Contos

SALOMÈ

do livro "Mulheres da Bíblia. Contos Imorais"

Por Silvio Colin 06 de setembro, 2026
<p>SALOMÈ</p>

SALOMÉ


A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar,
Com grande satisfação de Herodes e de seus convivas.
Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres que eu te darei.
E jurou-lhe: “Tudo o que me pedires te darei,
Ainda que seja a metade do meu reino.” 



O nome completo, de escritura, era João Baptista dos Santos. Baptista, com “p”, e não simplesmente Batista, porque o escriba ainda não havia aderido a qualquer acordo ortográfico existente entre países de língua portuguesa desde a morte do seu avô, em 1933. Fora o velho quem lhe ensinara as primeiras letras. O velho escrivão praticava poemas. Neles escrevia “ella”, “scismar”, “crystallino”, “lyra”, “donzella”. Na sua função de escrevente juramentado, registrava nas certidões nomes como “Theóphillo”, “Víctor”, “Euclydes”, “Thays”, “Hellena”. E que ninguém viesse com nomes estrangeiros, tipo “Washington”. Arranjasse outro nome ou outro cartório. “Elizabeth” seria registrada “Izabel”. “William” ficaria mesmo Guilherme. “Richard”? “Christopher”? “Edward”? Nada disso! Mesmo se os pais fossem ingleses ou americanos. Assim ficou Baptista. Para a comunidade era Pastor João. Para os muito íntimos, Bap.

Desde criancinha, colega de Heron, ele foi soldado do tráfico junto com o amigo. Na ocasião, queria ser chamado de Johnny-O, com “ô” fechado. Um dia as coisas ficaram feias com a polícia. Seu amigo Heron foi preso, e ele conseguiu escapar. Conta que nessa noite teve um sonho. Começou lindo, apenas com cores que dançavam aos seus olhos. Poeira de estrelas luminosas e muito coloridas, até que a poeira de estrelas ficou pálida, mas no centro havia agora uma forte luz branca. Recebeu uma mensagem para abandonar as atividades criminosas, ou morreria aos 27 anos. Sumiu do mapa. Voltou alguns anos depois, transformado. Cabeça raspada, apenas com um longo rabo de cavalo, que, às vezes, trançava; barba comprida dividida ao meio. Tudo o que se espera da aparência de um avatar, um ser com uma mensagem divina. Fundou, na comunidade, uma igreja: “Anjos do Apocalipse”. Andava sempre vestido com um camisolão longo, vermelho, preso na cintura com uma corda e uma delicada manta de cor bege, forrada de verde, com acabamento requintado. No pescoço, um cordão de aço, dele pendendo um anjo, uma pequenina espada colubrina, aquela de lâmina sinuosa, e uma cruz latina.

Não era ele mesmo, um teólogo, ou um místico, ou mesmo um crente. Mas convencia os outros, os seus “fiéis”, de que era tudo isso. Adquiriu certo conhecimento da Bíblia, que bastava para os seus sermões. Gostava mais das partes ameaçadoras: as do Apocalipse, dos profetas e dos evangelistas.

– “A grande meretriz inebriou os habitantes da terra com o vinho de sua luxúria”...  “Os anjos do Apocalipse irão derramar sobre a terra as sete taças da ira de Deus”... “Todos os que fazem o mal serão lançados na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes”...

Gostava também de falar da importância dos dízimos. 

– Diz Malaquias: “Pagai os dízimos para que haja alimento na minha casa.”... Está no Levítico: “O dízimo é sagrado, santo. Ele pertence a Deus. Não damos o dízimo, mas sim devolvemos o que é de Deus.” ...  Diz Paulo, em Coríntios: “Vocês não sabem que aqueles que trabalham no templo alimentam-se das coisas do templo? ” 

Levava seus sermões escritos, pois era ruim de improvisos. Quando improvisava, às vezes cometia gafes e se enrolava para corrigi-las. No geral, era convincente e respeitado. 

Não tinha muita paciência para o contato direto com os fiéis. Estes o aborreciam com problemas corriqueiros, brigas de família, crises de fé etc. Fingia estar muito atento, ficava em silêncio, depois buscava um provérbio bíblico relativo ao caso em questão e, às vezes, até inventava um. “Cabe ao homem fazer projetos, mas cabe a Deus realizá-los”... ”O adúltero cria um grande problema para si, e será punido”... “Perdoa e será perdoado”...  “Cuidado com as pessoas dissimuladas” ... “Deus não gosta do orgulho, da arrogância e da boca mentirosa”... Depois novo silêncio, e despachava a criatura: “Vai. E Deus estará com você! “

Algum tempo depois criou um grupo de conselheiros e afastou-se completamente desse aborrecido contato direto. Somente aparecia nos dias de culto. 

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Heron, colega de Bap desde a infância e dos primeiros delitos no tráfico, cumpriu dois anos de cadeia e lá conheceu um importante magnata do Jogo do Bicho, que estava cumprindo seu ano sabático. Esta amizade o fez donatário de uma expressiva área da contravenção, na Baixada. Não era o principal das macrorregiões, era um meeiro, cinquenta por cento, mas isto bastava para fazê-lo rico, poderoso, respeitado e temido. Governava sua capitania com mão de ferro e comandava uma milícia eficiente. O nome, Heron Domingues de Souza, obviamente, era uma homenagem da mãe ao radialista que foi a voz do “Repórter Esso” na Rádio Nacional por 18 anos.

Os dois, Heron e Bap, eram os dois maiores poderes da comunidade, cada um a seu modo. Ambos muito populares: o pastor João, para as coisas espirituais, e Heron, para as coisas da matéria. 

A par disso, havia a escola de samba Primavera da Baixada, cujo presidente, Dino Coice de Mula, acumulava as funções de segundo de Heron. A escola dependia de aportes financeiros para sua existência. Mas nunca conseguia nada melhor do que continuar no grupo de acesso número dois. 

Com a prosperidade dos seus negócios, Heron prometeu a Dino que este ano seria diferente. Iriam para as cabeças. Acesso ao Grupo I era a meta. Despejou dinheiro e contratou o carnavalesco Quintão. Este vinha qualificado. Tinha trabalhado com Joãozinho Trinta e Laíla. Dizia até que, quando criança, vira Arlindo trabalhar, fascinado que era pelos barracões das escolas de samba. Dino, como presidente, Quintão, como carnavalesco, e Heron, com a grana, fariam da Primavera da Baixada uma grande escola de samba.

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Tieta, ou, por completo, Tieta da Baixada, para diferenciar da outra, era casada com Bap. Amigada de fé, melhor dizer. Foi o único nome que encontrou para se livrar do nome de batismo: Erotides. Quem pode dar um nome deste para uma criança? Chamavam-na de Tide, que ela não gostava. Era nome de homem. Erô? Não dava, né? Até que viu a novela “Tieta do Agreste”. Achava que tinha tudo a ver com a Betty Faria.

– E com a patifaria! – repetia ela, às gargalhadas, quando contava a história de seu apelido.

E pegou. Vinte anos atrás fora a moça mais cobiçada da comunidade, destaque da escola. E vendia caro a sua companhia. Teve uma filha, Salomé. O pai? Quem pode saber? Mas estava namorando um judeu e pediu a ele para sugerir um nome: Salomé, que vem de “shalom”,“paz”, em hebraico. Pronto. Vai se chamar Salomé. Terá paz e trará paz aos outros. Caprichou na genética. Hoje, a menina, com dezessete anos, era ainda mais bela do que ela fora.

Salomé era a dança em pessoa. Aos três anos já era a “gracinha” da casa e divertia a todos sambando. Não apenas sambava. Também fazia passos complicadíssimos de street dance. Mas seu grande sonho era o balé de palco, clássico e moderno. Cansou de pedir à mãe para colocá-la em uma academia, mas a mãe não entendia. “Ora! Dança é samba. E pronto!”  Salô tinha, na escola, uma professora que estudava balé clássico. Mostrava-lhe os fundamentos. Chegou a levá-la, com o consentimento de Tieta, para assistir a ensaios e apresentações. Salô ficava fascinada.

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O início da paixão de Bap e Tieta foi uma chama infinita enquanto durou. Foram viver juntos. Hoje, mais de uma década depois, ela ainda ostentava o porte de nobreza de Madame Pompadour, mas perdera outros atributos que a fizeram a número um. E continuava a sair como destaque na Primavera da Baixada, devido ao seu prestígio.

Bap não comia o seu mingau tão quente quanto o cozinhava. Embora pregasse, como Pastor João, os horrores do castigo para o adúltero, ele mesmo nunca foi fiel. Dava suas escapadas. Como vingança silenciosa e absolutamente secreta, ela pagava na mesma moeda, de vez em quando. Mas era menos frequente.

Nos últimos tempos, entretanto, Bap apenas se esquecera dela. Daquele fogo inicial, nada mais restava. Heron ficou sendo o ombro amigo de Tieta. Com o coração apertado, ouvia suas queixas. Era apaixonado por ela desde outros tempos. Viveu anos no desconsolo, num embate interno entre seu grande amor e a fidelidade que devia ao amigo. Mas não ousaria traí-lo.

Bap e Tieta ainda partilhavam a mesma casa, a mesma cama. Estavam juntos nos cultos e nas ocasiões importantes. Mas não tinham mais nenhuma intimidade. Ela sabia que era traída com frequência. Brigava com o marido. Cobrava dele. Ele não respondia. Mas Bap achava que aquilo estava ficando chato. À medida que o poder e prestígio como pastor cresciam, cresciam também a sua vaidade, seu desrespeito e sua intolerância a tudo que não fosse a sua vontade.

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Tieta estava cada vez mais rejeitada e deprimida. As amigas procuravam distraí-la, mas nada era muito eficiente. Naquele dia iriam fazer compras no shopping. Mas Tieta, no meio do caminho, mudou de ideia. Estava triste, sem forças. Despediu-se das amigas, tomou um táxi e voltou para casa. Queria apenas dormir uma semana inteira. Ao abrir a porta do quarto viu o inesquecível e horrendo quadro. Bap, na cama com uma mulher, fazendo um sexo bravo, violento, intenso. Quando a viram, os dois levantaram-se e ficaram de pé, um de cada lado da cama. Ninguém sabia o que fazer por alguns instantes. Quando conseguiu falar, Tieta disse perplexa:

– Na nossa cama? Você perdeu o respeito? 

Xingou-o de todos os nomes que lembrou: bandalho, indecente, indigno, canalha, cínico, devasso, depravado, sórdido, filho da puta... Para a mulher: piranha, puta, rameira, marafona, cadela, quenga, mundana, vadia...

Mais do que os nomes, o que foi irritando Bap foi o descontrole e os gritos de Tieta. Estava enfurecido.

– Por quê?... Por quê? – gritava Tieta.

– Por quê? – enfureceu-se Bap.

Rasgou-lhe a blusa.

– Olha os seus peitos! Olha os peitos dela!

Levantou-lhe a saia.

– Olha as suas coxas! Olha as coxas dela.

Foi até a mulher e virou-a de costas.

– Olha a bunda dela! Olhe a sua bunda!

Ela desatinou de fúria. Partiu para cima dele e começou a socá-lo. No princípio, Bap apenas se defendeu; depois reagiu. Deu-lhe um tapa na cara. Outro tapa. E outro. Tieta caiu no chão, chorando, em desespero. Ele a chutou várias vezes. O choro de Tieta era desatinado. Subitamente parou. Recompôs-se, com as mãos segurando a blusa rasgada. Levantou-se e o encarou, com os olhos vermelhos de ódio. Disse lentamente:

– Eu... vou... matar... você!

Bap não era medroso. Não poderia ser, com a vida que levava. Mas pela primeira vez sentiu, no ódio que irradiava dos olhos de Tieta, que ela o faria. Ele estava condenado. E vacilou. Ela sentiu que o atingira. Repetiu.

– Eu vou matar você por isso!  E saiu.

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Bap ficou perturbado. Não sabia o que fazer. Poderia mandar matá-la. Era a única saída. Mas alguma coisa lhe dizia que não teria êxito. Tieta foi ter com Heron, que a acolheu. Ficou indignado com o que o antigo parceiro fizera. Ele amava e respeitava Tieta, e ela merecia tratamento melhor. Deu-lhe, de imediato, uma casa já mobiliada e o apoio que necessitava.

Na noite daquele acontecimento, Bap não conseguia dormir. Tomou quatro comprimidos de sonífero. No meio da noite teve um sonho. Começou do mesmo jeito que o outro, cores que dançavam aos seus olhos, poeira de estrelas luminosas e muito coloridas. Depois, a forte luz branca, luminosa e pulsante.

– João Batista! – falou uma voz grave e ligeiramente reverberante, e a luz pulsava a cada som emitido.  – O que você fez da sua vida?

– De quem é essa voz? – perguntou Bap, apavorado. Não obteve resposta.

– Você está com medo?

– Sim! Estou! Estou!

– Você sabe por que está com medo?

– Não! Eu nunca tive medo!

– Você está com medo porque ultrapassou o seu limite. E não pode mais voltar.

– O que eu posso fazer para ser perdoado, para desfazer o que fiz.

– O que está feito, está feito.

– Ela vai me matar?

– Olhe para a sua vida, não para sua morte.

– O que devo fazer?

– Você saberá.

– Ela vai me matar? – repetiu ele.

– A morte virá, para você e para todos.

Aos poucos, a luz foi esmaecendo e o sonho terminou.

__________

Nos dias que se seguiram, Bap ficou diferente. Calado, reflexivo, distante. Não sabia mais como atuar. Suspendeu os cultos e trancou-se. Voltou uma semana depois. Os mais chegados ficaram sabendo de tudo. Os outros fiéis sentiram que algo havia mudado no tom de seus discursos. Começou a falar em perdão, em compaixão, em piedade. Chegou até a cruzar com Tieta e pediu sua atenção. Ela respondeu cuspindo-lhe na cara, na frente de outras pessoas. 

_______

Hoje seria um dia importante. O ensaio para escolher a madrinha da bateria. Heron era o presidente de honra do júri. Tieta estava ao seu lado, mas não iria votar. Declarou-se impedida porque sua filha era candidata. Aprendera isso com os ministros do Supremo Tribunal Federal. Mas sentou-se na banca. Os outros componentes do júri eram da velha guarda da escola. Dez ao todo.

As apresentações seriam de sete minutos e havia doze candidatas. Destas, seriam escolhidas três para uma segunda apresentação. Era tudo uma mesmice. Todas muito belas e competentes, com fantasias temáticas originais:  Guerreira, Iansã, Oxum, tigresa, Cabocla Jurema, cigana, todas inspiradas em enredos de grandes vencedoras do Grupo Especial. 

A apresentação de Salomé foi diferente em tudo. Quem viu, viu; quem não viu jamais verá.  Chegou sem fantasia. Nada de miçangas, paetês, plumas. Vestia uma malha bege. Descalça. Cabelos presos, com rabo de cavalo. Sua fantasia era a do espírito, não a da matéria. Uma fantasia que apenas uma garota pobre da cidade pode conhecer, procurando seu lugar no mundo. Estava também na mente daqueles que a assistiram: a fantasia do desejo erótico. 

Havia combinado com o Mestre da bateria. Oito compassos apenas com o surdo de segunda, marcando o ritmo como a batida do coração: pum, pum... pum, pum... pum, pum...  Aí é somente para quem sabe muito. O corpo estático, apenas os pés marcando o samba. Depois a perna, o joelho, os quadris, a cintura. Parecia que o samba estava subindo pelo seu corpo. No oitavo compasso, a chamada do repinique, e entrava o tutti da bateria. Pediu para que não levasse muito rápido e fosse aumentando a velocidade, mas não chegasse ao máximo. Faria duas paradinhas de oito compassos, como no início. E assim foi.

Quando a bateria entrou toda, o que se viu foi uma explosão de sensualidade, de beleza: todos os passos possíveis, viradas, requebros, rebolos, giras, passes laterais, e a visão mágica de um corpo, apenas um corpo, vestido com uma malha, sem outras vestes para esconder ou ampliar os movimentos. Veio a primeira paradinha. Oito compassos sem samba, somente o surdo de segunda. Pum, pum... Pum, pum... Com street dance, o corpo se desconjuntando e se recompondo. A chamada do repinique, e volta o samba, mais intenso e mais sensual. Veio a segunda paradinha. Oito piruetas de balé clássico, em meia ponta, com os braços à altura dos ombros. E o samba voltou apoteótico, depois da última chamada do repinique.

Heron ficou magnetizado desde o primeiro minuto. Disse a Tieta.

– Eu quero essa mulher na minha cama hoje!

Tieta ficou indignada.

– É minha filha!

Heron ficou calado, atento à dança e pensativo. Repetiu:

– Eu quero essa mulher na minha cama hoje!

Tieta retrucou, revoltada.

– É uma menina!

– Não estou vendo nenhuma menina! – disse Heron, entre dentes.

Décadas de convívio com esses chefões ensinaram algumas coisas a Tieta. Uma delas é que, possuídos pela vaidade, pela prepotência, quando eles manifestam um desejo, irão realizá-lo, fazendo o que for preciso fazer. 

Heron suplicou, em outro tom. Como uma criança.

– Eu darei o que você pedir para colocar esta mulher na minha cama. 

Tieta engoliu em seco. Refletiu e disse.

– Vou falar com ela.

___________

– Mamãe, você não pode me pedir isso. 

– Minha filha, você é muito nova. Você não sabe o que é o desejo destes homens. É preciso saber lidar com isto.

– Mamãe! Eu sou virgem! Eu quero dar a virgindade a um homem que eu ame.

Tieta olhou com ternura para sua filha. É um sonho de menina. Ah! Os sonhos de menina! Você não precisa se preocupar em desfazê-los. A vida fará isso melhor que você. Segurou a filha pelos ombros e olhou no fundo dos seus olhos:

– Você é virgem e continuará virgem. Ele quer você na cama dele. É isto que eu estou pedindo. Nada mais que isto.

__________

Tieta voltou a sentar-se ao lado de Heron. 

– Ela estará na sua cama.

Ele sorriu. Um sorriso que durou pouco. Durou até ele engasgar com o uísque ao ouvir o pedido de Tieta. 

– Eu quero que você mate o Bap. Hoje! Você disse que daria o que eu pedisse. Ela estará na sua cama. Ela irá com os pezinhos dela. Depois que você matar o Bap.

Heron pensou: “Ela foi humilhada. Está com ódio. Este ódio não passa. O Bap não podia ter feito o que fez com ela. Mas... Nossa velha parceria. Os anos no tráfico. Um defendendo o outro... Mas eu prometi. Eu prometi que daria o que ela pedisse. Quanto vale a palavra de um homem? ”

__________

Veio o resultado do júri. As três classificadas: Dorinha, mulher de Dino Coice de Mula, presidente da Escola; Viviane, passista de responsa e Salomé. As três fariam agora a nova apresentação para a escolha final. Salomé foi a primeira. Repetiu o mesmo desempenho. Ao vê-la novamente, com aquela pulsação erótica, o desejo de Heron se reacendeu. Chamou Dino e disse-lhe ao ouvido:

– Mate o Bap!

Dino ficou perplexo.

– O quê?

– Você ouviu. Mate o Bap.

– Mas chefe?...

– É uma ordem! Agora! – gritou.

Ordens não se discutem. Executam-se. É a lei. Dino se retirou, confuso e pensativo. “Ordens não se discutem...“

____________

Chegou o grande momento. O resultado final. Foi Heron a proclamar o resultado. Abriu os envelopes de cada membro do júri. Contou. Pegou o microfone e declarou: 

– A nova Madrinha da Bateria da Escola de Samba Primavera da Baixada será... Dorinha Rodrigues. 

Gritos da vencedora. Aplausos. Algumas vaias. Com lágrimas nos olhos, ferida de decepção, Salomé cumprimentou com um abraço a amiga vencedora.  Dorinha a abraçou e disse ao ouvido:

– Você é a melhor! Esses caras não entenderam nada.

Salomé se retirou. Chorava muito. A mãe foi atrás dela. Tieta não falou nada. Apenas a abraçou e ficou com ela.

– Eu quero que esta noite acabe logo – disse Salomé.

– Eu também.

__________

A programação da noite previa que todas as candidatas iriam dançar o samba-enredo no palco, ao som da bateria e cantado pelo puxador. Um grande momento. Dorinha à frente. Salomé não estava lá. O ensaio da Escola continuou. A bancada se desfez, e Heron e Tieta foram para a mesa de honra. Às duas da manhã, com o ensaio já arrefecendo, chegou Dino e colocou na mesa, em frente a Heron, uma bandeja com o colar de aço de Bap, com o anjo, a espada colubrina e a cruz. Estava manchado de sangue.

– Está feito – falou Dino, azedo.

Heron olhou aquilo alguns segundos. Pôs a mão no peito. Pediu ajuda para levantar-se e foi ao banheiro. Vomitou no vaso. Custou a erguer-se, recompôs-se como pôde e voltou para a mesa. Com a fisionomia séria, serviu-se de uma dose dupla de uísque. E virou-a de um gole só.

Tieta não sabia o que sentia. Mas não era uma coisa boa. Ficou em silêncio o resto da noite, assim como Heron. 

__________

Coração de mãe não se engana. Salomé entrou na suíte de Heron, como havia se apresentado no palco, descalça, de malha bege. Com o coração na mão. Heron estava deitado. Olhos no teto. Na mão direita, como que segurando um terço, o cordão de aço de Bap. Completamente derrubado pela bebida e pelo sofrimento.  Uma lágrima descia pelo rosto. Salomé pensou: “A mamãe tinha razão. Esse cara hoje não tira a virgindade nem de uma galinha”. Ele a queria na cama dele, naquela noite. Ela deitou-se ao seu lado. Heron olhou para ela:

– Você é tão linda! 

Fez uma cara de dor, apertou o peito e adormeceu.

Sonhou com Bap. A figura assustadora do ex-companheiro. Brandia sua espada colubrina, olhava-o com ódio e rancor. Falou com uma voz rouca e feroz:

– Hoje você vai morrer para os homens. Mas a minha maldição o perseguirá até o fim do Tempo. Caminhará eternamente pelo umbral. Sentirá o remorso que agora está sentindo, em todos os momentos, pela eternidade afora. E não somente a minha morte, mas também a de todos os outros que você matou. Toda a crueldade que você praticou carregará na mente como um fardo pesado. Se arrastará na lama, sentirá frio e não encontrará agasalho. Sentirá calor e não encontrará refresco. E tudo isto você sofrerá sozinho, sem ninguém ao seu lado para compartilhar sua dor. Agora morre!

E, no sonho, enfiou a espada no seu coração.

No leito, ele se esticou e deu um grito de dor. Voltou a dormir.

Salomé estava cansada e adormeceu. Acordou com a claridade do dia. Olhou para Heron. Ele estava na mesma posição. Tentou acordá-lo. Tocou-o. Sacudiu-o. Só então percebeu que não respirava. Estava morto.  Deu um grito e saiu correndo. Dois homens foram ao quarto. 

A certidão de óbito registrou: “Morte súbita por infarto agudo fulminante”.

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Foi o dia mais triste que aquela comunidade viveu. No meio da quadra, os dois caixões. E um desfile lúgubre de pessoas que queriam ver pela última vez o seu guia espiritual e o seu líder. A maioria ali já tinha tido uma experiência de grande perda. Mas é uma dor que sempre se renova ao ver um corpo morto. A vida é múltipla, cheia de facetas, de cores, cheia de procedimentos para mantê-la, cheia de alternativas. Mas a morte é única, incolor, cabal, inquestionável. Para sempre.

A melancolia, a prostração, o desconsolo cobriram como uma nuvem escura aquele dia e envolveram a todos. Veio o enterro e um cortejo silencioso de volta para casa.

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À noite, durante o sono, Tieta foi visitada pela figura atemorizante, horrenda e furiosa de Bap, em sua versão apocalíptica.

– Você me matou. Não foram aqueles homens que me cortaram a garganta. Foi você. Por isso será maldita! Você será maldita pelo tempo que viver. Você será rejeitada e viverá isolada. Não terá tesão, com homens ou mulheres. Sua presença assustará os outros como um fantasma. Fugirão de você. De noite não conseguirá descansar. Não terá mais uma cama limpa e macia. E não esquecerá nem por um momento a sua covardia. Sua filha frequentará os mais sórdidos puteiros e andará com os mais canalhas entre os canalhas. Rirão dela e a desprezarão.

No sonho, Tieta lhe respondeu, furiosa:

– Deixe a minha filha fora disso, seu verme. Você é santo agora, para vir dizer maldições? Você é santo, Johnny-O? – Chamou-o pelo nome que tinha quando era do tráfico. – Sabe quando você será santo? Depois que você morrer sete vezes. A primeira, queimado, como tantos que você colocou no micro-ondas. Sabe quando você será santo? Depois que você morrer de faca, como tantos que você esfaqueou. E, em outra vida, morrer de tiro, como tantos que você matou. Sabe quando você será santo? Depois que viver uma vida humilhado por todas as mulheres que você humilhou. Sai do meu sonho, cafajeste escroto. Pensa que me assusta? Não fui eu que matei você. Foi você que se matou, no dia em que me humilhou daquela maneira. Não há mais vida para quem faz aquilo. Você já estava morto. Só faltava alguém para lhe cortar a garganta. Sai do meu sonho, que eu quero descansar. Porque agora, além da humilhação, eu vou ter que carregar a culpa, mesmo que seja pela morte de um ordinário desprezível como você.

No sonho, à medida que Tieta falava, a imagem de Bap foi esmaecendo até sumir por completo. E ela pôde dormir em paz.

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O desfile da Primavera da Baixada foi um desastre. A tragédia abateu todos na escola. Não havia de onde tirar animação. Salomé saiu na ala dos passistas, escondida. A madrinha, Dorinha, foi competente. Todos foram competentes. Mas competência não basta em uma competição. É preciso mais. É preciso um desejo insuperável de vencer. E isso a Escola perdera com a morte de seus líderes. Ficou em último lugar. 

Dino Coice de Mula não foi capaz de assumir a liderança da comunidade. Não era apenas o coice que ele tinha de semelhante ao de uma mula. A deriva, a comunidade se tornou presa fácil de aventureiros que lançaram a mão sobre ela. Sem comando, desapareceu a sua identidade. A Escola de Samba Primavera da Baixada desfilou por mais dois anos e depois virou um bloco carnavalesco: “A Primavera Vai Passar”. E a vida seguiu o seu curso.

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Silvio Colin

Silvio Colin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1970), é doutor em Teoria e História (PROARQ-FAU-UFRJ -2010) e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Departamento de Projeto de Arquitetura. É escritor, autor de dois livros: Uma Introdução à arquitetura e Pós-modernismo. Repensando a arquitetura, além de diversos artigos publicados em periódicos da área.

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