Contos

MADALENA

do livro "Mulheres da Bíblia - Contos Imorais

Por Silvio Colin 31 de julho, 2026
<p>MADALENA</p>

MADALENA

 


Dizem que analista não fala, só escuta. Mas eu até que dei sorte. Ele era bonito e de vez em quando falava. Eu, na sala de espera, e apareceu aquele bonitão, de barba, todo chique, e me convidou para entrar.  Foi até o fundo da sala, sentou-se em uma poltrona daquelas, tipo Freud, cruzou as pernas e me encarou. Do lado tinha uma mesa e duas cadeiras comuns. Do outro lado, um divã. Eu olhei para ele, como que perguntando: “Onde eu sento?”. Ele, nada. Pensei: Vou sentar na cadeira, senão não vou ver a cara dele. Sentei. Fiquei olhando para ele. Silêncio.

            – E aí, Madalena? O que aconteceu? – disse ele, quebrando o gelo.

            – Doutor, eu quero saber se eu sou puta, adúltera ou santa.

            – Por quê?

            – Por que eu me chamo Madalena e dizem que Madalena é puta, adúltera e santa ao mesmo tempo.

            – Quem diz?

            – A Igreja?

– Que Igreja?

– Católica, protestante, todas.

            – Você? Como se sente?

            – Puta eu não sou. Puta não é aquela que dá por dinheiro?

Silêncio.

– Eu nunca recebi um tostão para dar. Então não sou puta. Mas gosto de foder. Quem gosta de foder não é puta, é?

– Acho que não.

– E adúltera? – perguntou ele.

– Bom! Aí é complicado. Eu já namorei homem casado. Mas eu não sabia que ele era casado. Não pedia certidão negativa de casamento para sair com alguém. Eu não sou casada. Então não sou adúltera, não é?

Eu tinha um papel anotado. Tirei da bolsa e li:

- “Adultero – pessoa que comete adultério, mantendo relações carnais com alguém fora do casamento. Que viola a fidelidade conjugal ao manter relação amorosa fora do casamento. ”  Se não tem casamento, não tem adultério, não é? Adúltero era ele, não é?

– Parece.

Silêncio.

– E santa?

– Como assim?

– Você disse que quer saber se é puta, adúltera ou santa, não foi?

– Foi. – Depois de alguns instantes: – Também não sou santa. Eu nunca fiz mal a ninguém, não desejo mal a ninguém, não sou rancorosa. Sou da paz. Mas isto não faz de mim uma santa, não é?

– Não? – perguntou.

– Não! Santa tem que fazer milagre. Eu nunca fiz milagre. A não ser que você considere um milagre conseguir viver e se sustentar no Rio de Janeiro. Mas tem que ser milagre para os outros. Fazer paralítico andar, fazer cego enxergar. Isto eu nunca fiz. Então não sou santa.

– Então qual é o problema? Você não é puta, não é adúltera e não é santa.

– Mas sou Madalena.

Ele riu.

– É sério. Me incomoda. Eu acho que um dia vou ser puta, adúltera e santa. Quem me disse isso foi um evangélico que eu namorei. Eu pensava que evangélico não trepava, só para procriar. Mas este trepava. Não era lá essas coisas, mas trepava. Só papai e mamãe, e se eu não fosse rápida, não gozava. Era só aqueles cinco minutos. Nunca medi no relógio, mas era rápido. Às vezes eu nem conseguia gozar e ia tocar siririca no banheiro. Sempre a mesma coisa. Uma vez ele fez cachorrinho. Foi melhor. Ele demorou mais. Eu quis fazer uma “apaga-vela” e ele não quis. Disse que a Bíblia não permitia.

– Como é “apaga-vela”?

– Você não sabe? Só mostrando. Aí quero desconto, que esta sessão é cara.

Ri de gargalhar. Mas ri sozinha. Ele ficou sério. 

– Desculpe!

Ele deu uma risadinha para não me constranger. Desculpas aceitas.

– O nome clássico, do Kama Sutra, é “cavalgada”. Eu prefiro “Apaga-vela”. Eu vejo aqueles coroinhas de igreja apagando os cílios, depois da missa, e penso logo em sacanagem.  É a mulher por cima, sentando no pinto do cara. Mulher por cima, já imaginou? A Bíblia não deixa. Mulher tem que ficar por baixo. Mas o tal evangélico, o Isaías, me disse que Madalena, na Bíblia era prostituta e adúltera. Para os católicos é santa, desde 2016. Papa Francisco. Parece um presságio. Eu vou ser puta, depois adúltera. Depois, me arrependo, sou perdoada, faço dois milagres e viro santa. Tudo isso dói. Puta apanha para caralho. Adúltera tem a dor moral, e também corre risco de levar porrada e até tiro. E santa também dói. Tem santa que foi queimada viva. Tem uma que tem um espinho na testa. Tem santa que o pai mandou estuprar e degolar.

– Você entende de santa, heim?

– Eu estudei. Mas um dia eu falei com ele para ir mais devagar. Beijinho no pescoço... Eu cantei: “Me fazer rodeios, me beijar os seios, me beijar o ventre, me deixar em brasa”– Sabe? A música do Chico?[3]  Para me dar um tempo. Ficou horrorizado quando eu pedi para ele fazer um minete.

– O que é um minete?

Pensei: “Esse cara não sabe nada”. Lá vou ter eu que explicar o que é um minete. Mas eu fui mais séria, desta vez. Percebi que ele não gostava de certas liberdades. No consultório. Em casa Freud deve deixar.

– Está no Aurélio. “Minete – cunilíngua ” Olha que palavra escrota. Você pensa logo em língua no cu. Não é. É perto. É na cona. Cona é boceta portuguesa. – Essa ele gostou e riu. – Minete é tão mais bonitinho. Em francês quer dizer “gatinho”. Não é uma gracinha.

Pausa para respirar.

 

– O Isaías disse que eu tinha sete demônios. Que eu só pensava no prazer carnal, que eu era uma pecadora. Ora, o que ele estava fazendo ali? Me chamou para rezar. Parece que eu pequei sozinha. Me disse:

– Você é uma Madalena mesmo. Você precisa que colem umas páginas da Bíblia em você.

Ha, ha! Eu disse para não colar aquela em que as filhas trepam com o pai[4] . Disse para colar só o Cântico dos Cânticos.

Ele ficou puto e nunca mais me procurou. Grandes coisas. Mas aquilo ficou na minha cabeça. Sabe? O recado do nome. Um dia sonhei que estava sendo apedrejada. Todos os caras com que eu tinha trepado me apedrejavam. Usavam aquelas túnicas de antigamente, sabe?

– E aí surgiu um cara que te salvou.

– Surgiu nada. Eu acordei.

Pausa.

– Mas eu já senti o que é ser puta, ser adúltera e ser santa.

– Como assim?

– Eu tinha entrado na faculdade. Precisava fazer colegas. Aí surgiu um grupo de teatro. Eu entrei. O diretor era um tal de Flávio. Se julgava o máximo. Falava com autoridade. Inspirava confiança. Era um merda. Mas inspirava confiança.  Três de nós tínhamos que fazer o papel de prostituta. Aí ele falou que tínhamos que fazer laboratório. Sabe, laboratório? Pois é. Você tem que ir lá no espaço das putas para se sentir como elas. Mas isso tem que ser preparado. Tem que ter segurança.

– Lógico!

– Não para ele, o babaca. Era só a gente se vestir como puta e ir para o campo. Lá fui eu. Shortinho, perna de fora, frio para caralho, salto alto, collant vermelho botando os seios quase para fora, encostei num poste e fiquei fumando. Parou um carro. Eu fui na janela.

– Você faz tudo? – perguntou um velho no volante.

Eu me vesti de puta.

– Se você pedir com jeitinho...

– Quanto é?

– Duzentos.

– Porra! Você tem bunda de madrepérola? E arrancou o carro.

Vi que minha tarifa estava alta. Mas a cem metros estava uma “colega” que acertou com ele, e entrou no carro.

Aí chegou um baixinho e me deu um tapa na cara.

-– O que você está fazendo aqui? Esta praça tem dono! – E puxou um canivete enorme.

– Quer ter uma marca nesta sua bochechinha? – E encostou o canivete na minha garganta. Eu me mijei de medo. Ele estava no asfalto e eu na calçada. Aí chegou o Flávio e outro colega, num fusquinha, deu um safanão com o carro, e ele caiu. Flávio abriu a porta para mim. Eu corri e entrei.

– E aí?

– E aí se encerrou minha carreira no teatro. Mandei o Flávio dizer para a mãe dele fazer laboratório.

Pausa. Pensamentos voavam na minha cabeça, mas eu não tinha o que falar.

– E como você se sentiu uma adúltera?

– Foi com aquele cara casado. A mulher dele descobriu o meu telefone no celular e disse que queria falar comigo. Fiquei com pena dela.

– Você é jovem, é bonita. Tem os homens que quiser. Eu só tenho a ele  e meus dois filhos. Se eu o perder, não sei o que farei.

As pessoas não se enxergam. Ela era mais bonita que eu. Era mais velha, quase sem maquilagem, mas eu não chegarei à idade dela assim.

– Eu lhe juro que eu não sabia que ele era casado. – eu disse. – Só comecei a perceber alguma coisa quando ele disse que queria me encontrar somente à tarde. Quis esclarecer, mas ele desconversou. Eu jamais sairei outra vez com ele. Eu não quero fazer mal a ninguém. Eu não quero destruir o seu lar.

Depois eu pensei: “Este lar já está destruído. ” Essa mulher precisa ouvir alguma coisa.

 – Olha, você precisa se cuidar. Pensar em si e nos seus filhos. Ele vai arranjar outra, outra, e mais outra. O problema não sou eu. É ele.

Ficamos amigas. De vez em quando eu ligo para ela e convido para tomar um café, à tarde, com os filhos na escola.

– E no que deu?

– Não sei. Está lá. Casada e chifrada.

– Mas você foi a adúltera que toda esposa sonha. Foi muito digna. E não foi adúltera. Como você diz, adúltero é ele.

– É, mas eu senti o gostinho. Uma esposa magoada. Um lar que se desfaz.

                – E quando você se sentiu santa?

– Eu não me senti propriamente santa. Mas eu entendi a matéria-prima de que os santos são feitos.

– Como é isso?

– Eu estava voltando de uma festa. Eu e a turma. Alegres, brincando, zoando.  Vinha um cara andando no meio da rua. De terno. Marmita. Cansado. Estava na cara que tinha estado trabalhando até aquela hora. Aí veio um carro muito louco, fazendo barulho, a mil por hora, e atropelou o cara.  O sujeito voou e estatelou no chão. A minha turma não estava nem aí. “Vem, Madalena. Vamos embora. Isso vai dar merda. ”

– Que vamos embora? Chamem a ambulância? Liguem para o número tal! Eu sabia. No trabalho a gente era obrigada a decorar estes números. Polícia, Bombeiros. Ambulância. Hoje não sei mais. Aí fui lá. O cara estava sangrando no rosto e tinha uma poça de sangue embaixo dele. Fiquei com medo de mexer. Ele perguntou.

– Eu vou morrer?

Eu lá sabia se ele ia morrer, mas disse o que ele queria ouvir.

– Você não vai morrer. Está tudo bem.

Ele tremia. Eu estava calma e segurei a mão dele. Pus a mão na testa dele. Ele pegou as minhas duas mãos e disse:

– Fique comigo!

– Eu vou ficar com você! Fique calmo.

E não é que o cara foi ficando calmo mesmo. Fiquei com ele uns cinco a dez minutos, não sei. Aí chegou a ambulância, os paramédicos. Fizeram um monte de coisas, colocaram ele numa maca. Disse:

– Vem comigo!

– Eu perguntei para os paramédicos. Disseram que eu podia. E eu fui com ele. No hospital, veio logo um policial. Eu tinha que prestar depoimento. Aquela chateação. Minha carteira de identidade tinha ficado lá. E o policial não queria entender. Será que ele pensou que eu atropelei o cara? Liguei para o pessoal. Pedi para alguém trazer a minha bolsa, que tinha ficado lá. A gente se mete em cada uma. Duas horas para ser liberada. Será que o policial não viu que eu não tinha nada com aquilo. Saí de lá já amanhecendo. No dia seguinte fui lá ver o que tinha acontecido. Ele estava em coma induzido. Voltei dois dias depois. Consegui vê-lo. Estava todo enfaixado. Parecia uma múmia. Quando me viu, deu um sorriso.

– Você salvou a minha vida. Deus lhe abençoe.

Fiquei um pouco com ele e disse: “Se cuida! ” Nunca mais o vi. Mas deve estar vivo.

– E você se sentiu santa?

– Não santa! Santa?! Mas eu vi o que era preciso para ser santo.

– O que é?

– Se preocupar com o sofrimento dos outros.

Depois de uma pausa, continuei.

– Não é só isso... tem a parada da espiritualidade...

– Então você não é puta, não é adúltera, não é santa. O que lhe preocupa?

– É o Efeito Édipo.

Deve fazer parte do treinamento do psicanalista fazer cara de paisagem por um tempo ilimitado. Eu falei aquilo para que ele me explicasse o tal Efeito Édipo. Ele ficou olhando para mim com cara de paisagem um tempão. Aí eu disse.

– E o Efeito Édipo? Você não vai falar nada do Efeito Édipo?

– Fale você.

– Um dia, estava eu e a turma. Uma menina, a Nice, sabia ler a mão. Leu a mão de todo mundo. “Você vai ter uma vida longa, mas tem uma interrupção aqui. Pode ser uma doença, não sei”. “Você tem uma linha da cabeça bem definida. É muito inteligente”. “Você é excessivamente emocional, sensível e propenso a reagir exageradamente às situações. O seu Monte de Vênus é todo riscado. ” Nice leu a mão de todos menos do Cris.

– Eu não quero.

– Por que? Você não acredita?

– Acho que pode ser. Não sei.

– Então por que você não quer?

– Por causa do Efeito Édipo. Saber de uma previsão pode ajudar a que ela se realize. Então não quero saber nada.

Eu continuei.

– Acho que o nome é um estigma. Está cravado em você.

Depois de alguns minutos do silêncio.

– Fale um pouco da sua vida.

– Minha vida? Perdi minha mãe quando tinha doze anos. Ela teve câncer no seio e não quis tirar. Era vaidosa demais. Morreu. Eu fiquei cuidando da casa. Limpava, cozinhava, lavava roupa para meu pai e meus dois irmãos. Quando começou minha bunda a crescer e nascer peitinho, meu pai começou a se engraçar para mim. Um dia me pegou por trás e pegou nos meus peitos e se esfregou todo. Eu dei-lhe uma cotovelada que acertou no olho. Deve ter pegado bem, porque ele ficou fora de combate por um tempo. Eu saí correndo. Quando voltei, ele não estava. Eu vi que corria risco. A casa tinha dois quartos. Um era para ele e minha mãe, quando ela era viva. Depois ficou só para ele. Meus irmãos ficavam no outro quarto e eu no sofá da sala. Neste dia, depois do jantar, meu pai, com um olho roxo que não soube explicar, eu disse, com autoridade.

–Vou passar a dormir no quarto. Vocês que se virem. Ninguém discutiu. Eu passei a dormir no quarto e trancava a porta, sempre que estava lá. Quando meu irmão estava com uns quinze anos, foi ele. Tentou me agarrar. Nele eu dei uma surra completa. Peguei uma prateleira onde estavam as xícaras. Quebrou tudo. Eu dei uma surra de prateleira nele. Batia no rosto, nas costas, na cabeça, no joelho. Ele saiu correndo. Mas eu vi que tinha de sair dali.

Meu pai tinha uma banca de bicho. Voltava sempre com um bolo de dinheiro vivo. Quando ele pendurava a calça, eu ia no bolso e pegava um punhado. Ele nunca notou. Juntei um bom dinheiro e me mandei. Fiquei um tempo numa pensão e depois arranjei quatro colegas e alugamos um apartamento na Praça da Bandeira. Arranjei um emprego de cozinheira em um bar e, depois, de recepcionista em uma firma no centro. Estudava à noite. Fiz vestibular e passei na UERJ. Fiz Psicologia. Era minha primeira opção.

Gostei. Me formei há oito anos. Trabalho em um banco, no departamento de pessoal. Aplico aqueles testes, sabe? teste de Rorschach, tCerto, Proximo blocoeste de QI, AC, essas coisas.

Silêncio prolongado.

– E o que aconteceu com a sua família?

– Nunca mais vi. Nem quero. Mas sei que meu pai se aposentou. Arranjou uma periguete de 35 anos que está de olho no dinheiro dele. Nem sei se ele ainda tem tanto assim. Sabe como é. Saiu daquela vida, o capim cresce na porta.

Meu irmão mais velho foi para um garimpo na Amazônia. Sumiu do mapa. Meu irmão mais novo mora em uma comunidade, e está em segundas núpcias, aos 25 anos. Dois filhos. Um com cada mulher. Forte candidato a não chegar aos 30. De bala, overdose ou cirrose. Tem chance de sobreviver, mas precisa que alguma coisa aconteça para ele mudar.

Não quero vê-los. Eu tenho medo de perder o que eu consegui com tanto esforço. Tenho medo que eles me tirem. Eu não me garanto tanto assim. Podem me trazer problemas que eu não vou saber resolver.

– Você não pensa em casar? Ter filhos?

Eu hesitei. A pergunta foi uma porrada. Me trouxe um filme inteiro de memórias. Um drama fodido. Para quem tem mãe na zona e pai na detenção. Depois de um longo silêncio, eu só com minha memória, falei.

– Eu já fui casada. Quer dizer, não casei na igreja ou no civil. Mas morava com ele. O Theo. Fazia tudo com ele. Não era casada?

– Fale sobre isso.

– Falar sobre isso? É foda! – Viajei longe.

– Não foi há tanto tempo, mas parece uma eternidade. Uma outra vida. Eu era plena. Como você pode ser plena se lhe faltam coisas? Faltava dinheiro no fim do mês para compras. Não tinha dinheiro para a cota extra, não tinha crédito. Tinha que juntar para comprar um tênis. Mas eu era plena. Tinha tudo que eu precisava. Tudo era uma diversão com o Theo. Fazer compras. Passear. Simplesmente andar.

Três anos. Depois tudo acabou. Virou pó. Era. Não é mais.

Eu era um copo que estava sempre cheio. Hoje eu tenho que encher o copo todo o dia, sabe?

– O que aconteceu?

– Ele morreu. Atropelado. Ninguém descobriu direito. Chegaram até a pensar em assassinato. Mas ninguém quis tocar muito no assunto. Ele era uma pessoa muito boa, mas fez muitos inimigos. Por que? Não sei. Foi ele que criou a empresa em que trabalho. Agora é uma empresa grande. Mas ele teve que brigar muito. Sabe? Contrariar interesses.

Fiz uma pausa. Suspirei fundo e continuei.

– Claro que penso em casar de novo! Mas está difícil. Casamento é coisa séria. Filhos também. Eu só encontro bundão. Mas agora eu não saio com homem casado. Peço certidão negativa e bons antecedentes.

– Como você sabe?

– Eu sou psicóloga, não é? Em primeiro lugar tem a marca da aliança. Se tem marca, some! Tem a idade. Um cara mais velho ou é casado ou separado. O tal celibatário inglês, de tomar xerez no clube, aqui não existe. Ou não gosta da fruta ou está em transição. 

Eu tenho um método que quase não falha. No meio do jantar, o “first date”, sabe? Seguro as mãos do sujeito, carinhosamente, olho bem nos olhos e digo: “Me fale da sua mulher. ”

Se o cara é casado se atrapalha. Aí é só apertar, que vem um muro de lamentações. “Não me satisfaz”. “É uma pedra de gelo”. “Já não me ama”. “Só quer saber de dinheiro”. “Não fazemos sexo há seis meses”. Neste caso, é só esperar a conta, beijinho no rosto, sem telefone, e tchau!

‘Tem uma variante. “Como são seus filhos? ” Aí é mais demorado para esclarecer a situação. É o plano B.

Silencio. Ele falou.

– Você não tem jeito de que vai ser prostituta, adúltera ou santa. Sua linha da cabeça deve ser muito forte, seus montes devem ser proeminentes.

Tempo.

– Você não gosta do seu nome?

– Adoro o meu nome. Ele simboliza o ódio dos homens pelas mulheres. O nome é uma palavra, mas as palavras dizem muitas coisas diferentes.

 Eu queria saber por quê os homens odeiam as mulheres. O primeiro mundo deles foi um útero. O primeiro caminho deles foi uma vagina.

– E a primeira perda. A primeira rejeição. A primeira dor.

– Um professor meu na faculdade disse uma coisa que pode explicar esse negócio: “A maternidade é um fato. A paternidade é sempre uma hipótese”.

– É um caminho para entender as coisas.

– Como é que o cara pode ter certeza que é o pai. E aí, como é hipótese, trancam as mulheres para ter certeza. Ameaçam, apedrejam, matam.

E o cinto de castidade? Olha que merda. Trancar a boceta da mulher! Eu nunca entendi. Como ela fazia xixi? Devia enferrujar tudo. E a menstruação? Teve uma Cruzada que durou cinco anos. Imagine quando o cara voltou. O podre disso é só imaginação, porque não era verdade. Nunca existiu cinto de castidade. Não era possível. Um dia foram examinar um exemplar, exposto num museu importante. Descobriram que era uma falsificação feita no século XIX.  Mas a imaginação está lá. Por que tudo isso?

Bom. Hoje tem o exame de DNA. Talvez assim eles parem de massacrar as mulheres. Um teste de DNA e pronto. Mas é um constrangimento. Ofende. Mostra desconfiança.

Pausa. Depois de um tempo, eu retomei.

– Eu estou processando o presidente da empresa em que trabalho, por assédio moral. Dou uma viagem à Somália se você souber o nome do presidente.

– Eu adoraria conhecer a Somália, mas não posso saber.

– É Pedro. Sacou? Pedro contra Madalena.

– Como assim?

– Pedro. Lembra? “Tu és Pedro e sobre esta pedra...bla, bla, bla...”. Pedro é o dono da Igreja. Dizem que Pedro detestava Madalena. Tinha ciúme.

– O que aconteceu para você abrir um processo?

– Ele me humilhou e ofendeu na frente de todo mundo, em uma assembleia. Ele é fodão como empresário. A empresa era pequena quando ele pegou, das mãos do Theo. Transformou numa das mais ricas do mundo. Mas agora perdeu trinta por cento dos clientes para uma concorrente. Bolou um porrilhão de mudanças para recuperar. E fez uma assembleia com todos os funcionários da matriz para expor as mudanças. Aí pediu comentários da plateia. Saber o que achavam. Eu me apresentei e falei:

–Acho que não devíamos mudar. O mercado tem espaço para os dois. E estas mudanças propostas visam tomar práticas da concorrente. A meu ver caracterizariam uma derrota. Não seriam duas concorrentes. Mas dois grupos iguais. Visão de psicóloga.

Ele ficou muito puto. Mas muito puto mesmo. Descontrolou.

– Quem é você? – Para me desqualificar. Eu disse meu nome completo e acrescentei.

– O senhor sabe quem eu sou! Eu estou aqui há muito tempo e nos encontramos todo o dia. Foi o senhor que convocou a assembleia. Foi o senhor que pediu opinião. Eu apenas dei a minha.

– Eu sei, sim, quem você é. Teve um caso com o Dr. Theo. E deve ter lucrado com isso. –Partiu para a ignorância. Ai eu emputeci. – Eu não tive um “caso” com o Dr. Theo. Eu tive um relacionamento estável com ele. Eu o amava e ele me amava. Este “caso” que o Senhor diz durou três anos. Até a morte dele. Era um homem livre e eu uma mulher livre. Era o homem da minha vida. Eu o conheci aqui na empresa. Eu não lucrei com isso, como o senhor disse. Eu nunca tive uma promoção vertical. Faço hoje o que sempre fiz. Os aumentos salariais que eu tive todos tiveram. O que o senhor quer dizer que eu devo ter lucrado?

– Depois teve casos com outros funcionários. Eu tenho um nome para isso.

Aí ele se fodeu. Está tudo filmado. Eu perguntei:

– Qual é o nome que o senhor tem para isso?

Ele não respondeu. Aí eu fui para cima.

– Eu tenho um nome para o que o senhor fez agora. Chama-se assédio moral. O senhor está querendo me humilhar e desqualificar porque eu discordei do senhor, e muitos aqui discordam. E o senhor vai ter que dizer na Justiça o que eu lucrei, o nome que o senhor tem para o que eu faço, e explicar o que o senhor chama de “caso”.

Dois dias depois, botei na justiça. Pedi uma retratação pública.

– Em que consiste essa retratação?

– Eu quero um documento assinado por ele e distribuído para todos os funcionários da empresa reconhecendo que eu tive um relacionamento estável que durou três anos, e findou com a morte dele. Quero que publique o meu currículo funcional, mostrando que não tive nenhuma promoção neste período. Quero que ele diga qual o nome que tem para os casos que eu tive depois. E pedi uma graninha de danos morais.

Um relacionamento estável e fiel. Não foi um caso. Eu o amava. Ele me amava. Durou três anos. Foi o único homem digno que eu conheci. Tirando o senhor, é claro.

Aí eu ri muito. Desta vez ele riu. Pouquinho.

– O meu advogado pediu ao juiz os vídeos da assembleia. O juiz ainda não respondeu. Mas eu já tenho o vídeo.

– Como você conseguiu?

– O cara da mídia lá da empresa é meu amigo. Eu pedi o vídeo antes de pôr na justiça.

Tempo.

- Os advogados dele me procuraram. Queriam um acordo. Advogado adora acordo. Ofereceram dinheiro, mas sem desculpas públicas. Ora, porra! Isto seria fazer aquilo que ele me acusa. Muito babacas estes caras! Das desculpas eu não abro mão.  Não faço questão do dinheiro, eu quero as desculpas. Ele sabe que está fodido. Se não pedir desculpas, se eu perder, todo mundo vai ver o vídeo e ele vai perder metade dos clientes. Vou aos jornais, à TV, o que eu conseguir. TV adora imagem. Amanhã temos uma acareação. Com os advogados.

Após um tempo de silêncio, ele disse:

– Estamos na hora, não é? Continuamos na terça.

Nos levantamos. Ele me conduziu até a porta.

– Até terça!

– Até.

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Silvio Colin

Silvio Colin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1970), é doutor em Teoria e História (PROARQ-FAU-UFRJ -2010) e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Departamento de Projeto de Arquitetura. É escritor, autor de dois livros: Uma Introdução à arquitetura e Pós-modernismo. Repensando a arquitetura, além de diversos artigos publicados em periódicos da área.

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