O RESGATE
I
FIM DE CASO
Aquilo não estava muito certo. Ou estaria? Sentado, em uma sala de espera, aguardando o diretor para uma entrevista. Umberto não via as coisas com clareza. Lembrou-se de uma quadrinha que seu pai gostava de recitar, quando ele era bem pequeno, imitando sotaque de português: “Bentar” não “benta”, sopa de “binho” não embebeda, o mar não urra. Que diabo que me empurra?” Nunca entendeu direito. Pedia explicação. O pai dizia que era sobre um marinheiro que estava bêbado e se recusava a aceitar que estava bêbado, no convés de um navio. Riam muito dessa quadrinha. Ele se perguntava onde estava a graça. Não via graça. Mas agora lhe vinha à lembrança. Sentia-se como o marinheiro. Por que essa tontura?
Odete, a secretária.... Tinha que forçar a vista para que sua figura se fixasse e seus contornos aparecessem nítidos. Onde estava aquele sorriso com que sempre o recebia? Por que essa cara estranha, de reprovação, evitando o seu olhar? O que ela estava vendo de errado com ele?
Havia algo de errado? Ora, apenas não se sentia muito bem. Tonteira.... Por que estava tonto? Teria sido aquele tira-gosto que não bateu bem. Possivelmente. Não se pode mais confiar em nada. Tudo caro. Aquele champanhe, que absurdo! Nem se lembrava mais quanto custou. Nem quantas garrafas tomou. Só sabia que era muito caro. Esse negócio de cartão de crédito. A gente nunca sabe quanto gasta.
Aos poucos ia se lembrando. Tinha uma mulher na sua cama. Uma mulher que não conhecia. Os lençóis, muito macios. Parecia seda. Pretos. Onde já se viu lençol preto? É lençol ou mortalha? Mas também nunca vira mortalha preta.
E aquele perfume que não saía de sua lembrança. Não era de boa qualidade. Certamente não era o Chanel nº5 da Marilyn. Tampouco a mulher era a Marilyn. Teve que vestir-se correndo. Já passava das nove, e a reunião com o Herval era às dez. Pegou um táxi mesmo. E agora ali estava.
A Odete, com um olhar sem graça. Que merda! Quem ela pensava que era para olhá-lo com aquele olhar de reprovação. Sua mãe?
O Herval.... Um galã de merda, nunca fez nada de bom, e agora se fazendo de todo poderoso. De onde ele tirou tanta arrogância? Não estava de todo acordado. Os olhos ainda insistiam em fechar. E foi cochilando que ouviu, como se viesse de longe, a voz feminina:
– Senhor Umberto.... Senhor Umberto.... – Depois o toque no ombro. – Senhor Umberto.
Despertou finalmente. Não de todo. Mas pôde ver, bem perto, o rosto de Odete, que lhe dizia:
– O doutor Herval vai atendê-lo agora.
Doutor Herval?... De onde ele tirou este “doutor”? Doutor em canastrice? Doutor em mau-humor? Em arrogância?
Levantou-se com dificuldade. Aquelas poltronas eram macias demais. Estava quase enterrado nelas. Precisou da ajuda da secretária. Apareceu no portal da luxuosa sala de Herval. Providencial portal, onde pôde se apoiar, para depois se lançar à cadeira, em frente à grande mesa de cristal, onde se sentou.
Herval olhava para ele com descaso. Talvez até desdém.
Umberto estava agora definitivamente desperto. O momento exigia.
– Umberto, fui incumbido da desagradável tarefa de lhe comunicar que estamos cancelando o seu contrato.
Era esperava que a notícia não fosse boa. Mas não esperava tanto.
Pensou demoradamente antes de responder. Encarou Herval. Fez uma panorâmica da sala com o olhar, virando-se para um lado e para outro, na cadeira giratória. Depois voltou a encarar Herval.
– Sério que você acha esta tarefa desagradável? Eu diria que não! Você deve estar saltitando como um palhaço, por dentro.
Herval não respondeu. Manteve-se frio. O queixo apoiado na não. Estendeu um papel para Umberto.
– Seria bom para ambas as partes que você assinasse.
Umberto repetiu, imitando-o:
– Seria bom para ambas as partes... – A adrenalina já o havia acordado de todo. –Não!.... Seria bom para a sua parte! Deve ter armadilhas aí, urdidas por um competente advogado de sua equipe. Não será assim que vamos terminar.
A esta altura, Umberto já havia dado uma nova panorâmica na sala. Desta vez procurava algo. Algo que pudesse tirar da cara de Herval aquela empáfia.
“Olha só! ”, pensou. Olhava, na mesa do centro, no conjunto de estar, do outro lado da sala. Uma ânfora de porcelana decorativa. Belíssima. Esmalte chinês, preta, com guirlandas douradas. Aproximou-se da peça. Devia ter custado uma nota. Pegou-a e levantou acima da cabeça.
Ao observar a reação assustada de Herval pensou: “Agora sim. Era essa a expressão que eu queria ver na cara deste otário: apavorado, quase suplicando que não fizesse aquilo”. Arremessou com força a ânfora, contra a parede. A peça quebrou-se em pequenos pedaços. Umberto bateu uma mão contra a outra, como se as limpasse depois de concluir a tarefa. Encaminhou-se para a porta. Herval ainda não se recuperara do susto. Ao sair, disse:
– Meu advogado vai procurá-lo.
––––
II
LEILOCA, A SAMARITANA
Durou pouco a satisfação de Umberto. Ao sair da emissora, ainda afetado pela ressaca, a realidade caiu sobre ele como um pesado bloco de pedra. Despedido, humilhado, deprimido, sem forças. Precisava de uma bebida. Algo que o ajudasse a esquecer de tudo. A tirá-lo daquela realidade.
O que se passou depois, ele nunca saberá. Nem desejaria. Lembrava-se apenas que começou a beber no bar do hotel: luxuoso, cafona, ridículo, cheio de brilhos.
Acordou, não saberia dizer quanto tempo depois, deitado numa calçada, antes do amanhecer, deitado. Ao seu lado, de joelhos, uma mulher jovem e bonita. Vestia uma saia curta de couro, e um top, também de couro, deixando boa parte do corpo exposta.
– Umberto! Umberto! Chamava com voz suave, a moça ao lado.
Ainda sonolento, viu a figura agradável e carinhosa da moça, tentando despertá-lo.
– Você me conhece? – perguntou, ainda com olhos pesados, semiabertos.
– Quem não o conhece no Brasil! Beto Sem Telha, Nelson Fragoso, Nino, Cacá. Todas as novelas. Quem não viu? Se eu o conheço?.... Tem graça! Venha. Eu ajudo.
Leiloca ajudou Umberto a levantar-se e a manter-se de pé.
– Posso te levar para o meu apartamento. É logo ali. Dá para ir a pé.
“Logo ali” era dez minutos de caminhada que, naquele estado de ressaca, Umberto não conseguiria percorrer, não fosse estar apoiado nos ombros da moça. Ela já estava exausta quando chegaram. Subir os dois lances da escada de madeira do edifício antigo de quatro pavimentos, foi a pior parte. Cansada, mas feliz, exultante de ter sobre os ombros o grande Umberto Sávio.
Já no apartamento, jogou o seu precioso fardo na cama. Com dificuldade, colocou-o na posição correta, na cabeceira, sobre o travesseiro. Tirou–lhe o paletó e descalçou os sapatos. Descansou um pouco e fez café. Ficou contemplando sua grande prenda, ali deitada. Quando poderia imaginar que teria em sua cama o grande galã, a grande fantasia de sua adolescência e juventude. Na sua cama, no bom sentido. Com todo o respeito.
Umberto acordou definitivamente apenas duas horas depois. Leiloca passou outro café, fresco, e lhe serviu. Ele agradeceu.
– Se você quiser tomar um banho...–Envergonhada explicou. –Só tem água fria. O chuveiro elétrico está pifado. Ainda não pude mandar consertar... eu, quando quero banho quente, é de balde. Mas eu posso ferver uma água... Que vergonha meu Deus!
Umberto pensou que precisava mesmo de um banho. Mas água fria não ia cair bem. Banho de balde? Na infância, em Sumidouro, tomava banho de balde. Penúltimo patamar da escala, quando a conversa é condição social. Pelo menos assim pensava. Por outro lado, dar este trabalho a Leiloca era dar-lhe uma história inesquecível. “Um Deus dormiu lá em casa... e tomou banho de balde”. Poderia contar para as amigas. E ela merecia alguma coisa dele. Naquele momento estava sendo tratado a pontapés pela vida. Há muito tempo não era tratado com aquele carinho, aquela deferência, se não pagasse.
– Banho de balde! – falou Umberto pela primeira vez, com delicadeza. Se você não se importar.
– Me importar? –Pegou uma toalha limpa e pôs nas suas mãos.
– Em tenho umas roupas aqui do Tony. Estão lavadas. – Depois de um silêncio, timidamente vexada – Toni é... era... o meu... Você sabe! Mas, não é mais. –
De repente, perdeu o entusiasmo.
– O que foi? Perguntou Umberto.
– Sabonete. Eu não tenho sabonete novo – exclamou Leiloca, envergonhada.
– Posso usar este. Se você não se importar. Acho que o sabonete também não vai se importar.
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III
A GIRA
Banho tomado, roupas do Tony, sentado na cama, observando Leiloca que o observava de volta. Os dois se avaliavam. Ele queria estar com Cândido, o único amigo de fé que lhe restara. Encontrou o celular. Ainda tinha o relógio, os cartões, dinheiro. Os ladrões possivelmente estavam de folga. Ligou para Cândido. Marcaram de encontrar-se à tardinha, e tomar um passe. Sugestão do amigo. A gira começava às seis.
Até lá, deu algumas horas para Leiloca. Foram ao shopping, compraram umas roupas para ele, e almoçaram em um “a quilo”. Na despedida, Leiloca chorou. Abraçou Umberto com carinho, encostou a cabeça do seu peito. Ele devolveu o abraço e o carinho.
– Eu quero que você fique com uma coisa minha – disse Umberto. Tirou o relógio e lhe deu. – Não mostre para qualquer um – avisou.
– Por quê? É caro?
– É...– disse Umberto. Não queria falar muito do relógio, para não deixar Leiloca sem graça. Era um Cartier. Ela pegou o relógio com as duas mãos e apertou contra o peito.
–––
Nunca havia estado em uma gira. Herdara da mãe o desprezo pela Umbanda, coisa de demônio. Mas o que viu foi um espaço que lhe fez bem. Aqueles pontos magníficos. Lembrava as músicas de Baden e Vinícius. E os atabaques. O ritmo forte, bem marcado.
Quando entrou no terreiro, descalço, para o passe, sentiu uma coisa estranha. A sua perna esquerda parecia obedecer ao ritmo dos atabaques. Tirava o pé do chão e a perna cessava de obedecer. O ritmo vinha do chão. Que estranho! Foi levado pela mão, por uma cambona, à frente de um passista. Era um senhor alto, a cabeça desproporcionalmente maior que o corpo, pele escura. Olhou demoradamente para Umberto. Dava densas baforadas no charuto, e apertava os olhos. A demora em falar incomodava.
– Como suncê tá? – falou finalmente o passista.
– Bem! – respondeu Umberto, sem graça.
Mais baforadas. Mais silêncio.
– Como suncê tá? – repetiu o passista.
Desta vez Umberto respondeu com os ombros, significando que não estava entendendo. Depois de mais baforadas e um tempo incomum de silêncio, o passista falou:
– Suncê disse que tá bem. Mas suncê num tá bem. Suncê tá mal. – E sorriu, inclinando a cabeça, como que dizendo “Estou certo? ”
Vexado, Umberto assentiu, balançando a cabeça e olhando para o chão. O passista chamou a cambona.
– Explica para este filho que ele tem que fazer resgate. Para ele vir falar com a Vovó.
– A cambona praticamente repetiu o que ouvira, explicando que a gira da Vovó seria no próximo sábado.
O passista deu-lhe o passe, com um banho de fumaça do charuto.
______
IV
LARA
Como chegou a este ponto? O problema de começar do topo, é que à frente só há a descida. Com dezenove anos chegou ao sucesso. Ainda desconhecido do público, foi arrasador no papel do jovem de classe média, vivendo um amor adolescente, em uma série de tevê – “Tempos de paz, tempo de Amor”–, e isto o levou ao topo. Média de 37 pontos no Ibope, durante três meses, no horário nobre. Depois, o contrato milionário. Protagonista de três novelas. O jovem pobre do interior do Rio de Janeiro jamais sonhara com aquilo.
Aí veio o romance devastador que viveu, na telinha e na vida real, com Lara. É fácil culpá-la pela sua queda. Todos o faziam, porque todos a odiavam, pelo modo que ostentava a sua beleza e liberdade.
Nos dez anos de relacionamento, o amor de Lara o destruiu. Eles se amaram com crueldade. Viveram o lado escuro do amor, qual dois vampiros, cada um vivendo do que sugava no outro. Poder-se-ia dizer que eram inimigos amantes. Ela queria dele a juventude, o elã vital, a força do novo, um estrogênio espiritual. Ele queria dela o que nunca poderia ter da mãe. Uma mãe transfundida de amante, uma Jocasta.
Lara sofreu também, mas já estava imune à destruição. A ele faltavam os anticorpos da maturidade, que nela sobravam, e sucumbiu. Infectado pelo amor de Lara. Sucumbiu na doença do amor, e foi para as drogas e o álcool. E agora, ali estava, no chão, como Leiloca o encontrara. Inconsciente, estirado, desprezado.
No quarto do hotel, pensava no que fazer agora. Ainda tinha a vida. A vida não o deixara. E ele repetia, com o fio de lucidez que ainda restava: “Eu não estou morto! Eu não estou morto! ” Mas, que fazer? Para onde ir? Não via até o limite do horizonte, um lugar que o aceitasse. Mas passar do horizonte seria abdicar da vida. Tudo era distância. Um lugar que não lembre nada daqui. Onde o céu não lembre a cor dos olhos de Lara, onde as rosas não lembrem os seus lábios. Onde encontrar paz e esquecimento. Para onde ir?”
V
O ABRIGO SEGURO
Aos poucos foi-se formando em sua mente a figura da mãe. Sim! A mãe lhe dera vida uma vez. Poderia dar-lhe outra vez. Por trinta anos a deixara de lado. Como pôde? Não tinha nenhum contato. Sequer o telefone dela. Isso foi o mais fácil de conseguir. Não tanto. As pessoas que conheciam sua mãe e que poderiam ajudar, ele também as esquecera. Teve que ouvir muita descompostura, muito ressentimento engarrafado foi lançado sobre ele, mas conseguiu.
–––
– Mãe! É seu filho!
– Umberto!
– Quem mais? Você tem outro filho? – forçou uma brincadeira.
– Onde você está, seu desnaturado?
– Estou em São Paulo.
– O que você está fazendo? Outra novela?
– Não, mãe! Eu estive pensando em passar uns dias com a senhora.
– Só um filho desumano, sem vísceras, pode fazer o que você fez comigo. Trinta anos. Seu perverso! – Percebeu que a mãe começava a chorar.
– Posso ir aí?
– Se não vier agora, não me procure mais. Quando você vem?
– Acho que em um dia ou pouco mais.
–––––
Chegou à tardinha na casa da mãe, em Sumidouro. Quando saltou do carro a viu, de pé, na varanda. Parecia ter estado ali, naquela posição, o dia todo. Ela o abraçou. Bateu nas suas costas, como que se certificando de que era real. Depois afastou-se. Segurou seu rosto com as mãos.
– Você está horrível! O que a vida fez com aquele menino bonito que lhe eu lhe dei?
Depois segurou a sua mão e o trouxe para dentro de casa.
– Eu fiz frango ao molho pardo para o almoço, mas você não chegou. Podemos tomar um lanche. Tem biscoito amanteigado. O frango a gente pode jantar.
– Tudo bem, mãe.
Naquele ambiente caseiro Umberto sentiu que a paz lhe voltava,. O ar, ali, tinha outro aroma. Observava a casa, os móveis, os retratos na parede e no console. Suas fotos de criança. A mãe tinha ajeitado muito bem sua vida. Por quanto tempo duraria aquele sentimento?
– A senhora vendeu o rancho?
– Eu tive que vender. Depois que seu pai morreu, eu não tinha como tocar aquilo. Comprei esta casa. Você nem veio para o enterro.
Umberto baixou a cabeça, envergonhado.
– Então, você não mora mais no campo?
– Não. Eu me mudei há dez anos.
Preocupada com a motivação daquela visita do filho, perguntou:
– Você está se escondendo? Quer que eu lhe esconda ou coisa assim?... Eu acho que poderia fazer isso... Você é meu filho, não é?
– Não, mãe! Por que eu devia estar me escondendo? Eu só preciso de um lugar para descansar um pouco.
– Você veio ao lugar certo. O lugar onde você nasceu e cresceu.
Foram jantar fora, m um restaurante de um amigo de sua mãe. Foi a hora de começarem a pôr as conversas em dia. Porém, Umberto foi ficando inquieto. Muitas pessoas o reconheciam e ficavam olhando. Em certo momento, explodiu:
–Que diabos você está olhando! – dirigindo-se a um rapaz que o encarava. –Vamos, mãe, vamos embora.
– Mas eu não terminei meu café!...
– Eu preciso tomar um ar.
Umberto se retirou atabalhoadamente. A mãe, a contragosto e envergonhada, o seguiu. Disse ao seu amigo, dono do restaurante:
– Você vai ter que desculpar meu filho. Ele perdeu as boas maneiras. Isso acontece com pessoas que se afastam muito de casa.
– Não se preocupe com isso, querida.
No caminho de volta, a mãe não parou de repreendê-lo.
– Grosseria é uma coisa que eu nunca consegui tolerar, Umberto. Eu não entendo grosseria.
– Eu sei, mãe, não foi nada. Acabou. O homem estava me encarando. É falta de educação ficar encarando.
– Bem, mesmo assim. Você não precisava ser grosseiro.
– Tá! Peço desculpas.
– É constrangedor, Umberto... simplesmente constrangedor.
– Me desculpe... Desculpe.
¬¬¬–––
– Então... Preparei um quarto para você. Espero que fique bem. Eu só não tenho todo o espaço que tínhamos na antiga casa da fazenda.
– Eu vou ficar bem, mãe. Eu vou ficar bem.
– Ah, é perto da cozinha e o banheiro fica logo no final do corredor. Então, se precisar de alguma coisa, é só gritar.
No quarto, deixado em um lugar bem visível, um álbum. A mãe havia feito um álbum de recortes: jornais, revistas, toda a sua vida documentada. No início, o sucesso. Depois, todas as notícias de escândalos.
Sua mãe não era daquelas de padecer num paraíso ou viver de lembranças. Tinha uma rotina bem ajustada. Era também uma boa anfitriã. Deixava-o à vontade. Saía, via televisão. Certo dia, quando chegou em casa, comoveu-se ao ver a mãe completamente entretida com a tevê, num programa de perguntas e respostas, interagindo com as cenas do programa.
Havia os momentos em família.
– Em que tipo de encrenca você está, Umberto? – A mãe voltou à carga, sempre preocupada.
– Encrenca? Ah, não há encrenca. O que você quer dizer?
– Aquela mulher com que você se envolveu? Brigas, preso dirigindo embriagado. Todos estes anos. Sempre uma notícia ruim.
– Estas revistas querem notícias, ficam procurando confusão. Eu só quero um pouco de paz.
– Um homem some por quase trinta anos, sem dizer uma palavra, e depois aparece na porta da mãe. Só pode ser algum tipo de encrenca séria.
– Não. Eu só precisava te ver, mãe.
– Eu entendo essa parte.
– Quer dizer, eu pensei que me faria bem voltar aqui e ficar um tempo, sabe.
– Você anda fazendo todas aquelas coisas que falam de você nas revistas?
– Que coisas?
– Sabe, essas coisas... tipo farras, prisões...
– Você sabe que as revistas são cheias de fofocas.
– Eu não dou a mínima para isso. Só estou curiosa.
– Não, eu não fiz nada... Eu não fiz nada daquilo.
– Porque... se você estava fazendo tudo isso, não é de se admirar que não esteja se sentindo tão bem.
– Eu me sinto bem. Só estou cansado. Eu não estava fazendo nada! É só que... as coisas surgiram e meio que foram se acumulando e...
– O quê, que coisas?
– Bem, você sabe... acontecem, imprevistos… às vezes as coisas se complicam.
___
Certo dia, Umberto saiu dizendo que ia tomar um pouco de ar. Voltou já amanhecendo, trazido por um policial, um amigo.
– O Umberto estava se divertindo um pouco além da conta ontem à noite. Não estava, Umberto? Fique de olho nele agora.
– Eu vou ficar. Deixe comigo.
A mãe procurava desculpar o policial.
– Para falar a verdade, eu mal o reconheci. Faz tanto tempo que não o vejo.
___
No café da manhã, as explicações.
– Você se divertiu ontem à noite?
Umberto deu os ombros.
– Ah!... eu não sei. Eu não sei mais o que fazer.
Umberto falou talvez pedindo um conselho da mãe, ensejando talvez que ela entrasse um pouco mais profundamente na sua vida. Ela respondeu com a sabedoria que poucos podem atinar.
–Você não vai comer seus ovos?
–Não. Não estou me sentindo muito bem.
–Bem, então passe o seu prato. Não faz sentido desperdiçá-los. Está gostoso.
–––
Mas foi em outro café da manhã que a conversa iria mudar o rumo de sua vida.
– É, por acaso você não tem nenhuma foto da sua pequena família, tem?
– Minha família?
– A criança. Sobre a qual você nunca me contou. Meu neto. Eu tive que descobrir pela pobre mãe dele, naquela época.
– Que criança?
– Agora não me diga que você a deu para adoção ou algo estúpido assim?
– Eu não sei de nenhuma criança.
– Você não sabe?
– Não.
– Como você ficou tão trapalhão, Umberto? Uma mulher veio aqui, anos atrás. Há muito tempo... veio aqui procurando você. Estava grávida. Dizia que você era o pai.
– O quê?
Umberto irritou-se. Era constantemente procurado, mesmo acionado na Justiça. Nunca os processos prosseguiam. Era tudo falso.
– Eu não engravidei ninguém! – disse rudemente.
– Não? – Depois de algum tempo, pensativa. – Eu acreditei nela. Parecia uma boa moça. Parecia sincera.
Aquela revelação atingiu Umberto. Um filho!?
– De onde ela era? Eu pensei que você ia me mostrar a foto do meu neto, já grande. Um homem.
–––
Umberto passou algum tempo pensando. Quem poderia ser?
Folheou o álbum de recortes. Sua vida mundana, cheia de complicações e agravos, foi passando como um filme. Tudo estava ali. “Umberto Sávio preso por dirigir embriagado”. “Mulher diz estar esperando um filho de Umberto”. “Drogas e escândalos destruíram Umberto Sávio”. Estava, naquele álbum, reportada a sua carreira descendente. Leu tudo com atenção. Vasculhava o livro procurando algo que pudesse lembrar um caso marcante. Alguma coisa lhe dizia que iria encontrar.
No rodapé de uma página, duas fotos. Ele com uma moça, sorrindo. O computador ajudou-o a lembrar. Em 1992, fizera uma novela e ficara um mês gravando em uma pequena cidade, Eritéia, perto de Palmas. Talvez tivesse sido lá. Tempos marcantes. Antes do caos. Agora lembrava bem. Viveu naquele mês um belo romance. O nome dela... Vivian...Vivian... Tirou cuidadosamente o recorte da revista.
– Mãe! O nome da moça que disse ter um filho comigo...era Vivian?
– Não me lembro. Foi há tanto tempo.
– Era branca, cabelos e olhos castanho-claros, um metro e setenta...?
– Sim. Acho que sim! Foi há tanto tempo.
–––
Umberto decidiu procurar Vivian, nos confins do mundo. Na cidade de Eritéia. Agora se lembrava.
Ao se despedirem, a mãe lhe pediu:
– Filho. Dê notícias. Considere que eu não viverei mais trinta anos.
– Pode deixar, mãe!
Por fim, um conselho de mãe:
– Filho! Não deixe mais malas pela estrada. Você vai ter que voltar para resgatá-las.
VI
VIA RESGATE
Sem compromissos a cumprir, Umberto pegou a estrada. Seu carro, um Volvo, não era de decepcionar. Se tivesse uma companhia, seria melhor. Mas, no momento, a solidão não era má companhia. Teria bons momentos para pensar na sua vida. A solidão não o assustava mais do que o assédio desenfreado a que se acostumara nos bons tempos. Foram três dias para chegar a Eritéia. Uma cidade pequena, surpreendentemente bem equipada. Ficou sabendo que essa característica muito devia à exploração de cassinos clandestinos, que somente frequentadores muito especiais conheciam. Vinham de todo o Brasil, principalmente ricos empreendedores do próprio estado e das imediações. Tinha até aeroporto para pequenos jatos.
No fim dos anos 1990, sua emissora produziu uma novela, “O Despertar do Cerrado”, explorando aquela paisagem rústica e pouco conhecida. Eritéia foi o centro das operações. Ficaram lá quarenta dias e causaram grande excitação na cidade, que custou a voltar ao normal. Umberto foi o ator principal, no auge, antes dos escândalos. Teve um caso com Vivian, que ocupou todas as suas horas vagas. Depois, tudo passou e foi para o esquecimento. Dele. Não sabia as marcas que tinha deixado.
Agora estava de volta. Tentando um reencontro com o passado. Para sua busca, tinha duas fotografias e um nome. Uma das fotografias era desnecessária. Conheceria Vivian, com certeza, assim que a visse. A outra foto era mais importante. Representava um conjunto de edifícios: um prédio neoclássico, com colunas e frontão e o mais que um edifício neoclássico tem direito. Ao seu lado, um marcante edifício de seis andares, o hotel onde ficou hospedado e onde Vivian, no frescor de seus vinte anos, trabalhava como camareira. Foi nesta situação que o amor entre os dois começou a pulsar.
Foi mais fácil do que esperava. Depois de se estabelecer no hotel, foi dar uma volta de carro pela cidade. Não foi difícil achar os edifícios da foto. Rodou pelos quarteirões à volta, e um bar lhe chamou a atenção: “Aurora no Cerrado”. Entrou no prédio, um salão grande, com instalações bem cuidadas. O motivo da decoração: fotos da produção da novela, com destaque para uma imagem dele, de corpo inteiro, e, ao fundo, uma bela tomada do alvorecer no rio Tocantins. Este fora um dos principais cartazes de divulgação da novela.
Dirigiu-se ao bar e pediu um uísque. Ao seu lado, um senhor e, no outro banco, logo a seguir, Vivian. De costas para ele. Ouviu-lhe apenas a voz. Não era preciso mais nada. Não foi necessário sequer voltar-se para saber que ele estava ali. Seu coração começou a bater forte. Sentimentos que pareciam defuntos, enterrados e cobertos de cal, foram convocados urgentemente. Uma história de vida começou a pulsar dentro dela. Os momentos de prazer, a partida, a aflição de reencontrá-lo com um filho no ventre e, depois, o lento arrefecer de toda esperança e a vida voltando ao normal, com seus problemas do cotidiano de poucas emoções.
Ele estava ali. A dois metros. Queria voltar-se para vê-lo, mas foi capaz de conter-se, para que a surpresa do primeiro momento não denotasse o quanto aquilo a abalava. Ela voltou-se. Trocaram um primeiro olhar e sorriram um para o outro. Depois, Vivian ficou séria, olhando demoradamente para Umberto. Este baixou a cabeça, embaraçado. Vivian voltou-se e falou, com fina ironia, que iluminou o momento:
– Você demorou!
No palco, uma banda tocava músicas românticas e o crooner, um jovem de pouco mais de vinte anos, anunciou:
– A próxima canção é para aquelas pessoas que se sentirem pisadas, abaladas e confusas.
Vivian dirigiu-se a Umberto.
– Ele tem uma bela voz, não!
– Sim.
Sem encará-lo, com um sorriso um pouco forçado, perguntou:
– Por onde você andava, Umberto?
O sorriso se ampliava, chegando quase a ser extravagante. Onde, diabos, você estava? – forçou.
– Eu não sei. – respondeu ele, confuso.
– Desapareceu da face da Terra!
– Sim! – falou Umberto, tolhido.
– Eu procurei você por tanto tempo! Por toda parte. Tentei encontrá-lo. Inclusive estive com a sua mãe.
– Com minha mãe?
– Ela não lhe disse?
Umberto encenou.
– Não! Há muito tempo que não a vejo.
– Isto é uma pena, Umberto. – Vivian voltou à ironia, alfinetando-o, porém agora com expressão séria, olhando fundo nos seus olhos. – Nunca se deve perder o contato com a mãe.
O embaraço de Umberto evoluiu para um absoluto desconforto. Olhava paro o lado, mexia-se no banco.
Vivian retomou o modo social.
– O que você veio fazer aqui?
– Ah... você sabe...– fingindo indiferença e sorrindo, mais confortável– Estou de passagem.
– Apenas de passagem... por capricho?
– É... Ocorreu-me vir aqui.
Vivian encarou-o com seriedade, pondo as cartas na mesa.
– Se você está procurando o seu filho... ele está bem na sua frente. – Com a cabeça, apontou para o crooner.
Umberto olhou, assustado, para o rapaz. Do palco, recebeu de volta um olhar fixo, no mesmo tom. Algo aconteceu nessa troca de olhares. Debochadamente, Vivian falou, afetando formalidade:
– Foi um prazer vê-lo novamente. – E se retirou.
––––––
VII
MARCOS FORA
Terminada a apresentação, Marcos pegou sua guitarra e saiu. Do lado de fora, a namorada o esperava. Beijou-a e foram caminhando. Viu Umberto, que o seguia. Havia ficado muito abalado com a visão da mãe conversando com aquele sujeito e, sobretudo, pelo modo como ela o olhou. Alguma coisa estava diferente. Parou e agarrou Umberto pela camisa, agressivo:
– Você está me seguindo?
– Não! Que é isso? O que há de errado com você?
– Você está me seguindo? – repetiu.
A namorada perguntou:
– Você conhece este cara?
– Ele está me seguindo.
– Não seja ridículo!
Marcos fez menção de agredi-lo.
– Me solta!
– Quem é você?
Fora de si, Umberto gritou:
– Eu sou seu pai!
Desvencilhou-se e se retirou, apressando o passo.
Marcos ficou confuso e atordoado. Sem saber o que fazer ou o que pensar, caminhou com a namorada e dirigiu-se, como que embriagado, apoiado na moça, até o pequeno apartamento de hotel, onde morava.
–––––
Manhã seguinte, Umberto voltou ao bar. Foi atendido pela própria Vivian, vestindo um avental. Umberto percebeu que era a dona do estabelecimento.
– Parece que você dirige este bar...
– É! Eu subi na vida... O que está acontecendo, Umberto?
– Eu... parece que eu estou chegando ao fim de alguma coisa. Uma série de desastres, de saída dos trilhos...
– Eu fui um destes desastres?
– Não... Foi mais recente.... Eu comecei a cair...
– Você falou com o Marcos?
– É este o nome dele?
Vivian o olhava, com expectativa.
– Não entendo, Umberto. Por que você voltou? Você sabia sobre o Marcos...
– Não! Eu não sabia. Somente agora...
Umberto evitava encarar Vivian, olhava para o lado, para baixo.
– Esta é a única razão?
– É... Eu não pensei que seria tão difícil! – Fez uma pausa. Fazia gestos de que não estava entendendo. – Ele me olhou... eu olhei para ele. Tínhamos a mesma expressão... talvez de medo um do outro. Não sei...
Foram duros momentos para Vivian. Quase não conseguiu conter as lágrimas que estavam presas nos olhos, querendo rolar pelas faces. Não. Não fora por ela que ele voltou. Fora para conhecer o filho. Sentiu que também alguma coisa terminava para ela ali. Um mínimo que fosse de esperança de que houvesse algum sentimento por ela, acabou naquele momento.
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Marcos estava furioso, confuso. Um pai, agora? E aquele sujeito? Em cólera, começou a destruir todos os objetos à sua frente no quarto: a televisão, o computador, louças, objetos de decoração. Nem a guitarra escapou de sua fúria. Arrebatadamente, foi procurar a mãe.
Encontrou-a no balcão do bar, arrumando as coisas.
– Preciso falar com você.
Vivian percebeu que Marcos estava transtornado. Fez sinal para que fossem para fora, nos fundos do bar. Ela tentou, com gestos, acalmá-lo. Mas ele andava, de um lado para outro, tontamente.
– Aquele cara... ontem... você estava conversando com ele... Ele disse que é meu pai.
– Ele disse?
Vivian tentava adiar a revelação.... Com a voz embargada, falou:
– É... Ele é seu pai.
– Tem certeza?
– Tenho certeza.
– Mas que porra! Que puto é este cara? Por que ele está aqui? De repente? Por quê? Você não me disse porra nenhuma. Esta merda toda? Nada!
– Eu lhe contei, há muito tempo.
– Você não me falou nada! Disse que era um ator... Ele... Por que ele voltou, mãe? Por quê?
Vivian tentou consolá-lo.
– Talvez ele quisesse conhecer você...ver você...
– Ele é ator? De televisão? Gravou uma novela aqui?
– Sim!
– E você fodeu com ele?
Viviam ficou indignada e deu-lhe um tapa. O que a enfureceu mais foi ver tão banalizado o intenso amor que ela sentira e que o filho não era capaz de entender.
– Ele tem alguma coisa a ver comigo?
Agora ela estava perturbada. Tentava avaliar, ao mesmo tempo que tentava controlar a emoção.
– Eu não queria conhecê-lo. Eu preferia não ter conhecido – concluiu Marcos.
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Quando voltou para o hotel, Umberto o estava esperando. Ele investiu contra o pai e o empurrou com violência, provocando reação igual de revide. Estavam quase brigando.
– O que você quer de mim?
– Eu pensei que pudéssemos conversar.
– Conversar sobre o quê?
– Eu quero é te dar porrada, velho. – continuou furioso, mesmo ante a intenção pacífica de Umberto – Você quer levar porrada. O que você quer? O que você quer de mim?
– Eu só queria ver você. Conhecer você.
– Ah. Queria me ver. Então olha. Gostou? Este sou eu! Olhe para mim! Reconhece alguma coisa?
Umberto permanecia tolerante e cabisbaixo.
– Eu não me importo com você. Vai se foder.
– Eu so pensei...
– O que você pensou? Que poderia vir aqui, aparecer do nada. Voltar à cena do crime depois de vinte anos. Apresentar-se, dar um tapinha nas costas. “Vamos moleque, tomar um chopinho”. E ficar contando anedotas de sacanagem, me dar conselhos de como comer uma camareira de hotel, e algo estúpido assim... Não! Você não é meu pai. Nunca foi e nunca será. Entendeu? Vai se foder.
Marcos se retirou, pisando forte, deixando Umberto confuso e desapontado.
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VIII
VIVIAN FORA
Dia seguinte, pela manhã, quando Vivian caminhava para o trabalho, Umberto a estava esperando. Vestia um vestidinho simples, amarelo, com uma camisa de algodão rosa.
Caminharam juntos.
– Você está linda!
– Obrigada!
– Eu sempre gostei de você de amarelo.
– Amarelo! Eu quase não uso amarelo. Não gosto. Você deve estar me confundindo com outra.... Mas, em compensação, você está horrível. Todo amassado.
– É! Eu passei a noite acordado. Nem me troquei.
– Muitos problemas?
Sem resposta, Vivian insistiu sarcasticamente.
– Você está se entendendo com o Marcos?
– Eu acho que é caso perdido.
– É?... Você desiste fácil. Dois dias só!
– Eu não desisti, só que... – Umberto estava hesitante... É que eu percebi... eu percebi que foi por você que eu vim aqui.
“Agora essa”, pensou Vivian. Isso despertou uma mistura insuportável de sentimentos. Deu uma gargalhada falsa, mas bem articulada. Riu de Umberto, que estava cada vez mais atrapalhado.
– Por que você está rindo?
– Você é incrível, Umberto. Não percebe que os anos passaram.
– Não tem nada a ver.
– Tem tudo a ver, Umberto. Nós não somos mais os mesmos. Você foi embora. Perdemos o contato. Não há mais sentimento. Nós não podemos voltar. Você deve estar louco.
– Não há nenhum impedimento para que nós não possamos.... – interrompeu-se, avaliando o que ia dizer. –Nós voltássemos...nos casássemos.
– Casar?
– É! Foi um erro nós não termos casado. Meu erro. Montássemos casa aqui.
– Eu montei casa aqui. Você não estava aqui. Aos poucos, Vivian foi se enfurecendo. Agrediu Umberto com a bolsa. Ele se esquivou e se afastou. Vivian despejou sobre ele toda a sua raiva.
– Você é um covarde, Umberto. Veio conhecer o filho que deixou aqui. Eu não sei por quê voltou, depois de tanto tempo. Foi culpa? Eu não quero saber! No passado, você poderia ter mudado alguma coisa na vida de Marcos. Teria sido bom.
Umberto estava agora completamente derrotado. Encostou a cabeça na parede, deixando a raiva de Vivian cair sobre ele como uma tempestade. Vivian continuou:
– Talvez tivesse sido bom, quando ele precisou de um pai... mas agora não faz diferença. – Cada vez mais furiosa: –Você é um covarde, Umberto! Sua vida deu errado e você vem aqui, querendo se esconder na minha vida. Se esconder debaixo da minha saia e fugir do mundo. Você quer que eu proteja você, Umberto?
Umberto estava de cabeça baixa, como uma criança levando uma reprimenda da mãe.
– Pare de mentir para você e imaginar que, remotamente, alguma coisa que você deixou pode voltar para você. Se você pensa que uma mulher, em algum lugar deste planeta, possa vir a sentir pena de você, e vai lhe salvar de você mesmo, eu, definitivamente, não sou esta mulher – gritou., repetindo: – Eu não sou esta mulher!
Vivian estava parada, de costas para Umberto. De repente, virou-se, segurou sua cabeça e o beijou com força. Um beijo guardado na garganta, por vinte anos. Depois, chorando o golpeou com socos no peito, expressando o ressentimento também guardado. Vivian afastou-se apressada.
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E agora? O que restava para Umberto? Voltar, voltar, voltar? Pelo dia, pela noite, pelo dia? É tão breve o amor e é tão vasto o esquecimento. Como poderá novamente sentir-se a si mesmo? Nestes últimos dias, ele sentiu-se apenas refletido nos outros que deixou no passado. No que havia deixado para trás. Agora lhe parecia que tudo aquilo, sim, havia ficado definitivamente para trás. Olhava para frente e não via nada. Via, sim, um belíssimo céu avermelhado pelo pôr do sol, com belas nuvens brancas, e uma estrada da qual não via o fim. Que outra forma haverá de existir, senão aquela que ele sabia? Qual seria o segredo de viver, que ele desconhecia? Existirá um segredo, ou é somente isto mesmo. Uma alternância entre subir e descer, ir para frente e para trás, de um lado para outro.
Na estrada, ao entardecer, com as janelas do carro abertas, um vento fresco tocava seu rosto, e Umberto sentiu prazer nisto.
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