Contos

BRUNILDA

do livro "Contos e Memórias de um Tardio Aprediz"

Por Silvio Colin 30 de agosto, 2026
<p>BRUNILDA</p>


Vou escrever uma história narrando um fato tão banal que talvez não valha o tempo que tomará do leitor. Eu mesmo me pergunto se vale o tempo que eu dedicarei a escrevê-la. É mesmo algo muito corriqueiro, sem qualquer elemento que lhe traga algum toque de originalidade que o faça digno de algumas laudas. Exceto pelo fato de que aconteceu há sessenta anos e, passado tanto tempo, eu não o esqueci, e, durante todos estes anos, frequentemente me vem à lembrança.

Aconteceu em 1963. Tive que fazer contas para saber o ano exato. Eu estava cursando o primeiro ano do “Científico” pela segunda vez, no Colégio La-Fayette. Que saudade daquele colégio, da vida que eu levava. As cenas daquele tempo desfilam pela minha memória com frequência. Nem tudo com muita clareza, mas tenho uma coleção de fatos marcantes cuja lembrança me traz muito prazer. 

Eu era o intelectual da minha turma. Não me dava conta disso. Quisera ter sabido, pois teria sido um grande alento para o meu ego tão conturbado, tão cheio de inseguranças, dúvidas e fantasias. Um intelectual, não um CDF. Certamente não foi a geração atual, das redes sociais, da geração Z, que inventou abreviar palavras e expressões por suas iniciais. Mas atualmente se faz por preguiça, antes fazíamos para contornar um tabu. Dizíamos CDF para não dizer Cu de Ferro, assim como FDP por Filho da Puta. Certamente não me agradava a persona de um CDF, aquele garotinho magro e branquelo, “criado pela avó”, que consumia suas horas estudando e tirava as melhores notas. Eu não estudava, mas eventualmente tirava boas notas, se isso não me custasse qualquer tempo dedicado ao estudo das matérias curriculares, em troca das leituras dos gibis, dos romances do Arsène Lupin, do pingue-pongue, do violão ou do simples não fazer nada.

Na maioria das vezes dava certo. Eu tinha um amigo dedicado, o Rui Alberto, que estudava as matérias e me passava os bizus pouco antes das provas.

Ser o intelectual da turma tinha seus atrativos para as meninas. Pena que eu não soubesse disso, da mesma maneira que não sabia que era um intelectual. Só muito tempo depois me dei conta. Lembro-me de uma menina, Ana Maria. Que doçura! Me mostrava poemas. Ela fazia o IBEU. Muitos versos eram em inglês.

Count your garden by flowers,
Never for the leaves that fall...

Eu respondia no dia seguinte com o “IF”, do Rudyard Kipling. Foi ela que me mostrou o “José”, do Drummond. Bastava ter um intervalo, quando um professor faltava, e eu ia sentar no banco do recreio coberto, e vinha ela com seu caderno.  Um dia apareceu com o “Lição de coisas”, ainda quente do forno. Lemos alternadamente algumas estrofes ao acaso. Não entendíamos muito mais do que a musicalidade das palavras. Eu até fingia que entendia. Mas entendemos bem e ficamos ambos sem graça quando eu comecei a ler “O sátiro”. 

Hildebrando insaciável comedor de galinha.
Não as comia propriamente – à mesa.
Possuía-as como se possuem
e se matam mulheres.
Era mansueto e escrevente de cartório.

Ficamos muito embaraçados e encerramos aí a sessão. Mas até o final do ano curtimos estes encontros de intervalo. Sem Hildebrando. Por onde andará Ana Maria?

Eu não me dava conta deste meu atrativo e nunca o explorei. Para mim, as meninas gostavam dos atletas, dos namoradores, dos bagunceiros. Eu não era nada disso. Era meio gordinho, bem-comportado, um pouco tímido com as meninas, mas meio exibido com os professores. E nunca tivera uma namorada, fato que eu não alardeava. Ao contrário, escondia com um falso ar de experiente.

Brunilda era feinha. Baixinha, gordinha, usava óculos e tinha o cabelo curto, que mais lhe arredondava o rosto de largas bochechas. O Vinícius de Moraes deve ter causado muito sofrimento às feinhas, pois havia alguns anos que decretara:

"As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental."

Na sua infeliz “Receita de Mulher”, Vinicius esqueceu de dizer o que é “beleza”. Umberto Eco escreveu mais de 400 páginas sobre isso , e outras tantas sobre a feiura , e as obras terminam sem uma definição conclusiva de beleza e feiura, com o leitor concordando com Sócrates que “beleza é difícil” . Pergunto-me como deveriam se sentir as feias, sabendo que beleza é fundamental, e o Destino não lhes tratara bem neste quesito. Provavelmente olhavam para baixo, encolhiam os ombros e carregavam o seu inconsciente até o limite com este sofrimento e procuravam aparecer bem e ser simpáticas para não piorar as coisas.

E ainda havia o nome Brunilda. Para mim soava estranho como Hermengarda, Crisóstoma. Os nomes das meninas deveriam ser aqueles cristãos, como Ana, Maria, Madalena, Verônica; ou os bíblicos com Rute, Sara, Ester, que frequentemente denotavam a origem judaica de sua dona. Ou os latinos com Letícia, Vera, Lúcia, Renata. Mas Brunilda?! Só o nome já contribuía para diminuir a consideração e o respeito. 

Brunilda andava sempre sozinha. Não tinha colegas, mas deve ter visto em mim um “intelectual”, pessoa supostamente menos preocupada com a beleza física, mas com os atrativos da alma, alguém com quem pudesse se relacionar. A questão era chegar a mim, cujos dois lados estavam ocupados. À esquerda, o Rui Alberto. À direita, a Ana Cristina, uma menina também feinha, mas despachada e insistente, que estava amarrada em mim. Tina, como eu a chamava, queria me namorar. Não somente sentava sempre ao meu lado nas aulas, como me telefonava e fez amizade até com minha mãe, que lhe entregava meus hábitos domésticos. 

O grande apelo deste caso banal, volto a dizer ele foi me apresentando conteúdos insuspeitáveis, ao longo de décadas, sempre pinicando a minha mente. Certo dia, meses depois deste fato que ainda não contei, estava eu na Avenida Graça Aranha, na calçada do Ministério da Educação, passava das 23 horas, esperando o ônibus 108 para voltar para casa, após ter assistido a um recital de piano na Escola Nacional de Música. 

As novas gerações de jovens podem achar estranho. Uma pessoa, sozinha, às 11 horas da noite, numa rua deserta do Centro, esperando um ônibus. Sem medo de ser assaltado. Mas era assim o Rio dos anos sessenta. Não se tinha medo de ruas desertas à noite. Mas, dizia eu, que estava esperando o ônibus quando vi a Brunilda, com trajes de festa, caminhando na minha direção. O encontro inusitado, numa rua deserta, altas horas, ambos com traje de passeio, criou entre nós uma familiaridade que ainda não existia. “Que faz por aqui a estas horas?” “Venho do Teatro Municipal. Fui ver a Madame Butterfly.”

Ela disse que frequentava a ópera, hábito herdado de seu falecido pai, um amante inveterado de óperas, principalmente as alemãs. Ele fazia uma assinatura de toda a temporada para os dois. Inicialmente ela o acompanhava para ter o pai somente para ela, sem ter que dividi-lo com a madrasta ou com os irmãos mais novos. Mas depois o gosto foi pegando. Era agora também um momento de ter o pai de volta em espírito.

Eu não gostava de óperas. Meu caso era a música instrumental, os recitais de piano ou de violão, mas gostava das árias. “Un bel di, vedremo”, de “Madame Buttefly”, “Una furtiva lagrima”, de “L'elisir d'amore”,  “Vesti la giubba”, de “Pagliacci”,  "E lucevan le stelle", da “Tosca”

 A maioria destas árias vinha do disco de Mario Lanza, do filme “O Grande Caruzo”. A isto se reduzia a minha cultura operística. Sem falar das apropriações não declaradas por compositores populares, de árias famosas, o que hoje talvez fosse considerado “politicamente incorreto”. “É ilusão”, de Ângela Maria, é "Je crois entendre encore" de “Os pescadores de pérolas” de Bizet, e o indefectível sucesso do Moacyr Franco, “Eu nunca mais vou te esquecer”, uma apropriação não declarada de “Nessun Dorma”, do “Turandot”.

O gosto pela ópera acrescentava um dado a Brunilda que  nem eu nem ninguém conhecíamos. Agora era “gordinha, feinha, de óculos”, mas amante da música, como eu. E isso não é pouco. Infelizmente para a Brunilda, o gosto pela ópera não aparecia na sua figura. A Tereza, do Milan Kundera  ,apesar de sua atividade humilde, andava sempre com um livro, para marcar a sua identidade. Mas não se pode carregar uma ópera. Assim, esta característica, que acrescentava grandeza ao seu perfil, permanecia oculta.

O recado do nome, vim a entender muito depois, quando me familiarizei com as óperas de Wagner. Brunilda era uma valquíria, uma heroína da mitologia nórdica. Misto de Bela Adormecida e Prometeu em versão feminina.  Quando eu soube disso, imaginei um quadro. Um pai, amante de Wagner, maravilhado com o nascimento de sua primogênita, tendo diante de si uma bela criança, não podia saber que ela seria baixinha, gordinha, de óculos. Queria para ela um destino de heroína, de rainha, e num gesto de amor, deu-lhe o nome de uma bela princesa nórdica: Brunilda.

Isto tudo foi depois. Esta história foi-se completando ao longo dos anos. Naqueles dias eu não sabia do gosto musical de Brunilda e nem da origem nobre do seu nome.

A sala em que estudávamos, no La-Fayette, não tinha carteiras individuais. Eram coletivas, semelhantes aos bancos de igreja, mas com assentos basculantes e tampo para escrever. Um corredor central e duas alas de bancos laterais escalonados em forma de teatro. Ótima visibilidade. Um praticável grande para o professor. Mas tinha um inconveniente. Os alunos não tinham liberdade para se locomover. Em cada carteira cabiam confortavelmente quatro pessoas, mas uma prendia a outra. 

Neste dia, na primeira fileira de carteiras, à direita, estavam o Rui Alberto, do lado do corredor, eu, ao seu lado, um espaço vago, e a Brunilda, encostadinha na parede, isolada como sempre. Em dado momento, o professor a chamou para uma arguição. Nas arguições, o aluno deveria ficar no praticável do professor para dar as respostas, eventualmente escrevendo na lousa. Isto queria dizer que a Brunilda, para sair do seu lugar, teria que passar por mim e pelo Rui Alberto. Rui, um português educadíssimo, imediatamente se levantou e ficou de pé no corredor.  Eu também me levantei para dar-lhe passagem, mas, maliciosamente, fiquei no lugar em que estava. Ela, já de pé ao meu lado, me olhou inquisitivamente, como quem dissesse: “Você não vai sair para eu passar? ” Eu respondi com outro olhar firme, como que dizendo: “Não. Você vai ter que passar assim mesmo. ” Ela ia ter que passar encostando em mim o seu traseiro. Isto queria dizer, na linguagem da época, que eu ia “tirar-lhe um sarro”. Hoje, esta expressão tem outra conotação. Tirar um sarro de uma pessoa é gozá-la, fazer troça com ela. Mas naquela época era somente bolinar, apalpar, esfregar-se eroticamente.

Estes poucos segundos de comunicação silenciosa ficaram gravados na minha lembrança. A cara de decepção com que ela me olhou foi inesquecível. Um intelectual, de quem ela esperava pelo menos um tratamento cortês, agindo como um moleque qualquer. Eu demorei para acusar o golpe. Antes disso veio a sua resposta. Ela se virou de frente para mim e passou, na ponta dos pés, espremendo-se contra o banco para minimizar o contato e olhando-me nos olhos. Aquele olhar, sério e acusador, foi como se ela me dissesse. “Você pode esfregar o pau nas minhas coxas, mas vai ter que fazer isto olhando na minha cara... Seu moleque covarde! ” Pelo menos foi assim que interpretei o seu gesto. 

Eis aí o tal fato banal que ficou na minha lembrança por mais de sessenta anos. Não somente o fato em si, mas também tudo o que veio depois, como o encontro no Centro etc. Aprendi a olhar melhor as pessoas. Não somente as feias, mas também as bonitas, que às vezes carregam a sua beleza como um fardo.

Brunilda. Feinha, baixinha, gordinha, de óculos, cabelo curto, bochechuda. Mas com nome e coração de rainha.


Silvio Colin

Silvio Colin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1970), é doutor em Teoria e História (PROARQ-FAU-UFRJ -2010) e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Departamento de Projeto de Arquitetura. É escritor, autor de dois livros: Uma Introdução à arquitetura e Pós-modernismo. Repensando a arquitetura, além de diversos artigos publicados em periódicos da área.

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