Contos

BONNIE

Por Silvio Colin 24 de julho, 2026
<h1 style="text-align: center;" class=""><font style=""><strong>BONNIE</strong></font></h1>

A história não é minha. Nem poderia. Eu não seria capaz de criá-la. Acho mesmo que nem os maiores criadores de histórias, nem Sherazade, nem os Irmãos Grimm, nem o “Bardo” seriam capazes de tecer tal enredo. Apenas a própria vida, em seu poder infinito de costurar acontecimentos, poderia fazê-lo. Sequer me lembro de como tomei conhecimento dela: se a li, ou vi na televisão. Sei apenas que foi narrada pelo personagem principal. Peço desculpas por não poder citar corretamente a fonte. Mas não é por isso que vou deixar de contá-la. Afinal, é uma ótima trama, e um contador deve fazer de tudo para que as boas histórias não sejam esquecidas.

Valério era mineiro de Uberlândia e estava em seus primeiros dias de Estados Unidos. Fazia PhD em Relações Internacionais, em Columbia. Ainda não havia recebido um dólar da bolsa, e precisava, naqueles dias, sobreviver com os magros dólares que conseguira, numa vaquinha da família. Aqueles cento e cinquenta dólares por cinco horas de trabalho como babysitter seriam muito bem-vindos.

Chegou pontualmente à casa do professor Brubaker. O casal, já em trajes formais para um jantar, o recebeu com o jeito americano de ser simpático. Valério estava tenso enquanto ouviu as recomendações da mulher. Não teria que se preocupar com o bebê. Este estava com a avó. O outro filho, Ron, não daria problemas. Veria televisão, jogaria videogames e iria dormir às onze. A recomendação mais importante. Definitiva! Em hipótese alguma abrisse a porta dos fundos. Também a da frente. Mas principalmente a dos fundos. Certo? Certo! Tudo muito fácil.

De fato, Ron não trouxe nenhum problema. O menino era dócil e educado, da maneira americana de ser educado.

Good night.

Good night.  E o menino foi para o seu quarto.

Foi aí que Clyde, o cão da família, um belo labrador preto, começou a ficar inquieto. Circulava pela sala, encostava-se em Valério, ia e voltava, sempre tendo como destino a porta de serviço. Parava em frente a ela e começava a arranhá-la. Ficava sobre duas patas, depois estendia-se no chão e virava a cabeça, procurando ver algo pela fresta inferior. Valério foi ficando nervoso. Procurou nos armários da cozinha. Serviu ração no comedouro, e colocou água. Clyde se aproximava, apenas cheirava e se afastava. E recomeçava seu ritual de inquietação. Percorria o perímetro dos cômodos e sempre parava em frente à porta dos fundos, e começava a arranhá-la. Isto incomodou Valério de tal maneira que, após meia hora de aflição, ele abriu a porta. Clyde projetou-se para fora antes que pudesse ser contido.

Agora o jovem estava perturbado. O que tinha feito? Descumprira a única recomendação importante. Mas o pior estava por acontecer. Clyde voltou. Voltou com um gato preso às suas mandíbulas, pendurado pelo pescoço, e o depositou no chão. O animal estava morto, muito sujo, coberto de terra. Também o próprio cão estava imundo e deixava um rastro de lama por onde passava.  Valério não sabia o que fazer.


Depois de alguns minutos de reflexão decidiu-se. A casa tinha um banheiro de serviço, e nele, uma banheira. Pegou um par de luvas na bancada da cozinha, e encarou a tarefa bizarra. Deu banho no gato morto, secou-o com o secador e o colocou como se estivesse dormindo, no sofá da sala, em frente à televisão. Um lugar onde, pensou ele, os gatos costumam ficar. Limpou também Clyde, e completou o serviço lavando o chão da cozinha. A seu juízo, estava tudo como encontrara. Fechou a porta dos fundos. Tudo voltou à calma, e o cão deitou-se embaixo do sofá, perto do gato morto.

Com tudo isso, o tempo passou e faltava apenas meia hora para o casal voltar. Valério tomou o seu lugar no sofá, do lado oposto ao dos seus companheiros de aventura. Seu coração ainda batia forte. Aos poucos todos ficaram em paz. Agora era esperar.

O casal voltou conversando animadamente. A senhora Brubaker perguntou a Valério se tudo correra bem. Ele engoliu em seco e apenas confirmou com um movimento de cabeça. Qualquer palavra poderia traí-lo. A senhora pegou o pagamento, que estava em um envelope sobre o aparador e o estendeu para o rapaz. Ele guardou o dinheiro. O gesto foi imediatamente acompanhado por um grito da mulher. Grito de pavor. Ela pôs a mão na boca, olhando fixamente para o sofá.

– Bonnie! – gritou.

Ainda sem entender, olhou para Valério.

– O senhor não abriu a porta?

– Não! – respondeu ele, fingindo indignação.

– Não entendo! Como pode?

O marido intercedeu.

– O que foi, querida?

– A Bonnie! – exclamou. Aí foi a hora de o marido se assustar. Sem grito, mas com a mesma perplexidade. Valério não ousou perguntar nada. Temia se comprometer. Mas o casal notou que ele também não estava entendendo. Na verdade, o que os três não entendiam não era a mesma coisa.

A mulher aproximou-se cuidadosamente da gata, mantendo certa distância, com expressão horrorizada. Tocou-a de leve e constatou que estava morta. Desabou em choro, misturando comoção e pavor. Perguntou ainda uma vez.

– O senhor não abriu a porta?

Diante da negativa, olhou para Valério e achou que lhe devia uma explicação. Falou com dificuldade e engasgando-se no choro.

– Esta é nossa gata... Bonnie. Ela morreu ontem... Estava conosco desde pequeninha. Desde sempre. Viu nascer a nossa família... Todos ficamos tristes... Eu mesma... com estas mãos, cavei-lhe a sepultura. Fizemos uma pequena cerimônia. – Fez uma longa pausa. – E agora ela está aqui! Como pode?

Valério achou melhor aproveitar-se daquela confusão para sair.

– Senhora...sinto muito pela Bonnie... Desculpe sair assim. Estou preocupado com o horário. O alojamento...

Ainda mergulhada na comoção, ela consentiu. Valério saiu rápido, apertando os  seus dólares no bolso, desapareceu na madrugada fria. Perdera um cliente, mas, por certo não voltaria mais ali.

Silvio Colin

Silvio Colin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo UFRJ (1970), é doutor em Teoria e História (PROARQ-FAU-UFRJ -2010) e professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Departamento de Projeto de Arquitetura. É escritor, autor de dois livros: Uma Introdução à arquitetura e Pós-modernismo. Repensando a arquitetura, além de diversos artigos publicados em periódicos da área.

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