um enclave. Certa manhã, ao sair para passear com as filhas Lourença e Eugênia, Ana Amélia viu Antônio sentado em um dos bancos da praça. Não o reconheceu de pronto. Na volta do passeio, carregando umas compras, ele ainda estava lá, e, aí sim, o reconheceu. Mas ignorou-o. E ele percebeu. Continuou, por algumas horas ali sentado. De vez em quando ela chegava à janela, e ele percebia o seu vulto, por trás da cortina de rendas.

No dia seguinte, Antônio voltou, e sentou-se no mesmo banco. Desta vez ela foi até ele.  Os anos haviam passado, mas ela era ainda bem jovem. Não teria mais de vinte e cinco anos. Era formosa, não tinha a aura de brilho da nobreza, que antes ele conhecera, mas não lhe fazia falta. Estava vestida simplesmente, e ele pode ver, por vários sinais, que ela estava passando dificuldades. Mas ainda tinha aqueles olhos. Negros, puros, luzidios.

– O que você quer? – perguntou Ana Amélia, com aparente frieza, que não combinava com o impulso que sentiu lá no fundo, enfraquecido pelo tempo e pela dor, de atirar-se aos seus braços e beijá-lo sem parar. 

Ele fez menção de levantar-se, mas ao ver a dificuldade que tinha, devido a sua fraqueza, ela o conteve com a mão no seu ombro e sentou-se ao seu lado. Os dois se encararam.

– Eu queria vê-la, e falar-lhe outra vez.

– Mas tudo entre nós já foi dito.

– Não faz mal. Eu quero repetir. Eu quero lhe dizer que você foi a única pessoa que eu amei. E ainda amo. E quero, ainda uma vez lhe dizer que a minha vida foi um só sofrimento, por não tê-la ao meu lado.

– Você não quis.

– Sim. Eu não quis. Eu sei disso. Mas eu quis poupá-la do que você sofreria, ao casar-se com um mestiço e filho ilegítimo, como eu.

– Você sabe que não me poupou de nada. Poupou-se a si mesmo deste desconforto. O que tinha eu para oferecer. Nada. Era apenas uma mulher. Tinha apenas o meu amor para lhe dar. Mas o que você tinha. Uma brilhante carreira, que se realizou. Hoje você é nobre. Não da reles nobreza que o dinheiro, a cobiça e a trapaça trazem. Mas você é nobre pelas suas obras, seus livros, pelo seu trabalho. E é aceito pela outra nobreza hipócrita. E eu, o que sou? Continuo sendo apenas uma mulher. Você fez uma escolha. Você não me poupou de nada. Poupou a si mesmo. Quem sabe não foi uma boa escolha?

Aquelas palavras o feriram. Jamais havia pensado assim. Pensou que estava sendo um mártir, que estava abdicando de sua felicidade para salvá-la das humilhações. Ana Amélia viveu anos de sua vida para provar que ele não foi mártir, mas um tolo, e procurou viver tudo que ele pensava ter-lhe poupado. Hoje, ela tinha um marido que respeitava e duas filhas que amava. Viviam na pobreza da qual ele tanto queria poupá-la. Mas o ideal de viver um grande amor, as horas vividas sem prazer, o amargor da tristeza dos momentos sem a sua companhia, isto ele devia a ela.

– Eu não tenho mais muito tempo de vida. – falou Antônio. Ouço os passos da morte. Mas quis viver para estar aqui. E Deus me guardou para esta hora, para depois de tanto tempo, poder vê-la e falar-lhe. Rever seu rosto amigo, e pensar no quanto eu perdi. E quero lhe pedir perdão. Eu me enganei. Não foi um pequeno engano. Foi grande. Mas somente percebemos estes grandes enganos quando a morte se aproxima.

“Considere o meu pedido de perdão. – continuou. Você, com sua força interior me mostrou que, sim, poderia enfrentar todos os obstáculos ao meu lado. Se algum dia você chorar por mim, que não seja de saudade ou amor, mas de compaixão. Porque você provou que saberia viver ao lado de um mestiço. Mas há uma coisa que você não sabe. Você não sabe o que é ser mestiço. – Enfatizou a palavra “ser”– Você não sabe o que é ser filho ilegítimo, vinte e quatro horas por dia.

Diferentemente daquele dia do passado, em que seus corpos e suas almas se uniram, neste momento, seus corpos e suas almas se separaram. Suas almas se abraçaram como antes, e reviveram a plenitude daquele amor. Mas seus corpos ficaram estáticos, como convinham as etiquetas. Apenas uma lágrima brotou dos olhos de Ana Amélia. Despediram-se sem se tocar.

Dois dias depois, Antônio partiu, voltando para São Luiz. Mas quando o navio aportou no destino, faltava um passageiro. Este ficara na imensa extensão daquele mar atlântico que separa os dois países.

––––––––––

Por uma crueldade do destino, Ana Amélia ficou viúva naquele mesmo ano. Domingos morreu do mesmo mal que acometeu Antônio. Com duas filhas para criar, voltou para São Luiz. Viveu uma vida bem modesta, mas nunca aceitou o auxílio dos pais. Aceitava o apoio eventual do irmão, e dava aulas de piano e literatura para sustentar-se. 

Aquele momento de encontro em Lisboa foi o último adeus de Antônio ao seu grande amor, mas não o de Ana Amélia. Este aconteceu quarenta anos depois. 

__________

Houve uma grande homenagem do povo maranhense a Antônio, o poeta, que era então consagrado, e a maior glória de sua cidade. Os festejos duraram três dias, e culminaram com uma récita no Teatro São Luís. 

O teatro estava lotado, ocupado por populares, admiradores, autoridades, inclusive o governador do Estado. Lourença e Eugênia sabiam do infortúnio da mãe, mas não sabiam que seu grande amor era o homenageado. Insistiram para que ela fosse ao evento. Tinham sido convidadas por um vereador, amigo do marido de Eugênia, e dividiriam um camarote.

Entre saudações e louvores, recitaram vário trechos de poemas e peças teatrais. Para encerrar a festa, Antônio Lobo, então o maior nome das letras de Maranhão, um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras, e responsável pelo ressurgimento da expressão nacional de seu estado, foi saudar o célebre conterrâneo, e lhe coube encerrar o evento lendo o mais célebre poema de amor do homenageado. O poema chamava-se “Ainda uma vez, adeus”. A beleza do poema comoveu a todos. Porém apenas uma pessoa sabia que este era a descrição do seu último encontro com Antônio, o último encontro de duas pessoas que viveram um grande amor sem tê-lo vivido. Ana Amélia derramou uma solitária lágrima. A última. E este foi o último adeus de Ana Amélia a Antônio. Quatro dias depois, ela morreria.

¬¬__________










Silvio Colin

Silvio Colin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1970), é doutor em Teoria e História (PROARQ-FAU-UFRJ -2010) e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Departamento de Projeto de Arquitetura. É escritor, autor de dois livros: Uma Introdução à arquitetura e Pós-modernismo. Repensando a arquitetura, além de diversos artigos publicados em periódicos da área.

Comentários (0)

Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário