A história não é
minha. Nem poderia. Eu não seria capaz de criá-la. Acho mesmo que nem os
maiores criadores de histórias, nem Sherazade, nem os Irmãos Grimm, nem o
“Bardo” seriam capazes de tecer tal enredo. Apenas a própria vida, em seu poder infinito de costurar acontecimentos, poderia fazê-lo. Sequer me lembro de como tomei conhecimento
dela: se a li, ou vi na televisão. Sei apenas que foi narrada pelo personagem
principal. Peço desculpas por não poder citar corretamente a fonte. Mas não é por
isso que vou deixar de contá-la. Afinal, é uma ótima trama, e um contador deve
fazer de tudo para que as boas histórias não sejam esquecidas.
Valério era
mineiro de Uberlândia e estava em seus primeiros dias de Estados Unidos. Fazia
PhD em Relações Internacionais, em Columbia. Ainda não havia recebido um dólar
da bolsa, e precisava, naqueles dias, sobreviver com os magros dólares que
conseguira, numa vaquinha da família. Aqueles cento e cinquenta dólares por
cinco horas de trabalho como babysitter
seriam muito bem-vindos.
Chegou
pontualmente à casa do professor Brubaker. O casal, já em trajes formais para
um jantar, o recebeu com o jeito americano de ser simpático. Valério estava
tenso enquanto ouviu as recomendações da mulher. Não teria que se preocupar com
o bebê. Este estava com a avó. O outro filho, Ron, não daria problemas. Veria
televisão, jogaria videogames e iria dormir às onze. A recomendação mais
importante. Definitiva! Em hipótese alguma abrisse a porta dos fundos. Também a
da frente. Mas principalmente a dos fundos.
Certo? Certo! Tudo muito fácil.
De fato, Ron não
trouxe nenhum problema. O menino era dócil e educado, da maneira americana de
ser educado.
– Good night.
– Good night. E o menino foi para o seu quarto.
Foi aí que Clyde,
o cão da família, um belo labrador preto, começou a ficar inquieto. Circulava
pela sala, encostava-se em Valério, ia e voltava, sempre tendo como destino a
porta de serviço. Parava em frente a ela e começava a arranhá-la. Ficava sobre
duas patas, depois estendia-se no chão e virava a cabeça, procurando ver algo
pela fresta inferior. Valério foi ficando nervoso. Procurou nos armários da
cozinha. Serviu ração no comedouro, e colocou água. Clyde se aproximava, apenas
cheirava e se afastava. E recomeçava seu ritual de inquietação. Percorria o
perímetro dos cômodos e sempre parava em frente à porta dos fundos, e começava
a arranhá-la. Isto incomodou Valério de tal maneira que, após meia hora de
aflição, ele abriu a porta. Clyde projetou-se para fora antes que pudesse ser
contido.
Agora o jovem estava perturbado. O que tinha feito? Descumprira a única recomendação importante. Mas o pior estava por acontecer. Clyde voltou. Voltou com um gato preso às suas mandíbulas, pendurado pelo pescoço, e o depositou no chão. O animal estava morto, muito sujo, coberto de terra. Também o próprio cão estava imundo e deixava um rastro de lama por onde passava. Valério não sabia o que fazer.

Depois de alguns
minutos de reflexão decidiu-se. A casa tinha um banheiro de serviço, e nele,
uma banheira. Pegou um par de luvas na bancada da cozinha, e encarou a tarefa
bizarra. Deu banho no gato morto, secou-o com o secador e o colocou como se estivesse
dormindo, no sofá da sala, em frente à televisão. Um lugar onde, pensou ele, os
gatos costumam ficar. Limpou também Clyde, e completou o serviço lavando o chão
da cozinha. A seu juízo, estava tudo como encontrara. Fechou a porta dos fundos.
Tudo voltou à calma, e o cão deitou-se embaixo do sofá, perto do gato morto.
Com tudo isso, o
tempo passou e faltava apenas meia hora para o casal voltar. Valério tomou o
seu lugar no sofá, do lado oposto ao dos seus companheiros de aventura. Seu
coração ainda batia forte. Aos poucos todos ficaram em paz. Agora era esperar.
O casal voltou
conversando animadamente. A senhora Brubaker perguntou a Valério se tudo
correra bem. Ele engoliu em seco e apenas confirmou com um movimento de cabeça.
Qualquer palavra poderia traí-lo. A senhora pegou o pagamento, que estava
em um envelope sobre o aparador e o estendeu para o rapaz. Ele guardou o
dinheiro. O gesto foi imediatamente acompanhado por um grito da mulher. Grito
de pavor. Ela pôs a mão na boca, olhando fixamente para o sofá.
– Bonnie! –
gritou.
Ainda sem
entender, olhou para Valério.
– O senhor não
abriu a porta?
– Não! –
respondeu ele, fingindo indignação.
– Não entendo!
Como pode?
O marido
intercedeu.
– O que foi,
querida?
– A Bonnie! –
exclamou. Aí foi a hora de o marido se assustar. Sem grito, mas com a mesma
perplexidade. Valério não ousou perguntar nada. Temia se comprometer. Mas o
casal notou que ele também não estava entendendo. Na verdade, o que os três não
entendiam não era a mesma coisa.
A mulher
aproximou-se cuidadosamente da gata, mantendo certa distância, com expressão
horrorizada. Tocou-a de leve e constatou que estava morta. Desabou em choro,
misturando comoção e pavor. Perguntou ainda uma vez.
– O senhor não
abriu a porta?
Diante da negativa,
olhou para Valério e achou que lhe devia uma explicação. Falou com dificuldade
e engasgando-se no choro.
– Esta é nossa
gata... Bonnie. Ela morreu ontem... Estava conosco desde pequeninha. Desde
sempre. Viu nascer a nossa família... Todos ficamos tristes... Eu mesma... com
estas mãos, cavei-lhe a sepultura. Fizemos uma pequena cerimônia. – Fez uma
longa pausa. – E agora ela está aqui! Como pode?
Valério achou
melhor aproveitar-se daquela confusão para sair.
– Senhora...sinto
muito pela Bonnie... Desculpe sair assim. Estou preocupado com o horário. O
alojamento...
Ainda mergulhada
na comoção, ela consentiu. Valério saiu rápido, apertando os seus dólares no bolso, desapareceu na madrugada
fria. Perdera um cliente, mas, por certo não voltaria mais ali.
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