O Consul Corre
Perigo
Depois de formado, nos primeiros anos, minha
vida dividia-se em trabalhar em escritórios de arquitetura e procurar emprego.
Nos anos 1970, as ofertas eram muitas. O Jornal do Brasil, um dos principais
jornais da época, vinha com três volumosos cadernos de classificados. Aos
domingos, na seção de empregos, vinham umas dez ofertas para arquitetos.
Recortávamos os anúncios, colávamos com durex numa folha de papel e na segunda-feira,
lá íamos nós, para as entrevistas. Às vezes era numa agência de empregos; às
vezes, diretamente em um escritório. Não demorava três meses e estávamos
empregados, com carteira assinada e tudo. Algo impensável nos dias de hoje,
quando um arquiteto recém-formado leva anos para conseguir um primeiro emprego
digno – quando consegue.
Assim aconteceu num dia dos primeiros anos da
década de 1970.
ARQUITETO.
Precisa-se com experiência em projetos de edificação, conhecimento da
legislação, prática em desenho e normógrafo, blá, blá, blá. Av. Presidente
Wilson, n. 165, 8º and. Sala tal. Empresa Tal e Tal.
E lá fui eu, segunda-feira, às 8 h, para a
entrevista. Pelo endereço, deparei-me com o prédio do consulado americano. O
edifício do consulado americano no Rio de Janeiro é um dos mais belos da
cidade. Falo com a autoridade de quem lecionou teoria e história da arquitetura
durante trinta anos. Foi projetado por Wallace Harrison, que também
projetou o edifício das Nações Unidas em Nova York, em 1952, para ser a
Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Com a mudança da capital, foi rebaixado
a consulado.
É uma construção imponente, embora não muito
alta — tem apenas treze andares —, revestida de travertino, com janelas
rasgadas de vidro esverdeado. Um prédio de desenho contido que faz lembrar o
melhor da Escola de Chicago. Frequentei muito a biblioteca Thomas Jefferson, no
segundo andar deste edifício. Primeiro, nos tempos de cineclube, para pegar
emprestado filmes de 16 mm. Mais tarde, já arquiteto, fui um frequentador
assíduo da seção 720, um dos melhores acervos sobre arquitetura americana do
Rio de Janeiro.
Perguntei-me para que o consulado
americano precisava de um arquiteto, mas não achei má ideia. Naquela época,
qualquer cidadão poderia entrar no prédio, como se entra em edifício de
escritórios qualquer. As preocupações bélicas dos Estados Unidos de então — a
Guerra do Vietnã, Cuba e o fantasma do comunismo — ainda não inspiravam
procedimentos rigorosos de segurança nas embaixadas e consulados. A Revolução
Iraniana de 1979 e a ascensão do fundamentalismo xiita, que marcaram uma nova
fase do terrorismo internacional, acabariam gerando procedimentos de segurança
muito mais rígidos
Já nos anos 1980, para acessar a biblioteca, tínhamos que nos identificar e aguardar um funcionário para nos acompanhar. Mais recentemente colocaram aquelas grades horríveis, que enfeiam não só o edifício, mas também a paisagem urbana. Pro diabo o edifício e a paisagem urbana. O que importa é a segurança
Mas tudo isso era futuro naqueles dias
distantes de 1973. Para entrar no prédio, bastava cruzar uma pesada porta de
vidro encaixilhada com metal dourado.
Havia, porém, uma restrição. O expediente
só começava às nove horas, e ainda faltava mais de meia hora. Tudo bem.
Podíamos esperar sentados nas confortáveis poltronas do amplo hall de acesso,
de pé direito duplo e revestido de travertino enquanto admirávamos o retrato do
simpático Richard Nixon, que estava às voltas com o escândalo do Watergate e
teve de renunciar para não sofrer processo de impeachment. Olhava para ele e
pensava: ”Como é possível viver em um país que tem um presidente capaz de
cometer esse tipo de crime? ”
Meia hora de espera. Por fim, deu nove
horas. Todos se levantaram e se encaminharam para os elevadores. Havia três
elevadores com as portas abertas. A maioria das pessoas encaminhou-se para o
terceiro. Alguns encaminharam-se para o segundo. O primeiro permaneceu aberto. Entrei
nele e apertei o botão do 8º andar.
Chegando ao andar, as portas se abriram e vi que o hall dava acesso a um corredor extenso e largo, atapetado de vermelho, com salas laterais, e terminava num grande espaço, com largas portas abertas e uma mesa ao fundo. Um ambiente nobre. Fui caminhando. Passava pelas salas, todas com mobiliário de escritório, mas sem funcionários. Até que cheguei a uma sala, à minha esquerda, com uma senhora trabalhando. Vou chamá-la de Mrs. Scrooge, porque ela se parecia muito com a versão feminina de Mr. Scrooge, do conto de Dickens[1].. Dirigi-me a ela e falei do anúncio para arquiteto.

Quando ela levantou a cabeça e me viu, pulou da cadeira e recuou. Parecia que tinha visto um fantasma ou um serial killer. Contornou a sala, encostada às paredes, o mais distante possível de mim, e saiu correndo. Quando voltou, veio acompanhada de uma jovem, típica heroína de filmes da sessão da tarde procurando namorado, cabelos ruivos encaracolados. Por trás dos óculos de moldura, podíamos ver dois grandes olhos com íris azul escura, sobrancelhas grossas da cor dos cabelos.
Dirigiu-se a mim falando um português perfeito
e claro, única característica que me fez duvidar de sua nacionalidade.
— O que o senhor deseja?
— Estou atendendo a um anúncio de
emprego – respondi.
— Senhor, aqui é território americano.
Somente pode ser acessado por cidadãos americanos. O Sr. pode aguardar alguns
minutos? – disse, encaminhando-me para um banco de madeira no corredor. Mrs. Scrooge
se afastou quase correndo para uma outra sala, e a ruivinha caminhou
tranquilamente para a sua sala.
Passados os tais minutos, a porta do
elevador se abriu e apareceu um senhor, que vou chamar de Mr. Mandíbula, e
encaminhou-se em minha direção. O homem era um gigante. Quase dois metros, no
mínimo 130 kg. Lembrou-me aquele bandido ciclópico, inimigo do James Bond, que
lhe dava várias surras, e tinha os dentes de aço. Chamava-se Jaws.[2]
Parou de braços cruzados na minha
frente e disse, em inglês:
– O que está acontecendo?
Pensei comigo: “O inimigo se fortalece
com quem o teme, mas se enfraquece com quem o despreza”.
Sentado, olhei para ele, tentando
mostrar indiferença, e falei em português. Afinal, o tal “território americano”
era de mentirinha, uma convenção. Estávamos mesmo no Brasil, com “s”.
– Eu também estou querendo saber – respondi
com firmeza.
Ele sentou-se ao meu lado. Acho que
fez de propósito; jogou-se com toda força no banco, e ficou colado em mim,
apesar de haver banco de sobra para um distanciamento mais social.

Falou, desta vez com mais delicadeza,
em inglês, claro.
–
O que eu posso fazer por você? Por que está aqui?
Eu, em português.
– Eu estou respondendo a um anúncio de
emprego. Eu sou arquiteto.
Mostrei para ele o papel, com os
pedaços de jornal colados, e apontei para o anúncio em questão. Ele pegou o
papel e olhou com atenção.
– Oh! A job!
Depois de ler o anúncio, continuou.
– Há um engano. Aqui é nº 147 e não nº 165.
Aí eu fiquei sem graça. E achei que a
situação merecia um inglês de colégio.
– Oh, how
stupid I am! How can I
apologize?
Nos levantamos. Reparei que era
observado à distância pela ruivinha e por Mrs. Scrooge. Mr. Mandíbula falou.
Começou em tom normal. Aos poucos foi levantando a voz. No final, quase
gritava, escandindo as palavras e acompanhando-as com gestos vigorosos, dedo
indicador apontando para baixo, com direito a gotículas de saliva.
– Tudo
bem com você. Eu vou acompanhá-lo ao seu destino. Mas você vai me fazer um
favor. (Crescendo). Você vai me
mostrar... (Com ódio, falando devagar)
qual foi...o maldito filho da puta...que deixou...você chegar aqui.
Pegou um walkie-talkie (não havia celulares na época) e deu algumas ordens.
Quando chegamos ao lobby do edifício, estava em forma uma linha de uns dez marines, aqueles fuzileiros navais,
tropa de elite das forças armadas dos Estados Unidos, primorosamente treinados
para matar vietnamitas. Nenhum com menos de 1,85 m, o que ficava meio
disfarçado pela largura. Físico do tipo Schwarzenegger. Vestiam aquele uniforme
de gala, azul escuro, com debruns vermelhos e botões dourados, quepe branco
embaixo do braço. As mangas eram curtas, o que deixava ver o volume dos braços,
que pareiam as coxas do Pelé nos áureos tempos do Santos. Queixo para o alto,
sérios e olhando para um ponto infinito.
E lá estávamos eu e Mr. Mandíbula
passando em revista a tropa. Uma grande palhaçada. Imaginem se um chefe de
segurança precisava daquilo para saber quem estava guardando o elevador às nove
horas daquele dia. Na certa ele queria dar um showzinho, para mim e para as
poucas pessoas que ali estavam. Ou talvez intimidar a tropa. Ou mesmo ter o que
escrever em seu relatório. Não devia ser fácil explicar uma invasão do
“território americano” por um inocente arquiteto desempregado. Assumi um tom
solene. Pensei que não queria estar na pele daquele marine, a quem devia estar reservado um posto burocrático em
Washington, e adeus Brasil.

Ao fim da revista, olhei sério para o
Mr. Mandíbula e disse:
— Sorry.
I can’t recognize. E era verdade. Eu não saberia dizer qual daqueles
soldados estava lá. Mas eu já estava decidido que, mesmo que reconhecesse, não
diria.
Mr. Mandíbula sorriu e compreendeu.
Acompanhou-me até a porta e colocou a mão nas minhas costas com toda a delicadeza
de que era capaz. Mas eu senti naquele gesto que estava me dizendo: “Suma daqui.”
E eu não queria outra coisa.
O escritório, no nº 165, 8º andar, era
uma agência de empregos furreca e a pessoa que me atendeu não conhecia um
mínimo de protocolos de uma entrevista de emprego. Não seria daquela vez. Mas,
afinal, não posso dizer que foi uma manhã perdida, ao contrário. Foi uma manhã
inesquecível.
[1][1] A Chrismas Carrol, conto natalino de
Charles Dickens, de 1884, ilustrado originalmente por John Leech, retratando o avarento Ebenezer
Scrooge, que abominava o Natal e era perseguido por fantasmas.
[2] Jaws apareceu em The Spy Who Loved Me ( O espião que me
amava) filme de 1977 e Moonraker (1979), Era interpretado pelo
ator Richard Kiel (1939-2014), 2,18 m de altura.
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