A Morte e o Cavalheiro
O cavalheiro era, às vezes, alegre como um pardal, despreocupado, amoroso e terno, mas às vezes sombrio e sonhador como um palhaço desprezado. Ouviu baterem à porta. Abriu. Viu a figura de um homem alto, vestido com um manto de moletom preto, com um folgado capuz que não deixava ver suas feições.
– Quem é você?
– Eu sou a Morte! – Sua voz era grave, de baixo profundo.
– Você veio me buscar?
– Sim! Posso entrar?
– Por que eu haveria de deixar você entrar?
– Não fará nenhuma diferença. É uma atitude sociável.
– Entre, então.
– Obrigado.
– Quer um chá?
– Não bebo. Porque você está me oferecendo chá? Você não bebe chá. So bebe café pinga-do, água e uísque.
– Mas eu tenho chá. Acho elegante oferecer chá para as visitas.
– Isso já era. É coisa dos ingleses, no século XIX. Agora é Coca-Cola.
– Mas meu chá é chinês. Você quer uma Coca-Cola?
– Não, obrigado!
– Quer tirar o capuz para eu ver o seu rosto?
– Eu não tenho rosto.
– Como? Você não tem este corpo aí?
– É só o moletom. Para impressionar. Não tenho corpo nem rosto.
– Sente-se, por favor.
A Morte sentou-se à mesa. O cavalheiro sentou-se à sua frente. Ansioso, temendo a res-posta, perguntou:
– Como vai ser?
– Vejamos. Idade?
– Setenta e quatro anos.
– Altura e peso?
– Um metro e setenta e cinco e oitenta e dois quilos.
– Ligeiro sobrepeso! – comentou a Morte.
– Você é a Morte ou uma enfermeira de triagem?
– Vou fingir que não escutei este desrespeitoso comentário. É diabético?
– Não!
– Alguma doença crônica?
– Sou cardiopata.
– Hum... Bom! Enfarto?
– Dois.
– Fez stent, vascularização?
– Ponte de safena.
– Faz uso de algum medicamento regularmente?
– Para que tudo isso?
– Cale-se! O que você me perguntou?
– Como vai ser a minha morte?
– Então... estou pensando... avaliando.... Faz uso de algum medicamento regularmente?
– Atorvastatina, valsartana, Selozok, sertralina, alprazolan, HCT.
– É a praxe. Tem algum caso de câncer na família?
– Não.
– Tem alergia a algum medicamento?
– Não que eu saiba.
– Tabagista?
– Sim.
– Há quanto tempo?
– Cinquenta anos.
– Esta é boa! Sente dor no pulmão?
– Não.
A Morte ficou em silêncio algum tempo. O cavalheiro perguntou:
– Tem que ser agora?
– Todos perguntam isso. Sim. Tem que ser agora.
– Não pode esperar que eu ponha o ponto final em meu soneto?
– Você não escreve sonetos.
– Como você sabe? Eu sou escritor.
– Eu sei tudo sobre você. Você é escritor de prosa. Não escreve poesia.
– Pera aí! Se você sabe tudo sobre mim, por que fez tantas perguntas de enfermeira de tri-agem?
– Para você sentir desconforto.
– Mas eu estava escrevendo um soneto.
– Então me recite o soneto.
– Não está pronto.
– O que você já tem.
– Eu só tenho o fecho de ouro.
– Qual é?
– É assim:
“Apedreja a mão vil que te afaga,
E escarra nesta boca que te beija”.
– Você acha que eu sou idiota? Isto é Augusto dos Anjos.
– Ah, é! Eu me enganei. E assim:
" ... morrer sem uma lágrima, que a vida
não vale a pena e a dor de ser vivida."
– Manuel Bandeira
– Esta minha cabeça! Estou nervoso! É outro. É assim:
" ... revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho."
– Drummond.
- Porra. Você é foda!...
O cavalheiro pensou por um instante –Vá lá, então:
"Por que tão tola vida ante uma morte esperta?Por que jogar um jogo em que a derrota é certa?"
A Morte admirou-se.
– Este fecho eu não conheço. Gostei! De quem é?
– É meu, porra! Fiz agora!
– Caralho! Você leva jeito. Mas a Morte não é esperta. É sábia.
– Mas não rima com “certa”.
– “Sábio” rima com “lábio”. Taí! Você poderia falar do “beijo da morte”.
– O soneto é meu ou é seu, porra?
Os dois fizeram uma pausa. O cavalheiro voltou a falar:
– Então... Podemos deixar para depois? Para eu terminar.
– Mas já está pronto.
– Este é o fecho, porra! Falta o soneto.
– Quanto tempo?
– Ora, como eu vou saber? A inspiração não tem tempo e hora.
– Você é espertinho, hein? Essa inspiração vai demorar, não é? Por que você quer viver mais? Esta é a sua hora.
– Eu já não falei? Para terminar o soneto.
– Não tem soneto nenhum. Você confessou que fez agora. Você está com medo. Por que não agora? Você já viveu tanto. É doce morrer.
– ... no mar. É doce morrer no mar. Mas não tem mar aqui por perto. Só na Zona Sul. Eu nunca entendi isso. Como é doce, se a água do mar é salgada.
– Nem parece.... Você diz que é poeta. Você queria que ele dissesse “É salgado morrer no mar”. Onde fica a métrica? Onde fica a poesia?
– Como ele podia saber? Estava vivo quando compôs? Ninguém voltou de lá para dizer que é doce... O cara engole água salgada e diz que é doce.
- Você está sendo pragmático demais. Nos seus últimos momentos, você não deve ser pragmático. Pense na grandeza da morte. Vamos lá!
– Pera aí! Como é a morte? Eu quero estar preparado.
– A morte é o Nada. Não há como se preparar.
– O Nada me assusta.
– Ora! Você tem a crueldade humana, a ignorância, a corrupção, tem os políticos, tem a polícia, tem o tráfico de drogas, tem o terraplanismo, o aquecimento global, tem o Trump, tem o Putin, e vai se assustar com o Nada?
– Me assusta. Mas acho que você está trapaceando. O Nada não pode existir.
– Por quê?
– Porque se o Nada existe, tem existência. Então não é o Nada. É alguma coisa.
– Quem lhe ensinou este sofisma de merda? Deve ser a mesma pessoa que disse que Deus não é onipotente porque não pode fazer uma pedra que ele não pode carregar.
– Mas não é verdade?
– Pergunte a um cego de nascença o que ele vê e saberá se é verdade.
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– Cadê a sua foice?
– Que foice? Eu não tenho foice.
– Mas todas as figuras que vi de você foram com uma foice.
– Bobagem. Eu não preciso de foice. E não é foice. É um alfanje. A foice é dos comunistas.
– O que é um alfanje?
– É uma foice muito maior e menos curvada.
– Mas não dizem que você é “O Ceifador”?
– Ah! Isso é verdade! Mas eu sou um ceifador sem alfanje.
– É assim que você aparece nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. E dizem que o Inferno vem junto?
– Você é um crente ingênuo. Isso não existe!
– Não existem os Quatro Cavaleiros do Apocalipse?
– Não! Claro que não! Diga lá: quais são estes gentis senhores?
– A peste, a fome, a guerra e a morte?
– Então veja só a besteira que você disse; A peste traz a morte. A guerra traz a morte. A fome traz a morte. Então? Quantos Cavaleiros do Apocalipse existem?
– Pelo que você diz, um só – a Morte.
– Este sou eu! Mas eu não tenho cavalo. Muito menos verde. Você já viu um cavalo verde?
– Não! Mas é o Livro do Apocalipse, da Bíblia, que diz isso.
– Você quer mais? O que você quer mais de Apocalipse? Mais peste. Mais AIDS, mais Co-vid. Vinte milhões de mortes. Vinte milhões de mortes. Uma multidão maior do que a população de muitas capitais do mundo. Você quer mais guerra? Palestina, Ucrânia. Tunísia, Turquia, Afe-ganistão, Iraque. Mais fome.? Haiti, Sudão, Mali, Gaza, Somália, Etiópia. Dezenas de milhões de pessoas por ano. Mais as mortes de traficantes, de bandidos contra mocinhos, as de balas perdi-das, os atropelamentos, as doenças, as mortes naturais, em camas de hospitais. O Apocalipse está ultrapassado há séculos.
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– Você já viu um trompete? – perguntou a Morte ao cavalheiro.
– Já!
– Uma trompa, um trombone, uma tuba?
– Já.
– Já viu um corno inglês?
– Pô! Deve haver milhares. Ouvi dizer que as inglesas...
– Não é esse corno, idiota! É um instrumento musical... como o oboé.
– Devo ter visto.
– Agora... você já viu uma trombeta?
– Como é?
– Não sabe como é? Então não viu.
– Os anjos do Apocalipse tocavam trombetas. Hoje o apocalipse deveria ser anunciado pe-la Filarmônica de Berlim, regida pelo Herbert von Karajan.
– Mas ele já morreu.
– Neste caso a gente dá um jeito.
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– Quantos são vocês?
– Vocês quem?
– Vocês... os Mensageiros da Morte.
– Eu não sou Mensageiro da Morte. Eu sou a Morte!
– Você sozinho mata todo mundo?
– Eu sou o caminho, a verdade, a morte. Eu estou em todos os lugares ao mesmo tempo.
– Como pode?
– Ora! Vem um cardeal barrigudo, vaidoso, vestido de preto com uma cinta vermelha. Que come três ovos poché no café da manhã, torradas com geleia, frutas da estação, café com leite, e diz que Deus está em todos os lugares. Que você fala e Deus escuta. A todos. Atende aos seus pedidos. A todos. E vocês acreditam. Eu digo que estou em todos os lugares e que sou uno, atendo a todos, e você não acredita.
– Eu acredito. Eu estou vendo. Mas e os que não o veem?
–Todos me verão! Podem não querer. Podem não gostar. Mas verão. Chegará o dia...
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O Cavalheiro retomou a conversa:
– Vá lá! Me esquece por uns tempos, vai.
– Estou pensando.... Você joga xadrez?
– Muito pouco. Mas eu jamais jogaria xadrez com você. Você é trapaceiro.
– Não se pode trapacear no xadrez.
– Pode sim. Eu vi você trapaceando com o Antonius Block.
– Quem é esse cara?
– É o personagem do Max von Sydow no filme do Bergman. Você se fingiu de confessor e ele contou como ia lhe imprensar com o cavalo e o bispo.
– Isto é ficção. É coisa do Bergman. Ele era obcecado por mim.
– Não! Eu não jogo xadrez no seu nível.
– Damas?
–Também não. Isto é jogo de criança, de bêbado e de velhinho na praça.
– E você, o que é? – pilheriou a Morte. Pensa que é diferente do velhinho da praça? Você só é diferente porque não vai à praça jogar damas.
Voltou às perguntas:
– Gamão ?
– Também não!
– Porra! Você não joga nada. Ia lhe propor um jogo. Você ganha, vive. Você perde, morre. Como no filme.
– Eu jogo “jogo da velha”.
– Não dá. So se você for muito burro para perder no jogo da velha. Dá sempre empate.
– Ah!... Eu jogo o jogo dos quinze pontinhos. Nunca ninguém me ganhou.
– Nem pense! Não tem chance. Vai perder na primeira e eu lhe corto a cabeça. Não vai ter graça.
– Jogo dados?
– Dados é jogo de azar. Não pode. Tem que ser jogo de inteligência... Deixa pra lá. Jogar com você não vai ter graça. Esquece o jogo.
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– Você é homem ou mulher? – perguntou o cavalheiro.
A Morte não se manifestou. Não poderia fazê-lo, pois não tinha corpo nem rosto. Apenas um moletom preto com capuz, que ondulou fortemente ao vento. Mas, a julgar por suas pala-vras, sua única manifestação para o cavalheiro, não gostou da pergunta.
– Sabe? Às vezes você até parece inteligente. Mas, às vezes, é um completo imbecil. Isto é pergunta que se faça. Inda mais quando está na degola?
– Mas eu já vi você representado com a foice, de preto, num cavalo verde. Você disse que não é assim. Já vi você representado como um branquelo escroto, vestido de preto. Com vestes muito mais finas que este moletom de terceira categoria. Você disse que é coisa do Bergman. Já vi você representado como uma noiva linda. Muito criativo! Emocionante!
– A Morte não tem sexo, idiota. A Morte não é uma pessoa. É um estado. Vocês vivem no mundo das aparências. A vida não é cinema. Daqui a pouco você vai falar de pessoas voando para o céu. Mergulhando no umbral, com monstros pretos. Isto é imaginação. Que nem no Ghost.
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– Vai lá, colabora! – insistiu o cavalheiro. – Deixa eu viver até ter meu talento como escri-tor ser reconhecido.
A Morte deu uma gargalhada sonora.
– Você? Reconhecido como escritor? Isto me lembra a história do esparadrapo do seu pai.
O cavalheiro riu também.
– Você conhece esta história?
– Claro! Eu não já disse que conheço tudo sobre você.
– Esta foi engraçada! – concordou o Cavalheiro.
– Conte para os leitores, senão eles não vão saber do que o homem é capaz para fazer bur-las comigo.
– Vou contar. É que meu pai, três ou quatro anos antes de morrer, ficou muito doente. Por coincidência, teve uma ferida na perna e comprou um tubo de esparadrapo dos grandes para fazer os curativos. Um dia me disse, com tristeza: “Quando este tubo de esparadrapo acabar, eu vou morrer”.
– E o que ele fez?
– Nunca mais usou o esparadrapo.
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– Esquece estas figuras de cinema. Qual o nome que você deu para este conto?
– “A Morte e o Cavalheiro”.
– E no que você estava pensando?
– Eu estava pensando no filme “A Morte e a Donzela” . Mas não é somente um filme. É um quarteto de cordas do Schubert. É uma peça teatral também. E a música do Schubert inspi-rou-se em um poema de um poeta alemão .
– Tudo isto você viu no Google. O que lhe inspirou foi o filme.
– Não o filme. O nome do filme. E não vale? A memória, o filme, o Google? É assim que o escritor trabalha. No poema alemão há diálogo igual ao nosso: A donzela diz para a morte: “Vá embora, cruel homem de ossos! Eu ainda sou jovem! Vá. Não me toque”. E a Morte responde: “Dê-me sua mão, bela e delicada donzela! Sou amigo, e não venho para punir. Seja boa comigo! Eu não sou mau, e você dormirá tranquilamente em meus braços!
– É!... Não é mal, como poesia. Eu diria isto para uma donzela moribunda. Você conse-guiu dar ao nosso encontro alguma coisa de poesia.
– Então.... Conversando a gente se entende.
– Mas o seu esparadrapo em poesia não vai funcionar comigo. – retomou a Morte, insen-sível.– Qual a possibilidade de um millennial, um centennial, ou um alphagen, que somente leem Instagram, e TikTok, ler um conto seu.
– A possibilidade é pequena, concordo.
– Os caras que poderiam gostar de um conto seu já morreram. Eu diria, há muito tempo.
– Eu esqueci que estou falando com a Morte. Mas eu queria o reconhecimento do meu ta-lento.
– Você não precisa disto. Você sabe que tem talento. Você reconheceu e basta.
– Eu queria que outros soubessem.
– Aí você tem que arranjar uma entrevista com o Bial ou com a Cissa Guimarães.
– Nunca vou conseguir. Eu não tenho apelo midiático! Desculpe esta palavra tão escrota.
– Se você vier comigo eu posso conseguir uma entrevista com o Jô.
– Deixa pra lá. Está bom assim.
– Talento não tem nada a ver com reconhecimento. Você sabe quantos quadros Van Gogh vendeu em vida? Apenas um. Não reconheceram o talento dele em vida. Hoje um quadro dele vale mais de cem milhões de dólares. Se o tivessem reconhecido em vida, ele teria vivido como um jogador do Real Madrid. E iria cortar a orelha com o Ivo Pitanguy. Talvez a sua morte lhe traga o reconhecimento.
- Prefiro vivo e ignorado. Escrevendo meus contos.
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– E as minhas coisas? – lembrou-lhe o cavalheiro. – Como vão ficar?
– Que coisas?
– As minhas coisas. Tudo o que eu tenho?
- O que é que você tem?
– O que está aqui. Roupas, computador, quadros, móveis, objetos...
– Você não seguiu o conselho de Jesus Cristo. Passou tanto tempo estudando o cara, e não seguiu os seus conselhos.
– Que conselhos?
– Vários. Veja este: “Não acumule para você tesouros que a traça e a ferrugem destroem, e os ladrões furtam. Além disso não seguiu o conselho do Frommer.
– Quem é esse?
– Porra! Não conhece o Frommer. Autor dos guias de viagem. Do “Europa por cinco dóla-res por dia” “Leve em suas viagens somente com você o que puder carregar com uma das mãos.”
– O meu violão! Que vai ser dele?
– Quem tocou nele? O Segovia , o Pujol ?...
– Claro que não! So eu toquei!
– Quanto custou?
– Quatro mil reais?
– Porra! Isto é violão de série. Nem é ao menos um violão de estudo, feito por um luthier? Não vale nada! Só tem valor afetivo, e para você. Quando você morrer, terá somente o valor de face.
– Ele tem a minha energia. Eu me preocupo que seja de alguém que vá tratá-lo bem.
– Em pouco tempo não terá mais a sua energia. Vai esvair-se no éter. Agora é tarde. Devia ter pensado antes. Doado para alguém.
– Mas eu toco nele. Como ia doar.
– Garanto que quando você morrer não vai mais se preocupar.
– Mas não há uma outra vida?
– Isto não é meu departamento. O meu departamento é o “Ministério da Morte”. O “Mi-nistério de Outra Vida” é com outro ministro. É como Ministério da Cidadania e Ministério da Pesca. Não tem nada a ver um com o outro.
Mas não tem um cara que comande estes ministérios.
– Tem. Mas está sempre de porre.
– É Deus?
– Não! É o Ministro Chefe. O Primeiro-Ministro
– Mas como eu vou saber da vida após a morte?
– Pede uma audiência com o outro ministro.
– Você está me sacaneando! Isto é hora de brincadeira?
– Por que não? Eu não posso me divertir um pouco?
A Morte estirou-se no sofá.
– Minha atividade é cansativa. Hoje está tranquilo. Dia de frila. Mortes no varejo. Nos di-as de hospitais é foda. Muito trabalho. CTIs, enfermarias de oncologia, de diabetes, acidentados... não para! E nas guerras? É morte por atacado. Acabo o dia exausto.
– Por que você não muda de atividade.
– Não posso. O mundo precisa de mim.
__________
– Mas existe uma outra vida?
– Não sei! Só sei que para você, hoje, não existe outra Morte.
– Eu não posso morrer. Eu estou começando a entender o mundo, meus sentidos, minhas intuições. As cagadas que eu fiz. Estou começando a conhecer a natureza das coisas. Tudo o que define o ser humano, os animais as plantas, os minérios, o absurdo original, os enigmas, as ver-dades mais altas e os monumentos erguidos em seu louvor. Tudo isto eu vi. Eu vi coisas que as pessoas não vão acreditar. Cada vez entendo mais a minha vida. Eu não posso morrer sem saber a lógica do final. Será como não ler o último capítulo de um livro da Agatha Christie.
– Daqui a pouco você vai dizer que não pode morrer porque viu naves de ataque em chamas perto de Orion, e Raios C brilhando no escuro perto do Portão de Tannhäuser.
– Lá vem você me sacaneando. Isto é a morte do Batty, no “Blade Runner”.
– Foi a melhor visão que eu vi do que é morrer. Eu, que não sou disso, que já vi tudo quan-to é tipo de morte, chorei nesta sequência do filme. Quando ele diz que tudo vai se perder como lágrimas na chuva. Que bonito!
– Agora estou vendo como você é triste e solitário!
– Sim! Você começou a me entender.... Eu tive uma ideia.... Você é um cara legal. Vem comigo!
– Morto?
– Sim, claro! Poderemos conversar enquanto tiramos as vidas.
– Não! O que você faz é terrível!
– O que eu faço é de utilidade pública. Imagine se não tivesse morrido ninguém. Que nin-guém morresse. O seu planeta seria pior do que o Metrô do Rio às seis horas da tarde. Todo mun-do junto, suando, sarna, chulé, cheiro de cecê, de peido. Os católicos dizem que vai ser assim, depois do Juízo Final. Todo mundo vai ressuscitar, com seu corpo.
– Mas vai ser no Céu e no Inferno.
–Ah! É verdade. Eu tinha me esquecido...–Venha comigo. Como voluntário.
– Não gosto do que você faz. Você não apenas ceifa as vidas. Você acaba com a memória. As pessoas morrem e levam a sua memória. Há vinte, trinta anos, parecia que as coisas iam se ajeitar. Acabou a Guerra Fria. Derrubaram o Muro de Berlim. Agora voltou tudo. Esqueceram da Primeira Guerra Mundial. Da Segunda Guerra Mundial, do Vietnã. Esqueceram dos hippies. “Paz e Amor”. “Faça o amor, não faça a guerra”. O Movimento dos estudantes de 1968. Da queima dos sutiãs. Era tão bonito ver aqueles peitinhos.... Daqui a algum tempo, isto tudo será uma lembrança vaga, como as Cruzadas, o Diretório francês. Quando eu morrer, ninguém vai se lembrar da Maria Alcina, cantando “Fio Maravilha” no Maracanãzinho. Da dança do Tony Tor-nado, cantando “BR 3”
– Está tudo no “You Tube”.
– Mas ninguém vai procurar. Um dia tiram de lá.
– Veja só como eu sou injustiçado! Que culpa tenho eu que a Maria Alcina e o “Fio Mara-vilha” não vão ser lembrados depois que você morrer. Quem lembra são os vivos. O Mozart é lembrado.
__________
– Por que você quer viver para sempre? Argumentou a Morte. Lembra do Charlie Cha-plin:
...o ideal que sempre o acalentou
Renascerá em outros corações.
– É verdade! Mas quando eu escuto estes versos, eu me sinto um zero. Outros virão fazer a mesma coisa que eu fiz.
– E melhor! – debochou a Morte.
Depois amenizou o comentário.
– Você não é um Zero. – consolou. – Você é relativamente importante. Todo o mundo é importante. È uma questão de proporcionalidade.
– Qual é a proporção?
– Um para oito bilhões. A população mundial. – continuou com sarcasmo.
– Não é muito, não acha?
– O problema é de vocês. Da sua vaidade. Uns se acham melhores que os outros. Se serve de consolo, você já superou outros duzentos milhões de competidores.
– Como assim?
– Na vagina e no útero de sua mãe. Na corrida de espermatozoides.
– Eu dei sorte. Estava no lugar certo, na hora certa. – Entrou no tom de pilhéria o cava-lheiro, com uma gargalhada.
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– Já que nada tem importância, e este conto vai embrulhar carne, daqui a um tempo. Va-mos esclarecer uma coisa. Aqueles versos que você falou, não têm nada a ver com o Charlie Chaplin, são do Braguinha. Dançou nessa.
– Vamos lá. Eu lhe prometo uma morte sem dor. Eu já lhe ofereci uma morte eterna, e vo-cê esnobou. O seu tempo acabou. Dê lugar para outros. Tem muitos contistas melhores que você chegando aí. Com mais cara de pau para enfrentar uma entrevista de televisão. De se inscrever paro Prêmio Jabuti.
– Você é cruel! Não precisava esculhambar.
– Eu não sou cruel. Sou verdadeiro. A morte é muito melhor que o nascimento. Você já pensou que morrer é melhor do que nascer? Já pensou na violência e brutalidade que é o nasci-mento... ninguém fala nisso. As pessoas esquecem o que foi o seu nascimento. Você é arrancado de um mundo de paz, de conforto, e é jogado aqui, neste mundo de merda, de atrocidades, de ignorância, de violência. E tem que enfrentar este mundo e receber as pedradas com que a Vida te alveja.
– Golpe baixo. Me convencer com Shakespeare.
– É a verdade. Morrer é uma consumação a ser desejada. Nunca mais sofrer infortúnios, deixar a loucura que é este mundo, não ter que sofrer opressão destes governantes de merda, as afrontas dos idiotas, o desprezo das pessoas que você amou, não ter que obedecer a leis estúpidas, não ter que esperar que seus méritos sejam reconhecidos, não ter que trabalhar para ganhar o sustento. E ainda poder sonhar que existe outra vida, que seja melhor.
– Não vai me convencer. Ninguém voltou de lá para me convencer que existe outra vida.
– Olha! Eu gostei de você. Vou lhe deixar viver. Mas saiba que o tempo regulamentar já terminou. Está na prorrogação. Não haverá disputa de pênaltis. Se tiver mais um lance a seu fa-vor, aproveite, que será o último. Veja se termina este soneto que você inventou para tentar me passar para trás.
– Vou escrever mais um conto. Você me inspirou.
– Nos veremos de novo.
A Morte levantou-se, dirigiu-se à porta. Saiu e fechou-a atrás de si.
––––––––––
ÉPITAPHE
Gérard de Nerval (1808-1855)
Il a vécu tantôt gai comme un sansonnet
Tour à tour amoureux insoucieux et tendre,
Tantôt sombre et rêveur comme un triste Clitandre.
Un jour il entendit qu'à sa porte on sonnait.
C'était la Mort ! Alors il la pria d'attendre
Qu'il eût posé le point à son dernier sonnet ;
Et puis sans s'émouvoir, il s'en alla s'étendre
Au fond du coffre froid où son corps frissonnait.
Il était paresseux, à ce que dit l'histoire,
Il laissait trop sécher l'encre dans l'écritoire.
Il voulait tout savoir mais il n'a rien connu.
Et quand vint le moment où, las de cette vie,
Un soir d'hiver, enfin l'âme lui fut ravie,
Il s'en alla disant : " Pourquoi suis-je venu ? "
_____
EPITÁFIO
Tradução livre
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