Contos

FOGÃO DE LENHA

do livro "Contos Avulsos"

Por Silvio Colin 21 de agosto, 2026
<p>FOGÃO DE LENHA</p>

Fogão de Lenha

Conto de Silvio Colin

 

Não era um cenário dos mais belos. Um bairro do centro, sem nenhuma atenção da administração pública. Uma casa centenária, não destituída de beleza. As solidas paredes resistiam ilesas, mas o mesmo não se podia dizer dos revestimentos de argamassa, Portas, ainda de pinho de riga, com as múltiplas camadas de pintura descascando.

O edifício não era, originalmente, um hotel, mas uma casa de residência, adaptada. Neste cenário, no último quarto do segundo andar, conversavam Arthur e Fabinho. O quarto não destoava do resto. Paredes com revestimento estufado, camisas penduradas em cabides para secar, e um mau cheiro acumulado, à falta de uma boa faxina. Às quatro da madrugada, ainda vestidos com a roupa dos três shows daquela noite, os dois permaneciam deitados, conversando. Faziam isto toda noite de trabalho. Somente depois de uma hora de prosa é que se preparariam para dormir, o que consistia em apenas descalçar as botas, e despir-se ficando apenas de cueca e, às vezes de camiseta. Escovar os dentes, dependia da disposição.  Podia esperar até de manhã.

Fabinho falou.

– Estou me lembrando do Austregésilo.

– Quem é Austregésilo?

– Era meu cachorro. Quando eu chegava, ele me sorria, latindo.[1]

– Há, há, há. Cachorro não sorri.

– O Austregésilo sorria.

– Ele o imitava, seu idiota. Cachorro não sorri.

– Eu acho que sorria.

– De onde você tirou esse nome: Austregésilo?

– Meu pai tinha umas revistas antigas. “O Cruzeiro”. Um dia li um artigo deste cara: Austregésilo. Eu gostei. Foi no dia que adotei o meu cachorro. O pessoal lá em casa achava grande e chamava de Zilo. Eu sempre chamei pelo nome completo. Ele era homossexual.

– Essa é demais. Cachorro homossexual, sorrindo.

– Eu vi ele fazendo troca-troca com outro cachorro. Eu vi. Ninguém me contou. No meio da rua. E ele se deu bem, porque o outro cachorro era menor, e não conseguia ficar na altura dele. Pulava e caía.

Riram muito.

- O mais engraçado é que meu tio era um machão rigoroso. Dizia que lá na cidade só tinha homem macho. Não tinha bicha. Um dia eu disse para ele que até os cachorros ali eram bichas. Ele ficou puto.

. . .

Arthur, mesmo deitado, dedilhava a guitarra.

– Estou fazendo uma nova música. Ouve só a letra:

“Não quero mais o seu amor

Não quero o seu perfume

Não quero o seu ciúme

Não quero o seu apreço.

Não quero o seu desprezo

Não quero outro começo

Não quero me sentir preso

A alguém que me traiu.

Não me procure mais.

Segue o seu caminho

E eu seguirei o meu.

Acompanhado ou sozinho

Será melhor que com você,

Que se perdeu”.

Olhou para Fabinho, com o olhar inquisidor e inseguro.

– O que você achou?

– Achei boa.

– Eu fiz pensando em você. No chifre que você levou da Glorinha.

– Ah! Você pensou no meu chifre? E nos seus: Marialva. Zezé, Tininha, Ana Maria. Você coleciona mais chifres do que eu.

– É que o seu é recente.

Depois de um longo silêncio. Fabinho falou, decidido:

– Eu vou desistir!

– Desistir de quê?

– Dessa nossa vida.

Arthur levantou-se assustado e sentou-se na cama.

– O quê?

Fabinho, melancólico e conformado.

– Vou desistir. Eu não aguento mais esta vida. Três shows por dia. Ninguém prestando atenção. Todo mundo devorando picanhas, fraldinhas, azinhas, rabadas, bucetadas... e nós lá, feito babacas.

                                “Pense em mim...

                                Olhe pra mim...

                                Vê que eu existo

                                Não liga pra ele...[3]

– Sem essa, porra. É assim mesmo. A gente demora a estourar na praça. Precisa de um grande lance.

– Olha na gaveta. Duzentos grandes lances. Duas audiências. Nenhuma gravação. Doze anos em restaurantes e churrascarias. Cem reais por dia. A gente bebe quase tudo, porque os putos descontam a bebida. Comendo PFs cheios de arroz, feijão, farofa e um bifinho.

– Acontece com todo mundo. Tem que batalhar. Um dia, quando a gente menos espera...

– Eu não aguento mais de saudades da minha mãe, minha irmã. Meu pai, coitado, já se foi. Tocava rancheiras em uma sanfoninha de oito baixos. Da minha casinha. A gente acordava, via o orvalho das manhãs cobrindo as flores[4], sentia o cheiro do ar, do capim-gordura, da lenha no fogão, e aquele café?...  Um bule enorme. O leite grosso, espumando. Tirado na hora da Salomé.

– Salomé era a vaca?

– Era. Se você pedisse com jeitinho, dava leite engarrafado misturado com café[5].

– Há, há, há! Acredito.

Arthur calou-se, pensando na sua própria vida. A mãe e as irmãs na putaria, o pai, sempre bêbado. Qualquer coisa que não gostasse, baixava o cacete. Não, ele não tinha saudades. Fugiu dali o mais rápido que pode.

– Eu não sinto falta de nada. Não tenho para onde voltar.

– Pois eu adiei a minha saída por falta de coragem de ver o quadro que eu vi quando parti: minha mãe, parada na varanda, segurando o avental, chorando, se desfazendo; minha irmã atrás de mim até o portão, também chorando. Meu pai me levou até a rodoviária [6] e ficou comigo até o ônibus para Goiânia sair. Minha mãe me escreveu, depois, que o pai nunca mais tocou a sanfoninha dele, depois que eu parti. Ele morreu cinco anos depois.

– Você foi no enterro?

– Não deu! Nós estávamos começando. Em Parintins. Lembra?

– Lembro.

– Comíamos moqueca de pirarucu, pirarucu frito, salada de pirarucu, arroz de pirarucu...

– Não era bem assim. Tinha tambaqui, pacu, piranha, surubim, traíra...

– Tinha muita piranha, mas eu não comi nenhuma. Traíra foi aquele puto que nos contratou, e ficou devendo um show. Disse que estávamos bêbados.

Mais silencio. Fabinho retomou.

– Minha mãe era uma figura. Você não calculava a força e disposição de trabalho que tinha aquela mulherzinha. Era magra. Quase não tinha peito. Quando ela saia botava uns panos para encher o sutiã. Ficava séria o dia inteiro. Depois que acabava os serviços domésticos, assistia a novela. Não sei como escutava alguma coisa, naquele radinho, com som todo chiado. Aí é que ela ficava com a cara doce e alegre. Que saudade da minha mãezinha! Eu achava ela linda.

– Como ela está?

– Não sei. Não tenho notícias dele há mais de cinco anos. Ela não escreveu mais. Acho que ela perdeu o endereço, quando viemos para cá.

– Ela não tem celular?

– Não sei.

Depois de alguns minutos.

– Eu vou voltar. Vou desistir desta merda aqui.

– Sacanagem! Pensei que estávamos juntos nesta parada.

– Para mim não está dando. Não vai ser difícil achar um parceiro melhor que eu para fazer a segunda.

__________

Fabinho partiu para Goiânia. Ficou surpreso com o tamanho da rodoviária. Quanta gente. Quanto mau gosto. Parecia uma fábrica. Difícil encontrar o guichê para comprar passagem para Sulapeba. Ninguém conhecia. Até que um senhor ouviu e lhe disse.

– Agora chama Prefeito Altafini.

Fabinho demorou alguns segundos para entender. Ele conhecia o nome. Um médico notório na cidade, fora prefeito quatro vezes.

Comprou uma passagem. A cidade ficava a uma hora e meia de Goiânia. Teve que esperar até o dia seguinte, à tardinha. Era um ônibus pequeno, sem grandes confortos, mas não era muito velho.

Embarcado, reclinou-se no banco e deixou a mente livre. Puxou a lembrança sua cidade. Ruas largas, de terra firme e arenosa. Os paralelepípedos iam até certa altura da sua rua, depois paravam bruscamente. Era promessa dos sucessivos candidatos a prefeito continuar a pavimentação até o açude, mas nunca foi feito.

Em certo ponto, um gigantesco oiti separava a estrada em duas. Sua casa ficava no caminho da direita.  À esquerda era a de Rosinha, uma viúva que lhe tirou a virgindade, aos quinze anos. Sua mãe a olhava com desconfiança. Talvez soubesse, e temia pelo filho, muito novo para os males do amor e da paixão. Lembrou-se do  Autregésilo, sorrindo e fazendo meias com o outro vira-latas pequenino. Lembrou-se do tio Eraldo, um solteirão machista, ignorante e primitivo, que vivia na zona e contava no currículo com três gonorreias, sendo que a última quase o levou. Com uma das damas teve um filho, a quem deu o nome de Murilo, em homenagem ao médico que o salvou, com doses maciças de antibiótico.

Lembrou-se com desagrado do Pichau, um pernambucano parrudo e atarracado, de olhos verdes.  Vivia em sua casa, filando o almoço e o lanche. Não gostava dele. Sobretudo não gostava quando o pai ia tirar a sesta e ele ficava, na cozinha, conversando com sua mãe. Parecia ser mais amigo dela. Quando não estava lá, estava na sinuca. Vivia pedindo dinheiro emprestado a seu pai. Pagava?

E Dona Dulce, vizinha – devia se chamar Agridulce, porque alternava os momentos de extrema doçura, com outros, de azedume, quando passava dias sem falar com ninguém. E a Mara Faz Parte, com visual de artista de cinema depois da chuva. Cabelos longos, de cor variável. Devia ter sido bonita em outras eras. O apelido veio de uma entrevista que deu à rádio local, quando o entrevistador lhe fez perguntas embaraçosas, às quais ela sempre respondia: “Ora, isso faz parte! “

Lembrou-se da sua casa, de alvenaria, revestida com emboço “à travertino”, pintada de bege clarinho. Dois pavimentos acima de um porão baixo, de soalho de madeira, que era encerado de tempos em tempos. Sobrava para ele encerar. Servicinho chato, aquele! O dia inteiro. Varanda ao longo da fachada. A sala não era tão grande. Tampouco os quartos, no andar superior. O maior compartimento da casa era a cozinha. Era ali que se viviam os melhores momentos. A grande mesa central, com tampo feito com duas tábuas bem grossas. Bancos laterais em toda a extensão. Cadeira, só do pai e da mãe, nas cabeceiras. A da mãe ficava do lado do grande fogão de lenha. Esta foi a melhor lembrança. O fogão de lenha, com o fumeiro em cima. Sobre as quatro bocas, panelas de ferro, de onde saiam o delicioso arroz com colorau, e o feijão, sempre com uns pedacinhos de toicinho defumado, produto da casa, para dar gosto. Aos sábados, do forno lateral, saia o bolo de milho, da enorme frigideira de ferro, os bolinhos de chuva, servidos cobertos de açúcar e canela. Aos domingos, a macarronada caseira feita pela mãe ou a irmã Leticia. Esta, com os hormônios explodindo, vivia nos cantos, se esfregando com o namorado, magro e comprido. Parecia, mas era ainda mais feio que o Fagner.

Ficou feliz de lembrar que tudo isto estava voltando para ele. Tudo que ele havia deixado, dominado pelo sonho de grandeza, de ser alguém na vida, de ser famoso e conhecido. Voltava sem nada de grande para contar.

–––––––––

 

Surpreendeu-se com a Rodoviária de Sulapeba, digo, de Prefeito Altafini.

Quando partiu era apenas uma casa improvisada, com telhado de duas águas, grandes tesouras de madeira, aparentes, e telhas de cerâmica. Apenas dois guichês, dois banheiros minúsculos e fedidos, uma birosca que vendia café, cachaça e balas. No restante do espaço, bancos de madeira. Agora, uma grande cobertura de concreto pré-moldado. Alta, mas não o suficiente para amenizar o calor. Grande, mas não o suficiente para impedir que o sol banhasse grande parte do piso, a qualquer hora do dia. Numa extremidade, banheiros. Noutra extremidade, uma lanchonete.  O restante do grande vão era dividido, parte com boxes de venda de passagens, pequenas lojas e uma área de espera com bancos e mesas. Não gostou do que viu. Não era a sua rodoviária. Estava farto daquela modernidade com cheiro de anonimato.

Foi procurar um táxi.

– Eu quero ir para o Caminho do Açude.

– O quê? Perguntou o taxista. Um outro colega que ouviu, falou:

– É a rua Presidente W. Bush, depois do largo do Oiti.

– Ah, sei! É cinquenta reais a corrida.

– O quê? – Surpreendeu-se Fabinho.

– É tabela, amigo. Fora do centro é 50.

– Eu não pago cinquenta nem por um caralho. Eu vou a pé.

– É longe, meu camarada.

– Não faz mal. Eu não fiz exercício hoje.

Começou a caminhar, ele e sua mochila. Adiante uns trezentos metros, um outro taxi o acompanhou.

– Aí! Eu te levo lá por quarenta.

Fabinho ignorou e continuou caminhando.

– Trinta.

– Dou vinte. Nada mais.

– Tá bom. Entra ai.

Pela janela do táxi, Fabinho via cenas desconhecidas. Era uma outra cidade. Nada daquela sequência tão simpática de casas e árvores de sua lembrança. As ruas de asfalto, cheias de trincas e remendos. As calçadas revestidas ora com cerâmica, ora com cimentado, desniveladas, rachadas e com relevos perigosos para os caminhantes desatentos ou com deficiência. Postes no meio das calçadas. As casas sem nenhuma expressão ou identidade. Nenhum telhado. Somente lajes com platibandas revestidas com o mesmo material da fachada, grandes peças cerâmicas decoradas, imitando mármore, madeira, concreto. Até mesmo imitando cerâmica. Geralmente tinham dois pavimentos. Vez por outra, da laje de cobertura nasciam uns pilares de caibros de madeira, para suportar uma cobertura de calhas de fibrocimento, banais e sem graça, para o churrasco na laje, aos domingos. As áreas de piso frontais, todas pavimentadas. Às vezes, um minúsculo canteiro, com algumas folhagens.  Tudo muito prático e higiênico, sem nenhuma poesia. Árvores ainda em crescimento, não ultrapassando a altura de uma pessoa. Tudo muito árido.

Chegaram a um largo.

– Sua rua começa aqui. Sabe o número?

– Onde está o oiti?

– Estava neste largo. Tiraram.

– Como?... Tiraram?

Imaginou alguém atacando o seu centenário oiti, com um machado.

– Derrubaram com machado?

– Que machado, cara. Isto não se usa mais. Motosserra. Rapidinho?

– Mas por que tiraram?

– Sai lá? Atrapalhava a visibilidade dos carros. Onde é, compadre?

– Pode me deixar aqui? Eu vou procurar.

Na verdade, Fabinho não sabia onde era. No seu tempo não tinha número. As casas eram distantes umas das outras. Agora era uma fileira ininterrupta, com pouco afastamento entre as construções. Ele não estava reconhecendo nada. Caminhou, procurando alguma coisa familiar.

Viu uma senhora varrendo o pátio frontal. Ia se dirigindo a ela. Não é que era a dona “Agridulce”? Envelhecida, mas reconhecível. A mulher não estava em seus dias de doçura e olhou-o com desconfiança, sem reconhecê-lo.

– Boa tarde, senhora. Onde é a casa da Dona Alice?

– É aquela ali! – Apontou com um gesto rápido e voltou à vassoura.

Olhou para a casa. Não era possível. Aquilo ali? Em nada diferente das outras. Em nada semelhante à sua memória. Tentou reconhecer alguma coisa. Nada. Bateu palmas.

Foi atendido por um dobermann preto, hostil, agitado, latindo e mostrando os dentes, que o teria atacado, não fosse a grade de tubos de alumínio, ocupando toda a frente da casa.

Fabinho se afastou e o cão parou de latir, mas continuou agitado, andando de um lado para outro. “Este daria orgulho para o meu tio Eraldo. ”, pensou. Ficou algum tempo parado, sem saber o que fazer. Se voltasse a bater palmas, ia incomodar o cachorrão.

– Elas saíram. Só vão voltar à noite! – Era a voz de dona Dulce, do outro lado da rua.

– Obrigado. Vou esperar.  

Fabinho sentou-se na calçada fora das vistas do dobermann, encostando-se no muro. O cansaço acumulado o fez adormecer.

––––––––––

Um bêbado? Um morador de rua? Um Zé qualquer? Calça jeans puída e amarelada, que não via água há semanas, jaqueta quase no mesmo estado, mochila já desgastada pelo uso. Contrastando com isto, um tênis de marca, imundo, mas de marca. Esta roupa vestia um cara exausto, cabelos compridos e desalinhados, semideitado, recostado no muro de sua casa, dormindo. Foi esta figura que Alice viu ao saltar do elegante Nissan prata, chegando em casa, juntamente com a amiga Jordina.

– Olha ai, Licinha? Mais um bêbado. Não adianta reclamar com o prefeito. – Falou Jordina.

– Ele bateu na sua porta. Esta ai há horas, deitado. – Gritou do outro lado da rua, a vigilante Dulce.

Jordina aproximou-se e olhou atentamente para sujeito deitado.

– Licinha! Cruzes! Venha aqui!

– Meu Deus! É o Fabinho!

Fabinho acordou, aprumou-se e recebeu um demorado abraço de mãe saudosa. Com direito a lágrimas e afagos no rosto, com barba de três dias. Foram esses os únicos momentos em que encontrou a mãe que esperava rever. 

– Vamos entrar. Espera aí para eu prender o Brutus.

Com o cão prezo, pode entrar com segurança.

– Que cachorro é este, mãe? Para que isto?

– Isto foi ideia do Pichau.

Fabinho não gostou nada de ouvir aquele nome. Sentiu um mal presságio.

– Vem, querido. Vem ver a nossa casa reformada. – Falou a mãe, já agora com uma alegria afetada, que não combinava com sua mãe imaginária.

– Olha só. Tudo laje. Piso de porcelanato. Olha que beleza que ficou na sala. Padrão “cimentado romano”. Vem ver a cozinha. Meu orgulho!

Escritor exagera. Seria talvez exagerado dizer que Fabinho sentiu náuseas, ao ver a cozinha, mas foi coisa parecida.

Onde estava o fogão de lenha? Não tinha mais. Um armário moderno, decapê, cor azul bebê, envidraçado, com os pratos, copos e taças à mostra, ocupava toda a parede. No lugar da velha mesa de madeira, uma ilha com tampo de resina, e com vidro temperado fumê em uma parte.

– Onde está o fogão de lenha, mãe?

– O fogão, meu filho – disse com autoridade e orgulho–, é isto aqui. – Apontou para a placa de vidro. Tocou com o dedo e apareceram círculos de luz, indicando as “bocas”. Seis ao todo. – É elétrico! Maravilha! – Vou fazer um sanduíche para você. Deve estar com fome.

Enquanto preparava o sanduíche misto, aquela conversa. “Onde você esteve? ”. “Há quanto tempo não sei onde você está? ”. “Estive por aí, batalhando”.

Assou o sanduiche em um belo grill de aço inox. Serviu com uma lata de Coca, que tirou de uma geladeira enorme, de duas portas, também de aço.

– Mãe...com que dinheiro você fez esta reforma? Tudo caro?

Alice pareceu embaraçada. Jordina entrou.

– Você lembra da Dininha. Lhe viu nascer.

O filho olhou para Jordina, forçando um sorriso.

– Lembro, claro! Como vai dona Dina? A amiga notou um clima pesado e se retirou. Fabinho repetiu a pergunta:

– Mãe...com que dinheiro você fez esta reforma?

– Ah!... Eu tinha umas economias... – Ficou embaraçada, sabendo que o que diria não ia agradar ao filho:

– O Pichau me ajudou...

– O que? Aquele aproveitador infame?

– Não! –Protestou a mãe. – Agora ele é fazendeiro. Ficou rico. – Disse entusiasmada.

– Deve ter feito muita trapaça.

– Não fale assim. Ele é um homem bom.

Na mente de Fabinho tocou o alerta amarelo.

– E ele bancou esta reforma cafona.

– Você não gostou? – Disse a mãe decepcionada. – Todo o mundo elogia.

– Desculpe. Eu fiquei surpreso. Eu vim aqui esperando um bule de café no fogão de lenha. Aquela mesa rústica de madeira.

– Um café! Meu filho, como eu ia esquecendo! O seu café?

Abriu uma gaveta e procurou cápsulas de café.

– Você quer simples, com leite, cappuccino. Eu gosto mais com chocolate.

– Simples, mãe. Simples!

Alice foi á máquina de café, colocou a cápsula, e voltou com o café e uma cesta com saquinho de açúcar.

O filho estava visivelmente decepcionado com tudo o que vira. Da sua cidade, da sua casa. Parecia que alguma coisa estava agonizando dentro dele. Mas faltava muito ainda.

Depois de um longo silencio, a mãe perguntou, sem graça:

– Onde você vai ficar?

“Como assim? ” – Pensou. “Onde eu vou ficar?”. “Eu voltei! Agora pra ficar”. A mãe sentiu a surpresa que a pergunta causou no filho. Cada vez mais embaraçada. As mãos, tremendo, sem encarar o filho.

– Tem o meu quarto. Tem o quarto da sua irmã, quando ela vem aqui com a família. A  Dininha fica nele para me fazer companhia. O outro...o outro... (referia-se ao seu antigo quarto) é do Pichau.

O filho arregalou os olhos, vermelho de ódio.

– O quê? Aquele verme está morando aqui?

– Não! – Respondeu Alice, com ênfase. –Ele tem a fazenda dele. É só nos fins de semana.

– Mamãe? A senhora está trepando com aquele escroto?

Alice ficou indignada. E confusa.

- Isto são modos de falar com a sua mãe?

O filho, furioso.

– Vou mudar a pergunta? A senhora está fodendo com o senhor Pichau?

A mãe caiu no choro desesperada.

– Você não tem o direito...– Gritou. Encarou-o, com os olhos marejados. – Me respeite! Peça desculpas por esta palavra!

O filho baixou a cabeça.

– Desculpe!

– Onde você estava quando eu tive que tomar decisões importantes na vida? Sua irmã estava em São Paulo, fazendo filhos. As únicas pessoas que estavam aqui comigo eram a Dina e o Pichau. –Eu estou viva! –Gritou, aos prantos, olhando para o filho.

De fato, ele não tinha direito algum. Ele saiu de casa, movido por um sonho de grandeza. Afastou-se da família. Que direito ele tinha de questionar as decisões da mãe? Mas a súbita devastação de seu sonho de um lugar feliz que o esperava, o deixava aturdido.

Porém, de certa maneira, aquele sofrimento do filho repercutia na mãe. Alguma coisa a fazia sentir que ela não tinha feito uma escolha plena e refletida. Fora a ocasião. Premida pela insistência e determinação daquele homem. Enfraquecida pela solidão e pela contemplação do ninho vazio. Foi aceitando tudo, foi destruindo o passado. Ela também sentia a nostalgia. Ela entendia o filho.

– Eu odeio este homem, mãe. Ele é um canalha, um aproveitador. Ele é um invejoso. Tinha inveja da nossa família. Ficava paquerando você quando o pai não estava, e pedia dinheiro emprestado para ele, quando voltava. Nunca pagou. Não sei quantos ele passou para trás, as trapalhadas que fez para tornar-se rico. Ele conseguiu destruir a sua casa, a nossa antiga casa com estas reformas de merda.

Depois de um embaraçoso e prolongado silencio, Fabinho pegou a mochila.

– Eu vou encontra um hotel na cidade.

– Eu vou falar com a Jordininha. Nós vamos levar você.

Foram os três, no belo Nissan prata.

– Um hotel barato, por favor. –Pediu Fabinho.

– Eu vou pagar! – Retrucou a mãe.

– Eu não quero! – Disse, determinado, furioso, quase gritando, o filho. Foram para um hotel simples, perto da estrada.

Fabinho despediu-se da mãe, com certa frieza, ainda nervoso, tremendo. Deu um adeus a Jordina e agradeceu.

– Amanhã cedinho eu venho lhe buscar, para tomarmos café juntos. – Falou Alice, enquanto ele entrava no hotel. Ele não respondeu.

Fez a ficha e foi para o quarto. Pegou o celular e ligou para Arthur.

– Arthur?

– Covarde, filho da puta, arregão! Como é que você está, seu escroto?

– Tô bem!

– Como está a Salomé?

– Foi pro brejo.

– Como é que está o... Como é o nome do cachorro viado?

– Austregésilo.

– Isso! Como está o Austregésilo?

– Já era. Agora tem um machão.

– E a velha? Como foi o encontro?

Silêncio. Não sabia o que dizer. A sua mãezinha imaginária tinha morrido. Estava viva, no mundo das coisas reais, mas no mundo da sua memória, tinha morrido.

– Alô! –Insistiu a voz de Arthur.

– Você já arranjou a segunda voz?

– Ainda não. Estou testando..., mas só tem desafinado calhorda que nem você.

– Tem um lugarzinho para mim ainda, nesta dupla?

– Só se for agora.

– Em dois dias estou aí.

––––––––––

Quando Alice chegou no hotel, dia seguinte, procurando o filho, ele tinha partido.

– Como?

– Saiu cedinho. Antes das sete. Já fechou a conta.

– Ele não deixou um recado? Nada?

– Nada. Pegou a mochila e partiu.

Alice ficou silenciosa. Perdera o filho pela segunda vez. Pensou que não o veria mais. O atendente, vendo a perplexidade da senhora, acrescentou.

– Aqui no registro tem um endereço, no Rio de Janeiro. E um número de celular.

Desapontada, confusa e pensativa, Alice voltou para casa com Jordina. Estava triste. As mães perdem os filhos. Mas ela tinha perdido mais. Quando olhou para aquela casa, não se reconheceu nela. Mas não conseguia mais se lembrar de como era antes. Olhou para o piso de porcelanato. Lembrou-se do piso de ladrilho hidráulico. Era mais feio. Quem sabe? Quem sabe o que é belo ou feio. Olhou para a ilha, na cozinha. Era de outra geração que não a sua. De uma geração com a qual pouco mais conviveria. Lembrou-se da mesa rústica de madeira. Com o falecido marido contando bravatas e os filhos fazendo algazarra. Aquela ilha de resina não lhe lembrava nada. Perguntou-se se ainda tinha forças para corrigir alguma coisa que não ficou do seu agrado, na própria vida?

Sentou-se à mesa, de frente para Jordina. As duas se olhavam sem dizer palavra. Fizeram um café de cápsula. Para ela com chocolate. Para a amiga, cappuccino. Degustaram o café e ficaram em silêncio por alguns minutos. Alice levantou-se e, com determinação, pegou a máquina de café, jogou-a no chão, e começou a pisoteá-la.

– O que você está fazendo? – Perguntou Jordina, assustada.

– Me ajuda aqui? – Falou, pisoteando a máquina.

A amiga, ao ver a máquina já em pedaços, achou divertido ajudar a despedaçá-la.

Alice pegou o atiçador do fogão, a única peça que dele restava, e ficava encostada num canto da parede. Com golpes enérgicos, golpeou o fogão de vidro muitas vezes até reduzi-lo a minúsculos estilhaços.

– Alice, o que deu em você?

– Amanhã vamos tomar café na padaria. – Olhou para a Dininha, sorridente. Esta riu sem graça. Não sabia se se divertia com a amiga, ou se preocupava com ela. Mas Alice parecia segura de si.

– Sexta-feira, quando o Pichau vier, vou dizer a ele para levar este cachorro ridículo para longe daqui, e desocupar o quarto. Ele será bem-vindo aqui em casa, sempre. Mas aquele quarto vai ficar vazio.

– Você tem certeza.

– Hoje, tenho. Depois eu me arrependo, se for o caso. Vou mandar demolir esta ilha e trazer a mesa de madeira com os bancos para cá.

– Você vai ter que mandar envernizar. Ela está toda cinzenta.

– Nada de verniz. Lixa, cera e óleo de peroba. Como sempre fiz.

––––––––––

Fabinho estava voltando para as apresentações. Recostado na janela do ônibus, os seus pensamentos se dividiam. Autregésilo virou Brutus, a figura rústica e simples da mãe, virou a de uma senhora fazendo as unhas e secando os cabelos em um secador gigantesco, num salão de cabeleireiro.  O escroto do Pichau, ocupando seu quarto, comendo a sua mãe. Tudo isso o fez verter uma lágrima. Sentiu o peso de sua partida. Deixara a mãe só, com o seu destino. Certamente tornaria a vê-la, assim que pudesse. Mas seria uma viagem apenas no espaço, não mais no tempo. Sabia agora o que ia encontrar. Fechou os olhos. Mas alguma coisa o fez sentir-se bem. Sentia nascer, lá no fundo da alma, uma força estranha. A sua mochila estava mais leve. Não tinha mais que carregar o passado. Não tinha mais para onde voltar na vida. Era vencer ou ser definitivamente derrotado. Sem retorno.

 



loso.

Silvio Colin

Silvio Colin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1970), é doutor em Teoria e História (PROARQ-FAU-UFRJ -2010) e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Departamento de Projeto de Arquitetura. É escritor, autor de dois livros: Uma Introdução à arquitetura e Pós-modernismo. Repensando a arquitetura, além de diversos artigos publicados em periódicos da área.

Comentários (1)

Desirée Balster 29/08/2026 18:16
O tempo não faz perguntas, ele continua sem você...

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